domingo, 12 de setembro de 2010

Parada


Domingo. Quando eu era pequena - menor, melhor dizer - passávamos, invariavelmente, o domingo fora da casa. Meu pai "azedava" se ficasse em casa algum final de semana. E acho que meu cérebro codificou isso.

Quando éramos crianças ficava fácil. Já na sexta ou no máximo ao sábado bem cedo, meus pais arrumavam as tralhas e partíamos para alguma aventura, praia , campo ou viagem. Minha mãe sem querer, meu pai sem esperar. Ela, com razão, não gostava muito. Sobrava para seus olhos azuis administrar os levas, comida, roupa de cama e de banho, além de nossas roupas. E éramos sete ao todo - cinco, mais o pai e ela, dá para imaginar porque ela não era tão apaixonada pela ideia. Muitas vezes meu pai chegava em casa já na sexta e queria tudo pronto, colocar no porta-mala do carro e pegar estrada. A chegada era chata: retirar tudo, colocar as coisas nos devidos lugares, ajeitar - ou até limpar - as casas. Um olho nos mandos da mãe, outro na rua, e o olhos da rua sempre mais interessantes. Enfim, isso feito, partíamos em alguma aventura, mato ou água. Eu gostava de tudo: das camas com cheiro de armário, os acolchoados aquecidos ao sol, das refeições enjambradas. Das descobertas de novas casas com meu pai, de juntar conchas para minha mãe inventar alguma coisa. De ler Seleções na hora do silêncio obrigatório. Lembro muito das sopas de legumes com milho em espiga. E dos "caputinos" de minha mãe, uma mistura pronta de leite Ninho, Nescafé e Nescau, quando nem se falava em merchandising e adicionava-se água bem quente. As bolachas eram intragáveis, com gosto de ontem ou da lata velha, mas a fome as tornava deliciosas. Como delicioso o sono depois de travessuras plantadas e banhos não muito quentes. Isso é fato: nunca tive banhos bons em minha infância, a não ser os invejáveis banhos de bacia de alumínio, a mãe atenta. Na praia era quente demais ; no sítio, morno, na bacia. Deve vir dai meu fascínio por "banhos de hotel". Não gostava das voltas. Recolher lençóis, guardar cobertores, juntar brinquedos, fechar a casa. E as intermináveis viagens de volta, onde nossa impaciência e cansaço não combinavam com o jogo no rádio do carro.

Então as crianças cresceram. Vieram os bailes, depois as discotecas. E meu pai tendo que esperar a boa vontade para se mandar. Ou aceitar o ficar. Nunca aceitou a desobediência de olhos abertos (talvez por desejá-la cega...). A matriarca gostava, folga para ela. Ele, virava bicho, e minha tarefa de " xodó" ainda grudada em casa era acalmar com um café da manhã servido na cama ou passeios de mãos dadas (dai meu encanto por caminhadas?). Bem ou mal, fazia meu papel de calmante, apelido que minha mãe me dá até hoje. Toda vez que a coisa estava para estourar, lá ia a boa menina a tapar a vida com panos mornos. Quem sabe beijos. Ou retiradas estratégicas. Então, eu cresci, fui em busca de algo. Talvez tenham me trocado pela solidão. Talvez por nada. Perdi meu papel, a não ser quando testava meus dons de camomila nas voltas para casa, cada vez mais escassas.

Domingo. E eu aqui, longe de casa. E eu aqui, sozinha, depois de dois dias de aula e falas. O afastar-me de tudo - e o livro com cheiro de novo - me faz companhia, já que o sol deixou o passeio para amanhã. Aprendi a gostar de domingo assim, feito de nada. Sem agenda ou aventura forçada. Feito recompensa para quem já fez muito. Aproveito que minha criança cresceu e seus programas são outros, agora divididos. Não mais passeios de bicicleta, nem banhos desavisados no rio. Quem sabe cinema. Mas isso eu resolvo quando voltar para casa. Em silêncio. O motorista do ônibus, para minha sorte, não gosta de futebol...

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