quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Calada


Li no jornal que a primavera começou às 00h09 do dia 23 de setembro, portanto, hoje. Serão 89, 85 dias nessa estação. Achei graça da precisão dos minutos e dos dias picados, a la relógio suíço, já que a estação tem para mim mais cara de alma do que de dados.
Descobri, também, que o horário tem mais a ver com a astronomia que meteorologia; enfim, um dado exotérico. Os astros a determinam. Exatamente neste horário, os dois hemisférios da Terra receberão a mesma quantidade de energia do sol. A partir dai, o sul começará a receber mais energia que o norte. E assim será até 21 de dezembro, às precisas 21h38, quando chegaremos ao máximo de energia vinda do sol, enquanto que o hemisfério norte receberá a menor quantidade dela. Será o fim da primavera e o começo do verão no Brasil. E , curioso, fascinante saber, diria, somente hoje, todas as cidades do planeta terão 12 horas claras e 12 horas de penumbra. Enfim, a igualdade no mundo - pelo menos em termos de sombra e luz. E pelo menos por um dia, dos outros tantos de desigualdade. E uma transição, uma forma amena de separar o frio do inverno do calor do verão. A esperada seca de um da esperada chuvarada do outro. Apesar de não ser sempre assim, dado ao mal humor do mundo.
Vejo que a chamada "estação da flores" é muito mais que isso. Muito mais do que árvores floridas, jardins coloridos, vitrines divertidas. Muito mais que o romantismo reinante. Representa, agora, para mim, igualdade, fraternidade e , quem dera liberdade, para combinar com outras lutas, bem mais motivadoras e sólidas. E uma estação confusa, já que um dia pode ter a cara do verão, outro do inverno, ou todos em um, quem sabe. Pode amanhecer frio e esquentar ao longo do dia. Ou fazer surpresas nem sempre agradáveis. Seria mais uma forma de se fazer importante? Ou , talvez por ingenuidade, de tentar agradar a todos, diria.
É, a vida dá lições para todos os lados - e assuntos - que se olhe. Talvez eu seja como a primavera, essa "prima" que descobri ser bem mais do que passagem, muito mais do que fachada. Sou um pouco de tudo e tudo ao mesmo tempo. E por vezes, muitas, nada, vácuo. Talvez devesse não me deixar levar tão facilmente pelo vento frio da manhã, nem reclamar do furor do calor do sol a pino. Talvez devesse viver mais o que sou, ser mais eu mesma, quem sabe assim enfrentaria melhor os dias. A Joyce que teima em se esconder por detrás da vida devia mais era mostrar a cara. Ou, talvez, concordar com Machado de Assis e devesse me calar. No meu silêncio, muito.
"Há coisas que melhor se dizem calando".

Nenhum comentário:

Postar um comentário