sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Pedido



Perfeccionismo é um terreno perigoso. Estamos sempre - ou pensamos estar, melhor dizer - aquém de nossas possíveis possibilidades (seriam possíveis+habilidades?). De nossa procura de ser uma boa menina. A mesma que nos pediram para ser tantas e tantas vezes...
Perfeccionismo. Coisa de mulher. Assim como culpas. Outro dia abriram meus olhos claros para as culpas, feito raio de sol inesperado. A vontade era de deixá-los confortavelmente fechados, mas diante de tamanho deslumbre, abri. À visão de quem vê se fora, achamo-nos as todas poderosas, as donas do mundo, seres únicos, e por isso as malditas e mal pensadas culpas. As pesadas culpas, tão chatas e irritantes, feito malas sem alça e de rodinha quebrada. Deve ser isso que descobriram os grandes pensadores, imagino, fechados em suas saletas a pensar, enquanto alguma mulher lhes preparava a comida, ou aquecia sua cama. Se me sinto, direta ou indiretamente, culpada de tudo o que acontece à minha volta, é porque, dizem eles, na minha falsa ou verdadeira grandeza interna e por vezes inconsciente, que só eu teria o poder de resolver as coisas. De fazê-las acontecer. Sem o eu, eles nada seriam.
Ou não. Aqui com meu zíper - na ausência de botões-, imagino ser coisa de mulher. Coisa de fêmea (ou alguém já viu no mundo animal um pai rodado de suas crias?). Diria mais: culpa do mundo masculino ou, como diria meu pai, e acho eu ser tudo a mesma coisa, culpa da sociedade, essa feita por homens, legislada por leis masculinas, e acatada secularmente por nós. Dão ao nosso mundo de bombril as mil e uma utilidades que só uma mulher pode ter, "deve" ter. Empurram para nós todas as facetas do dia, desde sempre, desde as famigeradas brincadeiras de casinha, enquanto aos meninos restavam a vida a céu - e portão - aberto. Ou as divertidas corridas de carrinho. A eles, aventura. A nós, tarefas. Alimentávamos e cuidávamos de nosso "bebês" como se fossem filhos. Resolvíamos conflitos familiares em escala menor, mas não menos dramática, quando ainda não tínhamos tamanho para cuidar dos irmãos. Por isso me divirto ao ver o lançamento de novas bonecas, mais preocupadas com roupas e baladas que com maridos e filhos. As novas meninas, algumas, espertas, vivem de aventuras.
Outras continuam a empurrar carrinhos.
Sobre as culpas, ando me policiando. Já tenho as minhas, tantas, grandes ou pequenas, como aquela bela fatia de torta de morango a qual não resisti. Ou deixar para amanhã o que poderia ter feito hoje, afastando-me dos ditados populares. Se o filho fica gripado, deve ter feito algo para tal. Se o cachorro adoece, coisas da natureza. Se alguém pede dinheiro na rua, deve ter procurado por isso. Se a casa está suja, melhor reclamar com a empregada. Se deixei algo a "descontento", é porque não me interessava. Que não cabem em minha vida todas as crianças abandonadas. Nem o pensar que posso resolver os problemas dos outros, se mal resolvo os meus. O melhor que posso fazer é estar aqui, é apoiar, é dar o meu melhor. É respeitar. Aconselhar. Amar. Cuidar à distância, sem redomas. E deixar que a vida de cada um siga seu percurso, desviando dos redemoinhos e pedras. Feito folha que cai no rio.
Mas, voltando as culpas, anuncio: troco de papel. Espero que me cuidem. Espero que me abracem na hora da tempestade. Que me escutem. Que me dêem colo e aconchego. Que me alimentem de comida e vida. Que me levem para as aventuras do dia. Que me vejam menina. Que me façam rir. Ou até chorar, mas só se for de emoção...

Nenhum comentário:

Postar um comentário