quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Dois




No fim da noite, depois de um dia exaustivo, dividido em mil pedaços (bom se fosse de bolo) , e uma tempestade de verão (bom se me refrescasse), noturna, sobre a minha alma, tive um daqueles insigths (detesto expressões americanizadas, mas não me vem outra) que me fizeram parar para pensar. Lembrava das palavras Comer, Rezar e Amar. Esse é o titulo do meu livro do momento, entre tantos de estudo ( ou era, até começar a ler o novo, Comprometida, presenteado pela vida, ambos da mesma autora, Elizabeth Gilbert). Deve ser porque está em alta, na boca de muitos, pelo lançamento do filme de mesmo nome
( colocar a Julia Roberts como protagonista foi um golpe e tanto...). Deve ser a ânsia de me esconder no escuro e viver a aventura da outra, assim, de longe. E ver no que dá.
E fiquei a pensar o que seria mais difícil: comer, rezar ou amar? Uns diriam que era Comer. Não no sentido bom da coisa, dos prazeres bem recebidos, mas pelas tantas culpas ardidas feito pimenta. Pelos tantos nãos. Nas tantas formas erradas que como - comemos? - pelas faltas, pelas carências, pelas trocas mal feitas de carinho por pão. Pelo que queremos e não podemos. Ou melhor dizer, pelo que não queremos. Comentei com uma amiga que reclamava que estava engordando e não conseguia parar de comer (soa familiar?), que nossa fome era outra. Ou seria melhor falar no plural? Fomes. Não do doce que entra pela boca, mas do doce que entra pelos olhos e pelo ouvido. Do real doce que nos regala. Nossa fome é de amor. Nossa fome é de amar. Passa longe da subtração incerta do ingerido pelo gasto. Não é mensurável, pelo menos até que a balança nos dê o resultado real.
Outros diriam que é Rezar. Acho tão simples, se não vermos como obrigação ou medo. Como imposição. Não passa de uma conversa íntima e verdadeira com a pessoa mais importante de nossa vida: nós mesmos. Rezar nos expõe, e isso é bom, sempre. Põe-nos em silêncio e de frente com o que somos, nosso medos e anseios. E isso pode ser difícil. Mas, passada a porta do entregar-se, alívio. Passa-nos a limpo. Lava a alma. Durmo em paz.
Ah, mas o Amar... sentimento tão falado, cantado, poetizado, filosofado, declamado,escrito. Mas tão difícil de se reconhecer, de se aceitar, de se acolher. Porque pede dois. Não se ama sozinho. Não existe amor a um, a não ser o amor incondicional de mãe, que tudo pode. O amor a dois pede parceria. Pede diálogo com as palavras e com os gestos. Diálogo com os olhos. Diálogo com a pele. Pede um par. Amar é uma dança. Um dueto. Não uma imitação feito fantoche. Nem mímica. Nem feito os sombras que nos acompanham nas ruas. Cada um faz sua parte da melhor forma para que tudo dê certo. Para se tornar um como soma de dois. E isso pede que superemos a matemática, esqueçamos a lógica. Pede treino. Pede comprometimento. Interesse. Dedicação. Mas não impede que pisemos no pé do outro ou desafiamos a voz, ou saiamos do rítmo, por mais que estejamos treinados. Por mais que estejamos conscientes. Amar pede cuidado diário. Mas não impede que na correria dos dias esqueçamos de regar. Porque somos humanos, não personagens com seus gestos calculados e falas comedidas. Somos humanos e trazemos conosco o que somos, o de bom e do de mal. Carregamos o DNA que nos define. Empunhamos os traumas, as experiências vividas, boas ou más, nossas ou de outros. As experiências lidas e ouvidas, das páginas de livros ou da conversa da esquina. Do passado mal vivido, que deveria ter sido esquecido, mas ainda vivo dentro da gente. E nem sempre a desculpa dos hormônios - ou de um dia ruim - parece pegar. Porque amar pede verdade. Pede abertura. pede transparência. Ver-se no espelho do outro. E isso nem sempre satisfaz.
Amar pede aceitação. Pede desprendimento. Acolhimento. Peito aberto. De cada um como é. De cada um como quer ser. Do que o outro quer de nós, ou seja, tudo. Como quem abre a porta da alma para um estranho. E faz de nós sua morada.
Posso ter mil (des)culpas prontas na ponta da língua por comer demais. Ou errado. Porque, no fundo, me dá prazer. Outras mil (de)culpas incutidas por rezar de menos. Ou errado. Porque, no fundo, acalma. Mas o que dizer ao amor? Digo que é alimento. Meia laranja, queijo com goiabada. Destes que matam muitas fomes e trazem tantas outras. Digo que é uma praga (por vezes da brava, destas que pega!). E , mesmo assim, rezamos tanto, de joelho no milho, para que dê certo. Amar não tem desculpas. Nem culpas. Amar é amar. Sala escura, labirinto secreto, temporal a descoberto. Dá medo, adrenalina, suor e palpitação,
mas adoramos entrar.
Dizem que para Goethe "é impossível compreender alguma coisa sem amar". Eu digo o contrário: é impossível amar sem compreender. Eu ao outro, o outro a mim.Um par.

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