domingo, 26 de setembro de 2010

Inteira

Tempo estranho em Porto Alegre. Destes com cara de praia. Hora sol, quente, preguiçando mais ainda a  minha preguiça. Hora frio, cara de chuva, aumentando a vontade de fazer nada. Eu estou num dia de cão. Melhor gato, que não dá bola para os outros e faz de sua vida, sua. Dia sem eira, quem dirá beira, feito o tempo. Cara de primavera, sempre indecisa. Já li, já comi, já dormi. Já li de novo, já comi de novo, sonhei no sofá. Nos livros aprendo sobre o amor - e o casamento em sua particularidade. Sobre o amor dos grandes mestres(*) , que não viviam só de pensamentos e passagens. Gênios que marcaram o tempo, como Sócrates e Marx. Como Shakespeare e Balzac. Eles, surpreendo-me, também amaram. E com a leveza do autor, que cita trechos de músicas brasileiras a cada início de nova aventura, como forma de suavizar o tema...
Mas é na minha autora predileta (**) (de hoje, amanhã não sei) as mil facetas desse compromisso com o outro. Talvez porque ela seja mulher, talvez por histórias tão iguais ( na verdade ou no sonho). Da lenda de Zeus, que dividiu os homens em dois por descaso aos deuses. Dizem que éramos dois em um, duas fêmeas, ou dois machos ou a ambos, e assim completos. Ri da figura descrita: quatro braços, quatro pernas, duas cabeças. E pensei no lado pratico de cada coisa. Uma cabeça trabalharia, outra só se deliciaria com o pensar. Uma mão para escrever e as outras para afagar, arrumar, fazer. As quatro pernas divididas em gastar energia ou colocá-las para o ar. Se é verdade, eu era feliz e não sabia. Mas a desobediência trouxe o corte, bem ao meio, e se perdeu no mundo a nossa outra metade. Aquela, a metade da laranja, a alma gêmea, que procuramos até o fim de nossos dias. E, para desagrado das românticas como eu, fica claro a dificuldade do encontrar. Do reencontro comigo mesma. E que as "almas gêmeas" encontradas não passariam de outras almas perdidas a procura delas mesmas. E seria o amor um simples conforto. Um aceitar de que outra pessoa nos complete. Do sonho de sermos duas uma só.
Descobri-me mais me divertindo com a história, que decepcionada. Mais uma de mim nem eu aguentaria, que dirá o mundo! Prefiro ir me levando como levo o dia: se esfriar, cobro-me. Se esquentar, abro a janela e convido o vento a entrar. Se der sono, durmo. Se o amor me chamar, atendo. Vivo o momento que me vem, e sempre na espreita de me achar nele. De me encaixar. De me ver em seu espelho. De me reconhecer nele. Fica mais fácil entender o outro que me é igual. Mais fácil pensar em como devo agir, já que, no fundo, ele sou eu e me conheço bem  (apesar das gavetas trancadas). Sei como me tratar. Sei como me viver. Sei bem do que o meu amor é capaz.
Agora, peço licença. Vou acordar a minha outra parte, com um beijo na testa:  já é hora de levantar.

(*) Sobre o Amor, de Leandro Konder.
(**) Elizabeth Gilbert, autora de "Comer, Rezar, Amar "e "Comprometida, uma história de amor".

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