terça-feira, 21 de setembro de 2010

Dominada


Certa vez uma livraria lançou um plástico, ops, adesivo, destes para carros, que dizia: "quem lê, viaja ". Eu adorei e adotei um no meu, o primeiro, minha primeira honra de ser proprietária de algo, e em minha vida. Levo as poucas e sábias palavras em meu coração.
E vejo nessa frase muita verdade. Viajo nos textos que leio, sejam eles de tantos livros específicos, como os que estou lendo para minha aulas de pós, quanto de romances devorados em horas só minhas, em revistas que recebo, ou que leio enquanto espero ser atendida aqui e ali - ou no banheiro, confesso, melhor lugar para se ler, já que ninguém ousa atrapalhar.
Viajo nas palavras escritas, quem me conhece sabe. Vem dai meu encanto por livros, já tantas vezes confessado aqui. Sinto-me bem em lugares com muitos. Como se respirá-los me fizesse melhor. E me envolvo com cada um, apaixonada, desde a capa, o cheiro, o toque, o folhear desprovido de outro interesse que não seja minha eterna curiosidade , resquício de infância. Não me faço de rogada, gosto de um tudo, de história verdadeira à história bem contada.
Viajo também nas palavras ditas, nos diálogos bem feitos de filmes e da vida e, mas raramente, novelas e episódios de algum programa de TV. E tenho aprendido, por vezes à duras penas
(preciso de um livro que me diga de onde vêm essas expressões...), a dialogar, discutir, palpitar, coisa que pouco fiz pelo caminho da vida, por medo da discórdia , por puritanismo, ou por me achar aquém. Aceitar parecia mais fácil.
Li hoje sobre a palavra amador/a, já que do alto de minha petulância me sinto como tal em relação ao que escrevo. Amadora. Até porque para se dizer profissional das palavras, ah, seria um insulto aos mestres, donos delas. Aqueles que as pegam e fazem de gato e sapato (de novo, cadê meu livro de expressões?) com tanta precisão. São "nerudas" e "garcias", "clarices" e "raqueis". São "pessoas".
Amadora, linda palavra, pejorativa ao primeiro olhar. Bonita e forte, quando se sabe. Nunca tinha parado para olhá-la com carinho, com olhos curiosos da primeira vez (a sempre tão assustadoramente encantadora primeira vez...). Vem do latim amator, ou seja, amante. Assim me vejo, amante das palavras. Mais que isso, viciada, na escrita e na falada. No jogo delas. Em como trocam de sentido tendo as mesmas letras, o mesmo som. Em como mudam de caminho dependendo de a quem dão a mão.
Amante, linda palavra. Lembrei de um texto enviado por uma grande amiga que nos dizia que deveríamos, todos, ter um amante. Alguém com que nos importássemos e que se fizesse recíproco. Alguém que nos fizesse pulsar como se o corpo todo fosse um grande coração. Que nos fizesse vibrar diante da vida. Pessoas fazem isso comigo. Hora me sacodem, até me assustam, hora me acolhem. Jogam comigo. Como as palavras. As simples e as metidas. Quem me dera ter o poder de Clarice, a Lispector, e poder dizer: "A palavra é o meu domínio sobre o mundo."
Eu, assumo, sou dominada por elas...

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