quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Esqueci


Estou sem graça. Esqueci, ontem, o dia da árvore, 21 de Setembro. Deveria ser feriado nacional, melhor, internacional. Bem melhor do que os feriados inventados, de santos ou políticos. Como acho, que dia das crianças deveria ser, mas me acalmo ao lembrar que a santa padroeira deu um jeito nisso.
Freiando os desvios de pensamento, volto ao tema. Longe de conversas sobre ecologia, sobre a qualidade do ar e a permeabilidade do solo, tudo isso que sabemos faz fingimos que não, quero falar das mil e uma utilidades - ou maravilhas - que sinto, que vejo, ali, a olho nu -mas não desprovido de poesia. Adoro a sombra, alívio, frescor. Adoro o cheio das flores, folhas , as cores e duas nuâncias de guache, e até o musgo que se agarra em suas pernas. Esperto ele. Pega a seiva , pega a sombra e fica ali, numa convivência pacífica que invejo (... tenho usado muito essa palavra, inveja...dava até um texto...mas é da boa, confesso!). Gosto da forma despojada que recebem a todos, crianças, animais, pássaros, insetos. Admiro a forma como aceitam o alívio dos cães. Gosto do como recebem a vida, hora desprovidas de tudo, hora cheias de verde e cor. Despem-se sem medo no inverno, se assim tiver que ser, vestem-se de folhas e flor quando é hora de ser, tudo a seu tempo.
Mas, sem magoar ninguém, pois amo todas, minhas preferidas ( ou seriam preferidos? Não quero ofender...) são os Ipês. Gosto da forma como se despem das folhas, como se fossem coisas que não servem mais, anunciando as mudanças. Põem-se como mortos aos olhos desavisados, quietos, pensativos, como deveríamos estar a cada sinal de quero mais. Como se à espera do que vem por lá, do que a vida traz. E quando menos se espera, renascem do nada. Quando , enfim, notamos, dentro de nossa capacidade humana e infeliz de abstrair o que está ao nosso lado, estão ali, frondosos, imponentes, cabeleira colorida , colorpower da vida, profusão em amarelos, brancos e rosas. Enchem nosso coração da esperança da mudança E as calçadas de cor, tecendo tapetes, daqueles que tenho até pena de pisar. No espetáculo, lição, mas só para quem está atento.
Quanta coisa nos ensinam. Despojar-se de tudo antes das mudanças, feito preparação de monge. Revisar caminhos trilhados, tirando deles o que tinham de bom. Deixar cair as mágoas, velhices trancadas, jogá-las no chão. Pelar-se do que não nos cabe mais. Desapegar-se, mesmo das coisas mais queridas, marcas da vida, que já levamos no coração. E assim aguentar o silêncio do inverno que há entre uma passagem e outra, uma estação e a próxima, sem reclamar. Recolhimento, renascimento, pensamento. Reflexão. E depois, sim, na hora certa, as novas folhas. Uma a uma se assim for, sem pressa. E depois delas as tão sonhadas e esperadas flores. Nossas melhores cores, nosso melhor perfume, para quem mereça admirar. E vivenciar.
É, esqueci do dia das árvores. Mas isso é convenção dos homens. Uma culpa a menos para carregar.

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