terça-feira, 14 de setembro de 2010

Longo pensar


Lia o livro recém lançado pela Elizabeth Gilbert -a mesma de Comer, Rezar , Amar, minha "bíblia" desde sempre, ao som da chuva gaúcha e do silêncio providencial de domingo. Eu, em meu mundo reparador. Nada mais propício. O tema é o que há. Casamento. Um livro daqueles para ler aos poucos, degustando, parando, como se a pressa queimasse a língua ou deixasse passar em branco o sabor.
Para quem não leu o primeiro livro, lá ela recém se divorciara, depois de meses se remoendo da culpa de "não ter dado certo". E, com a desculpa maravilhosa de ser jornalista, partiu pelo mundo numa viagem sem volta - em termos físicos, psíquicos, espirituais e amorosos. Passou pela Itália e se encantou com os italianos e sabores. Depois pela Índia (ou algo assim, não importa o lugar), onde aprendeu a arte de rezar, de esperar, da paciência - ou pelo menos tentou. E, por fim, conheceu um brasileiro (só podia ...), com quem aprendeu sobre o amor, sobre o sexo e todas as maravilhosas e também decepções deste setor.
Seu segundo livro, com seu título - Comprometida - e capa (um enorme coração vermelho ) com cara de romance, o tema é o casamento em sí. Um tema de amor e ódio, diria eu, se não levasse em conta o lado sempre otimista da autora (deve ser por isso que gosto. Não deixa gosto amargo na boca após a devora...) . Mas a face fácil de conto de fadas termina por ai. O livro, a grosso modo ou onde li, descreve o tempo que ficou "fugindo" do serviço americano por ser seu "marido" um estrangeiro. Deixo claro que até então ela o via como amante, namorado, qualuer coisa que não a lembrasse de aventuras passadas, e em vão. Deram a ela - ali, ainda na sala do aerporto - a única forma de manter o romance: casar. Isso no sentido mais burocrático possível: papéis. Documentado. Testemunhado. Aceito pela lei. "Nos conformes", para deixar mais leve a coisa. Fácil, não fosse o pacto já feito entre os amantes em não fazê-lo, dado o trauma de cada um, cada um com seu ex (isso em faz lembrar mil piadinhas que vou deixar de lado...). As alianças ( que deveria vir de aliado) até então vividas, digamos assim, não foram lá muito proveitosas, criando ranços difíceis de se engolir, gosmentos, com prazo de validade vencido. Ou melhor, e usando o lado em que me especializo, piso desgastado pelo tempo. Pode-se até limpar, esfregar de joelhos, encerar, tapar com tapetes, mas o anúncio do tempo passado está lá, a gente aceitando ou não. Feito tatoos, onde o significado fica na pele, mesmo que modificado.
Ou nosso passar pela vida, cravado lá dentro, enquanto o viver se aninha no peito.
Enfim, voltando ao texto, antes que me perca em devaneios in-úteis ou caia na picardia, ela inicia sua aventura conhecendo outras formas de se ver o enlace. As diversas culturas e suas formas de ver o causo. Proteção para alguns, sobrevivência para outros, salvação ou purgatório. O nada e o tudo. E descreve um sem fim de significados através de livros sagrados do que é ser o homem e a mulher numa relação. Do que é a relação em si. O ato. Símbolismo e con-vivência. Poder. Possuir. Como as leis que fizeram do casamento, papel. Como se ele precisasse de garantia. De testemunha. De lei, como todas as coisas chatas da vida. Sobre a divisão de bens (que deveria ser uma soma, mas...), sejam eles terras ou filhos. Como se fossemos, esposas e frutos, terra e casas, tudo uma coisa só ( eu falei "coisa"?). Onde as mulheres deixam para trás seu nome e viram esposa (vem de posse?) de alguém, assegurada pelo nome do "dono". Antigamente traziam junto seu dote (sem ele, nada feito!). Ou a igreja, que pôs nele o pecado para se valer do seu poder, fechando as portas do paraíso nos céus se fugíssemos do inferno na terra. E tantas e tantas covardias, assumidas ou não, muitas vistas comop normais, aceitáveis, "dentro da lei", como vemos até hoje, com mulheres sendo apedrejadas por não mais amar. Ou não amar a quem pertencem. Um não querer pertencer. Um amar mais próximo do ódio que dele mesmo.
Mas Gilberto faz disso comédia. Ou tenta, usando com facilidade o seu falar, como boa contadora de histórias que é, verdadeiras ou inventadas. Escreve leve, o qual invejo (da boa, da boa!), de tal forma que me fez - e me faz - parar para pensar. Refletir - e ver nisso meu próprio caminhar. Brigamos por tão pouco - mais por posições que credos. Mais por "teres" do que saberes. Lutamos por coisa rasa, esquecendo que o que nos torna profundos são os sentimentos. Lutas fracas. Ciúmes toscos. Inseguranças tolas. Ficamos cultivando as ervas daninhas, esquecendo de cuidar das flores. Porque toda união tem seu valor, seja ele qual for. Nem que seja para nos fazer crescer. E usa disso das mais diversas formas.
Mas, assumo. O amor tem lá seus riscos. Mas o que seria de nós sem ele? De que alimentaríamos a alma, se não fosse de paixões de toda ordem? Que vivamos, então, o que nos é dado viver. Se for luta, que seja nobre. Se for amor, que seja por inteiro. Nem que seja enquanto dure, como disse um dia o poeta. E com toda razão. Preocupamo-nos com um futuro da qual nem sabemos, mas é dele que se faz nosso movimento no mundo. Só não devíamos esquecer de abrir - e curtir - nosso presente, tão sonhado.
Faço uma pausa, três pontos, pois meus pensamentos voaram tão alto que nem eu mesma alcanço. Medrosa, retiro-me do texto. Fecho a página. Abro outra, em branco. Curiosa, procuro a palavra "casal" nos dicionários digitais e acho "casa pequena". Ou seja, "patrimônio", que vem de pai, homem, e lembra os "teres"( e "matrimônio" vem de mãe, mullher, bem melhor e leve, fácil de dizer. ...). E, assim, entendo melhor as diferenças. Procuro "esposa" e acho "posse". Mas também acho mulher e até amor. Bom se fosse, mesmo, tudo a mesma coisa...

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