domingo, 31 de outubro de 2010

Caminho


Estou lendo um livro sobre felicidade. Não tão simples assim, nem o livro e nem o tema. Estava eu agora jogada no sofá, e olhando o sol que deu as caras recém agora, final de tarde, depois de uma manhã chuvosa e um continuar cinzento.
Fiz do dia o que eu pude. Estudei o que tinha que ser estudado (sim, eu estudo nos finais de semana...), trabalhei o que tinha para trabalhar (sim, eu trabalho nos finais de semana...), caminhei até cansar. Cozinhei porque tinha que, fui dar uma volta com o filho e meu cão - atendendo a pedidos e latidos. Sentei em meio-fio, pisei na grama, corri, ri do jeito que o filho andava de skate (lembrava o " seu coisinha de jesus", do Casseta & Planeta., dá para imaginar e não rir? ). Dei água para o cachorro usando a palma de minha mão. Senti meu corpo satisfeito e cansado. Descansei. Dei-me ao luxo de dormitar no sofá. Afinal, é sábado.
Então, acordei com o sol lá fora. Por um momento senti-me insatisfeita com o dia. Culpa de meu pai, que não esquentava sofá nos finais de semana - nem naqueles de "chuva de canivete". Peguei dele a mania, imagino. Fica sempre a sensação de que estou perdendo algo. Como se o algo estivesse só lá fora. Como se o algo não pudesse ser eu, e só. Ah, se o sol não tivesse dado as caras, eu nem tinha percebido
o dia passar...
Mas voltando ao livro sobre felicidade - um tanto denso, nada fácil - peguei o que me cabia. É um daqueles tantos livros que não se lê de uma vez só, feito romance. Não tem um fim. É como se plantasse apenas um senão, um talvez, um quem sabe. Que me perdoe Bauman, o autor, mas é um livro de rabiscar. Sublinhar. Alinhavar. De contrariar, rever reler tantas vezes as necessárias até ter peito suficiente para discordar. Ou juízo suficiente para acatar. Mas numa coisa acredito: felicidade é o caminho. Vivido ou sonhado, acrescento eu. Aquela sensação do querer. Do viver o momento. E de se imaginar em outros, tantos.
Seria, então, a esperança companheira da felicidade? E ficariam de mãos dadas com meus dias os que ainda tenho a viver? Então, caro Sygmund, pode ser nada. Pode ser tudo. Pode ser o que se vive. E o que se revive. E o que se sonha. E o que se lembra. Um sorriso. Troca de olhar. O que se sente. O ser retribuído. Uma gargalhada - uma de tantas. Um passeio de mãos dadas. E fazer isso tudo vir à tona vez por outra e nos fazer escorregar os lábios de prazer do bem vivido. Disparar o coração sem aviso. Eternizar o feliz é felicidade. Trazer na pele o que me faz bem, mesmo longe. Então, meu caro amigo, não é só a viagem. Não é só o caminho que faz o trem da vida. É a lembrança das paragens. Do aceno nas estações. Da próxima, onde alguém nos espera. E a certeza de poder viver aquilo tudo de novo. Tantas e tantas vezes, ao vivo ou no coração. Felicidade é viver. Mesmo que sentada no sofá. Mesmo que com a cabeça em outro lugar, em outro tempo, passado ou futuro. Mesmo aqui, onde estou.
E poder dizer aos mais desligados:
" Eu não sou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada". Como fez uma certa Clarice.

sábado, 30 de outubro de 2010

Pacotinho



Ontem minha vizinha saiu de barriga e  voltou com um bebê. Para quem vê de fora, simples assim. E eu voltei no tempo. Senti até o cheiro do pezinho, a maciez da pele, o calor no colo. Fiquei cuidando de longe, preocupada com os barulhos da  vizinhança nada atenta. Ou, pelo menos, não tanto quanto eu.
Chovia muito quando , enfim, o meu veio ao mundo. Numa segunda nada "garfieldniana". Pais de primeira viagem, avós nem tanto. Uma dupla de médicos daquelas que fazem piada de tudo. Uma cesária necessária para acalmar os ânimos dos que moravam longe. Foram meses de espera sozinha, salvo algumas visitas de final de semana. E para dar à mãe do menino, uma data. Um fim.
Gostei de ser grávida. As pessoas te olham com mais respeito. Muitas com admiração, não sei  se pela mãe ou pelo menino ou menina que vem. Outras com interesse, como as crianças. Devem se perguntar como entraram. E como couberam ali. E como saíram, pergunta que vem às boquinhas curiosas mais cedo ou mais tarde. E umas com pena -  devem saber do que vem por ai.
Mas gostei. Nem que seja pelo fato de que se tem algumas regalias, como nas filas. Ou nas cadeiras das salas de espera. E porque todos nos acham linda, por mais formato de bola que tivermos. Para quem tem um certo trauma de ser gordinha, meses de alívio. Nem se pensa no que vem depois...
Minha vizinha saiu de barriga e voltou com um bebê. Tomara seja um menino. Sofre menos a mãe e o próprio, dada a  liberdade de o ser. Se for menina, já terá que guardar no livro da vida espaço para
ser mãe.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Preciso


Mais um dia ou menos um? Outro dia coloquei essa pergunta no ar e surgiram mil respostas e mais mil indagações, do tipo "o ovo ou a galinha". E cada uma a seu modo. E volta a meia ela insiste, bate à minha porta  a me sondar outra vez, como que insatisfeita com as respostas. Ou com nenhuma. Ou, quem sabe, nem quer me ouvir.
Mais um dia ou menos um...Muitas pessoas ficariam em dúvida. Mas não eu. Não eu que sei onde quero estar...Estava distante quando pensei isso hoje. Pensava no meu mundo radiante. Seria a resposta do dia, caso o dia me perguntasse. Tentei imaginar a cena. Ele sentado ao meu lado, a olhar o pôr do sol, quatro pés balançando no trapiche. Nem olharíamos um para o outro, olhos fixos no horizonte.
- É essa a resposta do dia?, escutei ele resmungar.
 A que respondi  prontamente, quase cuspindo da boca, tamanha certeza:
- Não! Resposta de uma vida!
E continuei meu diálogo incessante, eu  e o passar do tempo, sem nem saber se ele queria ouvir (tem vezes que se pergunta sem nem querer saber...)
- Mais um dia quando se quer se livrar dos dias -  e às vezes quero, completei. Menos um porque sei o que quero para mim. Sei onde mora o meu Sol.
Materializei o desejo. Meu sol. Tal sonho reverberou em mim. E me peguei a pensar na engrenagem toda, no tiquetaquear dos segundos, na precisão dos ponteiros, um levando o outro a passear. Na engrenagem que faz bater o sino. No cuco que anuncia as horas. Na areia escorrendo de um vidro a outro. Lembro do relógio de água, do de bolas. Dos tantos espalhados pela casa. De outros tantos guardados em caixas, satisfazendo gostos. Pequenos , grandes, redondos, quadrados. Na diversão de, neles, ver o mundo passar, preencher um minuto, completar os sessenta, e eu a esperar. Vinte quatro voltas a dar.
Menos um dia. Bem vivido, mas menos um. Como se estivesse passando a limpo as coisas pendentes. Como se não quisesse deixar para trás nenhum rastro. Ou deixar, sim, porque sempre deixamos - mesmo à beira do mar, onde ele se encarrega de apagá-lo. Ou por dentro do rio, onde ele, o rastro está, mas não vemos. Nossas marcas ficam, modificam, sem que queiramos ou pretendamos. Passamos, e algo fica. Sempre fica. Um pedaço de nós fica lá.
Menos um dia no calendário, que risco, diariamente, e  com boa vontade, com canetas coloridas. Esse dia, lembro, não volta mais. Missão cumprida, por mais comprida que tenha sido. Se tivesse um de parede - destes de página inteira - rasgava. Simbólicamente sumia com ele. Menos um.
 E amanhã tem mais.

"E todos os dias têm essa janela por diante,
E todas as horas parecem minhas dessa maneira"
Passagem das Horas poema de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Demais



Descubro como sou frágil. Seria melhor dizer fraca? Sou pior que o tempo. Esse, um bom pescador sabe lê-lo entre as nuvens. Sabe quando o céu de anil vai se transformar, cedo ou tarde, num quadro cinzento. Eu,  não. Sou como os dias que a tempestade vem tão rápida que nem o mais experiente homem do mar  nota. Ou porque se distrai com algum peixe lutador e se deixa levar pela água. Nem nota o vento mudando, nem o mar agitado. Deve ser porque ama o mar. Porque confia nele. Precisa dele. Faz dele sua morada.
Sei bem o que me atinge, assim, no meio do peito. São os tornados. Mudam de ideia e de caminho sem nem avisar. E levam  tudo pela frente, sem nem pedir licença. Arrasam até as mais calmas pradarias - muitas que nem estavam no trato. Aliás, somos assim. A famosa "gota dágua" nos atinge. Entorna o copo. Vira tsunami. Como se fôssemos, todos, formigas, esses seres da máxima importância, mas que
nem sempre se tornam visíveis.
Outro dia me peguei pensando o que as mais pequenas gotas de chuva representam na vida dos pequenos seres. Lembrei dos desenhos animados, onde gotas viram bombas. Uma chuva, guerra impiedosa. Assim somos - sou? - quando algo nos atinge, por menor que seja seu volume. Depende muito de quão agarrados estamos. Do quão dependentes. Depende muito do valor do efeito para nós. Sobre nós. Mas tento entender. Foi a gota. Uma sucessão de  muitas que nem percebemos, mas estão lá, entornando o copo. Ou tentando. E , basta uma, minúscula, última, e toda a água se vai. Fica o copo ali, meio sem ação. Meio cheio ou meio vazio, depende da visão.
Frágil, sinto-me. Fraca. Deixando-me levar pela menor marola. Mas porque sei que é mais uma, de tantas, repetidamente tentando me tirar do rumo. Do prumo. Testando-me, como sempre. Deve ser porque me atinge a alma. Quando tira o sorriso da menina, por amar esse louco mar.
Demais. 

Sou como você me vê,
posso ser leve como uma brisa,
ou forte como uma ventania,
depende de quando,
e como você me vê passar.
(Clarice Lispector)

Ps.: Descubro que as tempestades passam. Sempre. No meu caso, basta uma caminhada com o filho, cachorro a tiracolo. As nuvens se dissipam, o céu se abre de novo, um sorriso volta ao meu rosto suado. Voltei cantarolando. Tudo volta ao normal.
Ou quase. Falta fazer as pazes com o mar...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Desfrute



Hoje o dia rendeu. Teve 48 horas, penso. Fiz de tudo um pouco, entre trabalhar, resolver problemas e curtir a vida. Olho para trás e vejo o quanto fiz, o quanto fui. Vejo quem sou, o que sou, quem quero ser. Como gosto de ser. Ah, e como é bom saber que tenho, ainda, uma noite toda pela frente. Quem sabe um carinho no filho, um bom banho morno, um livro. Talvez o nada, talvez o tudo.
Quem sabe matar a saudade do que me faz tão feliz.
Hoje o dia rendeu e me sinto outra. Rejuvenesço, como se o bem passar das horas me passasse as rugas. Como se o dia tivesse me dado a mão para passear. E agora  a noite, carinhosa, vem chamando para descansar. Sinto o gostinho - simples -  da missão bem cumprida. Do não deixar para amanhã, que pesa tanto na alma. Nem arrastar nas costas as coisas mal resolvidas. As pendências, para mim,  pesam feito chumbo, como se me segurassem no passado. Como se me colassem no cimento. Como se me grudassem nelas, páginas travadas.
Para comemorar, vou chupar laranja. Assim, de boca, como fazem as crianças. Ou comprar um picolé e deliciar-me com seu gosto doce derretendo na boca, feitos as horas. Quem sabe eu danço uma música. Quem sabe remexo armários. Ou escuto boa música, deitada, assim, de pernas para o ar. Ou me dou ao desfrute de um não fazer nada. Apenas esperar o tempo passar. Esperar  a noite me chamar para um bom sono merecido.  Meu presente do dia. E um novo dia a me esperar.

Sigo, quintaneando:
"Se me fosse dado um dia, outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo... "
(O Tempo, Mário Qintana)


terça-feira, 26 de outubro de 2010

Companheiro


Recebi uma mensagem sobre cães  com verdades que já sabemos, mas deixamos de lado porque, com certeza, mexem conosco. A gente é assim mesmo. Eu, pelo menos, assumo. O que nos parece óbvio, não damos importância. Ou pelo menos, não a devida. Como se provassem  a nossa incompetência para coisas simples, fáceis, alcançáveis, mas das quais  - e talvez pro isso mesmo- fugimos. Negamos.
Dizia mais ou menos isso:
Se um cachorro fosse professor, você aprenderia coisas
importantes...
Quando alguém que você ama chega em casa, corra ao seu encontro
 Lembro que fazia isso quando criança. E, como mãe, recebia meu filho na porta de casa, já de banho tomado e pijaminha xadrez, braços abertos pedindo um belo abraço. Quer coisa melhor?
Nunca perca uma oportunidade de ir passear.
Ah, bem sei a diferença disso. Seja em prol da saúde ou apenas para "desanuviar". Caminhe. Desfrute desse mundo que é seu. Nem que seja até a padaria mais próxima. Que tal um sorvete?
Permita-se experimentar o ar fresco do vento no seu rosto.
Bom essa diz tudo. Lembre-se que um dia foi criança, e que janela aberta era sinônimo de  liberdade...
e de riso! Vento traz suavidade e leva mal estar.
Tire uma sonequinha no meio do dia e espreguice antes de levantar.
Essa eu sigo, parte por recomendação médica, parte porque me amo. Sonequinha dá uma sensação de sábado, prepara a gente para o segundo tempo do dia. E depois espreguiçar, várias vezes ao dia, tira  a preguiça - como o próprio nome diz - e acorda o corpo.
Corra, pule e brinque todos os dias.
Difícil seguir com nossos corpos travados pelo tempo. Quem sabe substituir por umas belas gargalhadas? Ou uma brincadeira com o filho ou com o cão? Não há de se perder nada...
Não morda quando um simples rosnado resolve a situação.
Achei ótima a sugestão. Fazer tempestade em copo d'água nem sempre é uma boa solução. Por vezes a coisa toda uma proporção inimaginável. Vira tsunami...
Em dias quentes, pare e role na grama, beba bastante líquidos,
Rolar na grama é demais, mas pisar na grama descarrega. Deixa na terra os maus fluídos. E beber líquidos, coisa de que sou fã, bem sei a  diferença. Com se limpasse o corpo. E com ele, a mente.
e deite debaixo da sombra de uma árvore.
Saudade da infância. da árvore lotada de laranja. Do balanço ali tão esperado. Quem já deitou debaixo de uma árvore sabe do que falo. Momento inigualável.
Quando você estiver feliz, dance e balance todo o seu corpo.
É...bem sei... chamo de dentro de mim minha menina de plantão. Ela sabe como me deixar feliz...
Não importa quantas vezes o outro te magoa, não se sinta culpado...
Com certeza a lição mais difícil de se aprender...talvez por nos acharmos perfeitos e, por si só, indignos de todo mal.
e volte e faça as pazes novamente.
Parte complicada, que tenho aprendido com meu filho. Um abraço já diz quase tudo.
Aproveite o prazer de uma longa caminhada.
Se alimente com gosto e entusiasmo.
 E coma só o suficiente.
Essas parecem saídas de um livro de saúde. Ou das dicas de algum centenário. Mas porque é tão complicado de se seguir?
Seja leal.
E aqui eu completo: com os outros e com você mesmo - o que parece ser a parte mais importante. Ser leal comigo implica em me conhecer bem - e aceitar como sou - , saber o que realmente quero, e saber que tenho como fazê-lo.  Se fossemos leais a  nós mesmos, seríamos como os cães. Deve vir dai a verdade deles. E nós ainda os chamamos de irracionais...
Mas ser cão é muito mais do que isso. É se contentar com um carinho qualquer. É entender como o outro está - e respeitar isso. É tentar mais de uma vez deixar o outro bem, não desistir  pela cara feia. Nem que seja apenas sentando ao seu lado, olhando bem nos olhos, na tentativa de conseguir um sorriso. É fazer o outro entender que faz a diferença. Que nos importamos. Que a felicidade dele é o que nos faz feliz. Talvez esteja ai a melhor lição do cão: ser companheiro. Para o que der  e vier.
Sempre.





segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Regando


Li, com um misto de admiração e emoção, o texto "Quatorze minutos de reflexão", escrito na semana passada, onde Mario Vargas Llosa descreve a rede de emoções, todas, que traçou nos minutos entre receber a noticia de sua nomeação ( não seria melhor dizer coroação?) para o Prêmio Nobel de Literatura. Seriam longos 14 minutos entre o telefonema oficioso e a confirmação oficial para a imprensa mundial. Quatorze minutos que o escritor teve para rever sua trajetória e planejar-se para o evento e suas ramificações, as tantas redes a traçar. E viver. O gosto da vitória, o sabor do reconhecimento, ainda em vida, e  o medo do que virá. Fala de manicômio, sabendo-se exposto ao mundo canino das celebridades da vez. Seria disputado, puxado, seguido até que a memória das pessoas se colocasse de novo no rumo das coisas normais. Para elas, mais um.Para ele eterno.
Coloquei-me no lugar dele, assim, corajosamente metida, sem nem pedir licença. Viver de escrever. Meu sonho. Quem dera. A boa sensação desta que me parece ser a melhor das "profissões", aqui entre aspas, pelo valor endeusado que a dou. Acordar e ter como meta o bom entendimento das ideias, a companhia sempre agradável das palavras bem escritas. Um lapidar de pensamentos. Joia de entendimento. Como se cada texto - ou livro - fosse uma vida. Quem sabe seriam os escritores e poetas ( não seriam eles  a mesma coisa?) gatos de tantas vidas? Sete, dizem. Mas muitos têm infinitas, e muitas sem morte. Escritor tem vida eterna, como sonham os cristãos. Uma boa frase, um bom texto, um livro podem viver dentro da gente até que as cinzas nos levem. Mas elas, as boas palavras, não viram cinzas. Virão outros a abrir o tesouro amarelado e vivê-las novamente. Ressucitá-las  a  cada vez. Deve ser por isso que sonho em viver para escrever ( mais do que escrever para viver, tarefa bem mais complexa...). Talvez queira eu, nada humildemente falando, imortalizar-me entre folhas. Imprimir nelas meu viver para a eternidade. meu paraíso efetivado.Seriam os escritores santos? Deuses? Então, deusa quero ser!

" E pensei em quanto eu tive sorte na vida por seguir o conselho do tio Lucho e ter decidido, aos 22 anos, naquela pensão madrilenha da rua do Doutor Castelo, em algum momento de agosto de 1958, que não seria advogado, e sim escritor, e que, desde então, ainda que tivesse de viver com pouco dinheiro, organizaria minha vida de modo que a maior parte do tempo e da energia fossem dedicados à literatura, e que eu só buscaria empregos que me deixassem tempo livre para escrever", relembra ele, em meio ao belo texto, ainda dividido entre a vida sonhada e agora realizada, e as providências pedidas.

Ah, meu amigo, que doce sonho. Antes tarde do que nunca. Eu continuo pacientemente regando o meu...

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Meu vaso




Tem dia que as coisas parecem que não vão sair do lugar. Dos trilhos, como se diz por ai. Que ficarão emperradas - e emperrando - pelo caminho. E, espertas, não vêm sozinhas.
Poderia me deixar levar pela maré. Parece, por vezes, mais fácil. Não lutar. Nada fazer. Mas onde nos levará? Nem sempre  - quase nunca - às praias imaginadas, aos paraísos sonhados.
Mas já notei - pena não levar ao pé da letra - que espernear de nada adianta. Parece querosene na fogueira já alta da vida. Por vezes é melhor dar um tempo, afastar-se do problema, ver que rumo ele pega - se sai do nosso ou se devemos confrontá-lo de vez. Deixar que as coisa se resolvam por elas mesmas, parece ser uma boa estratégia. Usar de meus olhos de menina.  ‎E, quem sabe, fazer até graça da desgraça toda.
Então, leio uma frase que me refresca por dentro, feito um bom banho morno. Ou uma caminhada com os pés nas águas curadoras do mar.

"Uma hora não é uma hora, é um vaso cheio de perfumes, de sons, de projetos e de climas".
Deve-se a Proust, diz o amor.

Uma hora é só ela. Única, nunca volta. Sessenta minutos de tic-tac, bom ou mal. E passa, se for ruim, basta esperar. Ou fica, e espera ser vivida  -  e amada  - profundamente, se possível ficar na gaveta das horas bem vividas. Romântica, imagina-se ficando. Espera ser lembrada muitas  e muitas vezes, como que ressuscitada vez por outra. Imortal, se possível. 
As horas são companheiras, não nos largam, não desistem de nós. Quer gostemos ou não. Podemos fazer delas céu ou inferno. Cúmplice ou inimiga. Melhor enchê-la, como Proust, de perfumes  e sons. De projetos, que são os que nos movem. E dar a ela o melhor clima possível.
Quem sabe ela vira amiga de verdade?

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Out!


Estou fora do ar. Meu micro entrou em pane. Nem liga. Não achei ruim. Estava precisando desta pausa.
Mas ai para para pensar e venho para o lap top de meu filho. Última geração, tudo d e bom, ótima conexão. Muito mais do que precisa um adolescente que usa a tecnologia apenas para se conectar para jogar. Ou fazer uma ou outra pesquisa que  traga algum interesse.  Comparando o meu com o dele, poderíamos falar de Fusca 66 e , digamos, uma BMW. Sendo que meu uso do 66 é para trabalho. A BMW dele, para passeio de domingo.
Hoje em dia é assim mesmo. Enquanto na minha infância nossa vontade não contava em nada - nem na escolha do melhor bife, hoje mandam em nós. Ou em quem deixa. Eu sou meio às avessas. Não daria tudo o que ele  tem, mas parece que faz parte do ser alguém. Se não tiver essas coisas é como se  não fosse ninguém. Com certeza terá um bom carro já ao passar no vestibular. Eu tive o meu depois de suar muita camisa e contra nota por nota. E foi um carro qualquer. Destes, que anda. Vê a diferença?
Ah, ele vai passar cinco semanas fora. França, Inglaterra, Portugal, Espanha. Eu mal conheço Buenos Aires. Que também paguei com nota sobre nota, e todas saindo do meu bolso. Europa? tenho uma promessa gravada em papel. Sem valor, já que o que vale é o fio do bigode. E quem fez , não tem bigode. Dai...
Espero que estejamos certos. Que essas facilidades dêem aos nosso filhos fibra, discernimento, vontade de correr atrás - ou na frente, melhor pensar. Espero que tudo o que damos seja, enfim , valorizado. Ou, se for pensar como gosto - e como sou - que seja feliz. Com ou sem tudo o que ganha de bandeja. Que não fique sempre esperando que o mundo faça por ele o que o "paitrocinio" faz.  Se ficar, estarei lá para realinhá-lo nos trilhos, eu e minha frieza, meu outro lado que poucos conehcem,  para que tome seu rumo certo na vida.
Agora, com licença. Vou levar o príncipe na aula de natação. Faz parte de meu contrato de mãe.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Imperfeita


Hoje vou falar em perfeição. Não do corpo. Não da comida que agrada, nem do texto bem escrito. Nem da boa profissional. Mas em relação ao que esperam de nós. E que nós mesmos esperamos de nós.
Meu "buraco" de hoje é mais embaixo.
Sim, descubro, aos poucos e para meu desespero, que fazemos tudo pensando em agradar ao outro. Ou aos outros, melhor colocar. Primeiro esperam que sejamos bons filhos, depois estudantes exemplares. Mais adiante, que sigamos uma bela carreira, mas sem deixar de lado o sonho  - deles - de termos uma bela família. Dar-lhes netos. Para isso, esperam que sejamos boas moças, dessas "pra casar". E depois ótimas esposas, maravilhosas mães (melhor até do que foram, óbvio!). Nesse caso, mais vale o resultado que a propaganda. E nisso ponho fé que acertei. Dizem as boas línguas.
Profissionalmente, esperam que sejamos reconhecidas - e isso sempre vem ligado ao quanto se ganha, não ao que se faz , muito menos o quanto se gosta. Ou, ao quanto se trabalha, ou se diz trabalhar. Nesse caso, mais vale a propaganda que o resultado. Se me digo muito ocupada é meio caminho andado para que eu seja uma batalhadora . No caso dos homens, inclui, "machistamente", a ideia que de precisa dar do bom e do melhor para a família. Centrar-se no ter. Coisas das leis da sociedade, de base essencialmente masculina. Azar o deles, que redigiram, assinaram e agora tem que seguir as próprias leis.
No caso da mulher, fica o lado ser da  família. Serem bem educados, o que já é de grande valia. Serem bem amados, o que por vezes soa muito fácil, mas não é. Serem bem alimentados, de comida, sonhos e carinho. Serem alguém no sentido mais humano da vida. Mas claro que toda regra que escorrega. Nem sempre os filhos correspondem ao sonho dos pais, nem ao seu próprio empenho. E nem sempre aceitamos os sonhos do filhos. Não lembramos que os sonhos são deles e não nossos. E nem sempre somos pais a contento, vamos acrescentar, para deixar tudo em pratos bem lavados. Em resumo: ninguém agrada ninguém.
Mas, voltando à perfeição da coisa, pedem demais da gente - aqui, " a gente" representando nós, as mulheres. Que sejamos, além de bem educadas + boas educadoras + boas ouvintes + boas auxiliadoras + boas meninas + boas donas de casa + amantes incríveis - ou seja, a famigerada duplicidade " dama e ..." - e tantas outras tarefas infindáveis das quais estou cansada de falar. Que sejamos mais. Que sejamos instruídas tanto para o bolo de côco quanto para assuntos da empresa. Que cuidemos bem, da saúde das crianças às  finanças do marido. Que possamos dar conselhos de saúde e das aplicações na bolsa. Que saibamos nos "portar bem" - como diziam as nossas avós - do porteiro até o mais alto cargo. A história mostrou isso , já, de várias maneiras. Querem que sejamos Jacques ( e dai vem meu segundo nome...). Ou, quem sabe Evitas. Ou, modernamente falando, que sejamos Carlas, que, além de tudo, canta bem, muito bem. Uma Carla na frente da rainha, outra na frente do amado. Uma Carla nas ruas com o povo e outra entre as paredes do quarto. Querem demais de nós sem nem saber se nos interessa, e o que nos interessa. E o que é pior: somos nós as maiores cobradoras de nós mesmas...vem de berço.
Aprendemos assim. E seguimos sem nem pensar.
Essa é uma das tantas vantagens de se amadurecer. Não se dá bola a tantas coisas. Não se cobra tanto desempenho a não ser o de ser mais feliz. Ou de ser mais a gente mesmo.Quero que me alimentem, de comida e carinho. Quero mais é que me cuidem, assim como gosto de cuidar de quem amo. Quero mais que me aconselhem, coisa que já fiz demais da conta nessa vida.  Quero mais é que me amem como mulher e não como esposa (vem de posse, já falei aqui...) . Que me vejam como mulher e não só como dama, porque essa já fui demais da conta. Quero que me recebam em suas vidas como sou: imperfeita. Porque é dessa imperfeição que vem meu charme.
Ou como li por ai (alguém sabe a autoria?) :
Perfeitamente imperfeita por ter qualidades adoráveis e defeitos insolúveis...

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Leve


Desde pequena não tive muitos apelidos. Era Dada e virou Jacque, que virou nenhum. Nenhum "pegou", como se diz por ai. Quando estava na faculdade, tive outros tantos, nada convincentes, mais combinados com momentos, apenas. Passantes, como eram os motivos. Dos que me lembre, um era Cinderela, a que ficava a noite toda acordada se sobrevivesse ao bater das 12 badaladas chamando a madrugada. Esse eu achava graça. Essa era eu: bastava passar desse horário e seguia em frente, com pique total até para apresentar o trabalho na manhã seguinte. Outro, que até pegou -  era Joca. Nem sei bem de onde veio. Minha irmã ainda me chama assim, por vezes. Gosto de apelidos, mas de uma só pessoa. Cúmplice. Como um chamado exato. Só nosso. Gosto.
Lembrei de outro, que eu adorava a referência, mas não o significado: Susanita.Quem é ou já foi amante das tirinhas da turma da Mafalda, do gênio Quino ( transformar realidades duras em coisa engraçada, só mesmo usando da fala de uma criança...). Adorava a figura, a loira de cabelos encaracolados e sapatinhos bonitos, mas sei bem onde a coisa me puxava. Os "antenados" da vez, "politizados" com se diziam ser, viam em mim a sonhadora menina, que mais estava preocupada com seus sapatos de verniz do que com os problemas do mundo. A comparação me deixava triste, mas hoje assumo que não estavam muito longe de minha real definição. Queria era estudar. E viver também. Não me cabia ficar enfrentando - nem discutindo -  lutas que não me pareciam minhas. Vinha de uma família onde política era palavrão, literalmente: meu pai xingava, apenas. Nada me foi passado além disso. E a realidade da vida pouca de estudante já me era bastante "mafaldiniana". Regradíssima. Mas nem por isso deixava de ser divertida. Sigo Susanita em muitos pontos, doa a quem doer. E, por vezes, dói mais em mim mesma...
Cresci. E hoje eu mesmo me denomino. Faz parte da minha crítica, ou fuga. Sou Alice nas horas saltitantes. Sou Poliana nos dias em que acho que tudo está bem, mesmo quando não está. Susanita quando  quero aloprar. E outros tantos e tantos mais grotescos, quando quero me "auto ofender" - se é que essa palavra existe - física ou moralmente falando. Mesmo assim tento ver o lado positivo. Divertido. Porque é rindo de mim mesma que me reconstruo. Ou me acho. E desisto de tentar ser o que não sou.
Defeitos? Tenho, muitos, já assumi aqui. Um deles é ver  - ou pelo menos tentar ver - sempre o lado melhor, o mais luminoso. Lado rosa, podem dizem. Ou esperar por ele. Isso me dá base. Não sei viver em pleno escuro. Tenho medo. Não enxergo nada além de mim. E nestas horas, a gargalhada me dá segurança. Nem que seja para espantar fantasmas. Ou para errar de cabeça erguida. E feliz.

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro".
Clarice Lispector

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Bocejou?



Horário de verão... zzz...
Mais parece de inverno em meu cérebro. Não acordo na minha. Cabeça chapada, lerdeza no corpo. Espero que o governo saiba o que está fazendo. Porque eu não sei.
Tem gente que diz adorar. Que tem mais tempo no dia. Que as noites são menores e os dias mais longos. Longo é meu sono e minha vontade que as horas passem mais rápido e me levem logo de volta para a cama. A impressão que tenho é daqueles dias que se madruga, vai para o aeroporto e o raio do avião atrasa...e muito! E sem café da manhã! Caos!
Enfim, nada se pode fazer,a não ser mudar para o Nordeste. Enquanto não dá, vou diblando. Não peço muito de mim logo pela manhã. E nem me empolgo demais à noite para que a coisa não piore. Vou, assim, dançando conforme a música. Até que minha cabeça e meu corpo, enfim, entendam-se novamente e não fiquem a dar porradas no despertador. Luta inútil, já que ele, o "senhor certinho", o senhor do tempo, nunca para, dificilmente atrasa, a não ser que o tire da tomada. Hum...isso em deu uma boa ideia...
Lembrei dos bons tempos de solteira, sem filho para dar bom exemplo, quando tirava um fim de semana para  desligar-me do mundo. Fazia uma mescla de sonoterapia, terapia musical e spa. O lado de fora só me enxergava pela janela, e eu nem bola dava. Perdia  a noção de noite e dia, esquecia as chatas horas do ter que comer. Comia quando dava fome, dormia quando dava sono. E entre uma coisa  e outra, boa música, banhos demorados, cremes bem passados, máscaras milagrosas, livros na cabeceira, revistas pelo chão. Nem a televisão não  ligava para não fazer contato. O máximo da diversão era provar novas formas de vestir as mesmas roupas do armário. E rir de mim mesma frente ao espelho, como a menina que experimenta pela primeira vez  o sapato da mãe.
É horário de verão e enfim dou a ele uma função:
 fazer-me voltar no tempo...
Bocejou?

domingo, 17 de outubro de 2010

Aprendendo




Engraçada - ou não! - essa vida. Já não chega as tramas verdadeiras, os fios invisíveis bem amarrados do dia-a-dia a tentar nos derrubar, ainda criamos os fantasmas. Uns criamos do nada, onde supomos podem estar. Talvez por mania, vício ou até questão de sobrevivência.  Outros vem do que vimos, presenciamos, ali, bem na gaveta mais próxima. Basta achar os "tesouros" e todas as almas nada penadas - algumas lindas! -  vêm a nos atormentar.
E meu caro leitor - ou minha cara leitora -  já deve ter notado que não falo dos fantasmas de cinema, nem dos exorcizados por alguém em cena, ou de tantas e tantas lendas das quais sabemos. E outras tantas que se escuta. Basta sentar ao lado de algum velho mais criativo, de preferência à noite, olhando o fogo do fogão a lenha, olhar perdido. Ou vivido. Quem já não povoou sua cabecinha lesa de criança com eles? Das brincadeiras do copo à s histórias ouvidas ou imaginadas - ou as duas?. Quem já não dormiu sufocada pelo edredon e pelo medo?Se você não apssou por nenhuma destas cenas, não sabe o que está perdendo. Não sabe o que já perdeu. Fantasmas da infância sempre ficam na memórias das boas lembranças. 
Ah, mas fantasmas  na vida de adultos, estes criados por nós, não deixam nada de bom. O fantasma da vida mal vivida. O fantasma de não se saber querida. O fantasma de ter escolhido um mal caminho. De ter resolvido mal as coisas. De não se saber mais se é, ou o que se quer, além de ser feliz que, é claro, até os loucos o querem. O terrível fantasma do amanhã, geralmente o mesmo que nos assombra há anos. Os fantasmas chamados de traumas pela psicologia . Os chamados de incertezas. Os que tentamos guardar a dez chaves (sete é pouco!), mas que fogem ao menor descuido.
Tem gente que gosta. Devem sentar e tomar um café em companhia deles. Fazer deles, amigo. Coadjuvante - ou até protagonista - de suas vidas. Eu não. Dão-me arrepio. Sinto reverberarem em mim, como se corressem em minhas veias. Vibram em mim em todas as minhas instâncias. E  meu ego, superego, id e tudo o mais. Nas tantas Joyces que vivem em mim. Nãoo deixam nada de fora. Nem meus dedos que tremem ao tentar teclar. Bomba de drenalina, parecem. Droga maligna. matam, se eu não me cuidar. Uma morte lenta e sarcástica, de dentro para fora, sme chance  de cura se eu deixar.
Por isso gosto do meu jeito Poliana de ser. Basta uma risada bem dada, uma gargalhada fantasmagórica, e eles fogem. Ou apenas se escondem, tanto faz. Não deixo que me dominem - até porque não em ajudam, só atrapalham - e de coisas a me atrapalhar, já estou farta. Já avisei que estou guardando as pedras para fazer um castelo. Nem que seja para o cachorro. Quando topo em uma, destas que dói, abaixo-me para catá-la e guardo. Nunca sei quando vou precisar para calçar algo ou afugentar algo ou alguém.
Muitos criticam meu jeito "infantil" de ser. Meu jeito de "ir levando". Não sabem que estou atenta. Que sei distinguir as tempestades de verão das terríveis e avassaladoras. Sei como me proteger. Sei quando devo desviar para que não me matem. Não pretendo dar uma de heroína. E sei quando são passageiras, feito as  chuvas de granizo.  Deixo caírem. Já sei que elas derretem.
É, essa é a minha frase:
"Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo."
Dizem que é de Fernando Pessoa...

Poderia eu, com perdão do poeta, fazer a minha? 

Tempestades no caminho? Admiro-as, todas.
Um dia não me meterão mais medo.


sábado, 16 de outubro de 2010

Facilitando


Tem sentimentos que se fazem difíceis de entender. Não pela palavra de difícil definição, não apenas. Mas pela própria dificuldade de expressá-la por palavras. Como se  a representação dela em símbolos fosse  irrepresentável. Ou fraca. Como se a palavra e o sentimento estivessem ali, juntos, sem precisar de maiores explicações. São. E ponto.
Como a palavra amor. Amo, e pronto. Parece conter nela muito. Implicitamente muito. Tudo. Quatro letras, apenas. Simples de falar, de pronunciar, de entender - não compreender - ,  em várias línguas: amor,amore, l'amour, love, liebe. E como se entende fácil quando nos filmes, seja lá em que língua for! Soa leve, fácil, gostoso de  ouvir e de viver. Está nos olhos. Nos gestos.
Mas, longe das telas e das páginas sofridas dos livros, como é difícil de se soltar! E não devia. Não ao filho e à mãe, um pouco mais ao irmão e irmã. Amo ouvir meu filho me dizer isso todo dia. Sinto-me à vontade para dizer o mesmo. Aprendi com ele. Fácil de dizer na emoção não contida. Quem sabe à amiga que nos consola. Ou ao ídolo da vez. Fácil falar quando não compromete. Amo Pessoa. Amo Clarice.  Amo os amores distantes, não tocáveis, não vivídos, que não se diz no olho no olho. Amo os amores platônicos, distantes, teóricos. Mas quando se trata do amor entregue, comprometido, do amor sofrido de amar alguém, do amor ciumento que só quer para sí, ah, quanto medo! Quanto calafrio! Mas, quando se consegue, enfim, entregar-se a ele, quanta liberdade. Leva com ele o peso da alma, a entrega da lágrima, o eu para o outro. Como se dividíssemos um só corpo, como se assumíssemos o nós. Como se vivêssemos um só. Dói, como toda entrega. Como todo despojar-se. Difícil descrever. Só quem sente, sabe.
Sigo, curiosa. Testo a palavra saudade. Coloco no dicionário e nada vem em outras línguas. No bom português, as definições de sempre. Falta. Ausência. Nostalgia. Quem dera fosse assim tão fácil. Tem palavras que fogem das definições. Precisam da divagação dos poetas. Eles, sim, sabem , pois vivem as palavras como se fossem deles. Apropiam-se delas como se objetos diretos. Mas gostei da definição doída  - e nada doida - de Clarice Lispector. Ela, poeta e mulher, fez da palavra, poesia.

"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida".

Saudade, penso, é gula. É muito. Exagero. Por vezes é melhor pensar como o poeta Luiz Pessoa: "Saudade...é só um sentimento...". Fica mais fácil.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Ora, bolas



É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração...

 Essa frase deve ter sido feita para mim. Sempre acho, por detrás destes olhos de ontem, que sempre fica mais  fácil viver se temos um belo sorriso na cara, um brilho cativante nos olhos. Não, não sou tão ingênua a ponto de  esquecer os problemas. Nem preciso. Eles latejam em mim o tempo todo. Estão ali, bem na minha frente. Mas será que ficar tamborilando neles, como que catando feridas, ajuda em algo? Não, não os nego. Mas bem sei que feridas cutucadas com afinco viram crônicas, quase sem saída. Não, e nem espero que se resolvam sozinhos, feito cicatrizes. Cuido delas, fico atenta. Podem até ficar em mim, mas suaves, bem vindas, minhas. Como que a me lembrar do que passei. Como que marcar para não esquecer. Feito lição.
É, mas errar é humano. Continuar, já sabemos no que dá. E quantas e quantas vezes aceitamos estar errados, juramos de pés juntos (alguém sabe de onde vem isso?) não mais repetir os mesmos e mesmos erros e , na menor distração, lá estão eles a nos fazer companhia? Sina, tatuagem, marca registrada. Vício. Gostar se sofrer. E ficam a encher cada vez mais nossas gavetas já lotadas de promessas. Vãs.
Umas menos, outras mais, mas todas vãs. Vazias.
Minha mãe falou certa vez que para fazer poesia precisava da tristeza. Não discordei, dado que já  fui tentativa de poeta. Meu primeiro poema, pasmem, vinha de minha cabeça de então seis ou sete anos, mal sabia escrever. A matriz, já poetiza, corrigia palavras e rimas. E era triste ( não eu, a poesia).  Ganhei prêmio na adolescência. E era triste, eu e a poesia. Como se colocasse ali no papel a minha. Talvez influenciada pelas aulas de literatura do colégio de freiras. Ou das letras chorosas das aulas do "tio Neri"
(devo a ele meu amor pela boa música...) .
Achava romântico sofrer por amor. Ou por nada. Achava lindo. Um sofrer platônico à espera de inspiração.
Ou seria o contrário? A princesa à espera do príncipe que não veio. E quando veio, veio homem.
Veio verdadeiro. Inteiro.
Fez da menina, mulher.

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não
(Samba da Bênção, de Vinicius de Moraes e Baden Powell)

Nem samba. E nem poesia. Vou deixar para ser poeta outro dia...


quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Vero


Assumo. Se quiserem ponho em outdoor. Sou sol e lua. Sou preto e branco. Sou contrários.
Vamos por partes.  O mundo dos adultos não me interessa. Esse mundo cheio de problemas que nós mesmos criamos não me atrai. Esse mundo cheio de complicações e conjecturas, não me puxa para dentro dele. Assumo ser metade Poliana, menina ou moça, metade Carolina, aquela que ficava na janela vendo o tempo passar (minha mãe cantava para minha irmã...). Quem sabe Susanita, a do Quino, à espera de dias melhores, enquanto admirava seus lindos sapatos de verniz. 
A outra metade de mim nem sei o que é. Um avesso. Desprezo. Uma real sensação de desinteresse pelo mundo raso. Nem sei se existe. Ou não me diz nada. Não me acrescenta. Não me ilumina. Olho em volta e vejo um nada. Pessoas vivendo num mundo de fantasia. Devia amar. Combina com meu lado menina, sonhadora. Mas, não. No mundo das crianças tem verdade.
Meu mundo querido e tão ingenuamente sonhado não é vazio. Está cheio de boas intenções. Só de boas intenções. Não destas de status e posse. Nem de ti-ti-tis. Nem plumas, a  não ser de alguma fantasia para alegrar alguma menina, nem que seja eu. Nem coroas, a não ser a de princesas escondidas em seus castelos de sonhos. Deve ser por isso que o meu, sonho -  aquele, solitário e íntimo, da qual ninguém precisa (ou precisava)  saber, era o de um destes trabalhos voluntários, lá no meio do nada - ou do tudo. Esses da Cruz vermelha.Ou Médicos sem Fronteira (será que ainda dá tempo de fazer Medicina?). Um despir-se de mim. Com passagem só de ida.
Já tentei. Mas sempre quebrei a cara. Era ingênua demais, diziam. Frágil. Envolvia-me demais com a causa, alertavam. Envolvia-me com a pessoa (que era para minha uma pessoa e não um número, não mais um). Envolvia-me a ponto de me esquecer. De me fazer parte dela. Ou ela mesma, inteira. E quem se esquece, não ajuda. Atrapalha. Quem passa frio para aquecer o outro, não ajuda. Trocar de vida com o outro não leva ninguém a lugar nenhum. Dizem. Aliviar, sim. Ajudar, sim. Mas não necessariamente trocando de lugar.
Mas, enfim, admito. Sou assim, contraditória, irresolvível. Ininteligível. Queria para mim um mundo mais fácil - mas não no sentido de levar por levar, muito pelo contrário. Para mim, o mais fácil é o mais verdadeiro. Mais honesto. Mais vivido. Mais gente, menos coisa. Mais "vivível", se é que essa palavra existe. Mais humano - não no sentido teórico dado a  ele e sim de valorizar o ser. Um mundo mais igual. Mais puro. Mais verdadeiro. Deve ser isso que muitos sonham, mas não realizam. Procuram,  mas não acham. Penso que seja porque esse mundo ideal, resolvido, tem que se querer de verdade. Tem que se assumir a vontade de corpo e alma. Uma vontade que começa solitária. Que começa dentro de cada um. De mim. Começar a me cuidar para depois cuidar do outro. Adular-me para que o outro o faça. Valorizar-me para que o mundo me dê espaço.Tentar ser forte para depois levantar o outro. Tenho que começar a me amar para que o outro me ame. E a ser feliz  - ou tentar - para que o outro se sinta assim ao meu lado. Senão fica egoísta. Solitário. Pobre. Efeito contrário.
( E que não vistam as carapuças, por favor! Pelo menos as minhas dores, deixem que sejam só minhas!)
Respiro fundo. Tento acalmar meu coração. Lembro uma das raras frases "otimistas" de Clarice, a Lispector:

" Não tenho tempo para mais nada, ser feliz me consome muito".

 Paro para tirar a pulga que brinca por detrás de minha orelha. A dúvida cruel. Estaria ela sendo irônica? 

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Luz




Dia curto e cansativo. Poucas horas para o muito que queria - ou tinha - que fazer. Deu nisso. Está bem perto da carruagem virar abóbora e a Cinderela virar uma qualquer. Bem perto das trágicas badaladas da meia-noite. E eu poderia pensar num ditado, meio até que rimado, tipo " leite morno traz o sono". Antes de subir e rezar para ter uma noite dormida (bem dormida já seria muito privilégio...), tomo uma xicara do líquido ouro branco, devagar, já esperando seus possíveis efeitos, quase um milagre.Ou como se diz na gíria moderna: "baixando a bola". Fico aqui pensando a que bola se refere...
E repasso o dia como se riscasse  a agenda. Fiz muita coisa, outras muitas ficaram para amanhã. Animei-me com umas, decepcionei-me com outras. Mas, enfim, tudo é válido, já que minha alma é enorme.Então lembrei -me da notícia do dia - e de tantos - da retirada dos mineiros de sua cova mal tratada no Chile. Tragédia de números. Tantos homens, tantos dias, tantos metros os separando da vida. Tantas horas em pura penumbra, disfarçada por reles focos de luz. Uma sala de poucos metros para reunir, um corredor para meditar ou afastamento do todo, um fundo para as necessidades, "aquelas". Nem na vida desesperançada se pode perder tais espaços. Até lá, no mais profundo isolamento , era - foi - preciso ter mais de uma opção de conviver. E uma certa organização, uma certa disciplina, um certo querer. Sem isso, estariam eles vivos? Duvido. O caos assinaria  a própria versão do caso. E admirei-me de ver com qual ânimo saíram. Agradecidos. Em nenhum momento se viu quaisquer sinais de revolta. Bela lição.
Mas, voltando ao leite já frio e às vacas magras (felizes delas...) - e fugindo do tic-tac ameaçador das horas - , tive um dia estranho. Pus a culpa no cansaço. Na falta de perspectiva. Na falta de compreensão do mundo. Na falta de meu sorriso nos lábios, hoje de mal comigo. Na falta do amor em mim. De um porto que me abrace. E relembro os mineiros. Agora, bem na hora de me despedir do dia. Talvez depois do escuro, venha a luz.  O negócio é dar meu melhor e ir seguindo. Ir esperando o regate. E "sem deixar a peteca cair",coisa que era muito boa na infância.  Hoje já não sei.
Minhas pernas - e meus reflexos - não andam lá estas coisas...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Anjos


Parece incrível, mas passarinhos e crianças sempre me "perseguem". Onde estou, lá estão eles. Sou um imã. Sejam as meninas de cabelos encaracolados que me vem a perguntar algo ou simplesmente me olhar bem nos olhos, ou o menino que passa choramingando pela rua e pára por um momento para me encarar, sempre os atraio. Ou seria o contrário? Mesmo aqueles que o corpo diz que são homens e mulheres, mas o olhar meigo diz que são ainda meninos e meninas que chamamos de especiais. Já brinquei que sou fada. Não me olham como se fosse bruxa. Mas acho que sei bem o que é : somos iguais. Criança atrai criança, mesmo que seja só pela minha'lma.
Ah, e passarinhos...A atração vem desde sempre. Eles chamando meus olhos, eu atraindo-os para mim. Desde que os admirava com meus olhos infantis, que ainda se perdem na perseguição da beleza de um. E me vêm desde que mudei para uma casa. Toda primavera lá estão eles a montar seus ninhos em minha morada. Melhor dizer, invadí-la sem cerimônia ou permissão.Deixo. Gosto. Dizem ser sinal de bom agouro.Volta e meia passeiam pela sala, alertando meu cão. Parecem que passam a casa a limpo com sua alegria. Outra hora quebram a cara em pleno vôo vão. Ou pousam, despreocupados, na mesa onde trabalho, como quem puxa conversa. E não é diferente aqui onde estou, meu alegre porto. No domingo, veio me ver na murada florida do terraço de Quintana, belo Bem-te-vi. E ontem, para minha surpresa e admiração, recebi um em plena cozinha do apartamento, quem sabe esperando pelo café da manhã. Pena serem só visitas e cansarem logo da vida alheia - no caso, a minha.
Passarinhos e crianças, adoro atraí-los. Vejo muito de um no outro, e de mim nos dois. Na criança me vejo menina, ingênua como sou, curiosa pela vida. No voador, meu sonho de poder estar sempre onde queria estar, viajante do mundo. São seres alados, feito anjos. São seres felizes, parcos de deveres. São eles, exatamente como querem ser. Livres. Deve vir dai minha admiração.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Quintaneando





Tirei o fim de semana para conhecer - ou seria reconhecer? - o centro de Porto Alegre. Passeie pelas ruas super movimentadas e fiquei abismada com o que vi. Um centro lotado de gente à procura de algo - objeto ou diversão. O real significado de um mar de gente. Ou seria melhor falar um rio?
Relembrei as aulas de urbanismo, várias delas. De como os prédios se encaixam na malha da cidade. Do como trazem na fachada a cara do momento em que foram desenhados. Do como convivem, bem ou mal, lado a lado. E com a cidade em volta. Das perspectivas que deram certo sem que pensassem nisso. Parei numa esquina e vi de um lado uma capela bem ao final da rua. De outro, a matriz, imponente  como sempre, no alto do morro. E para o outro lado, o rio com seu porto, hoje não tão alegre assim, escondido por detrás dos muros  - como se fosse feio, como se proibido. E ai sim, vislumbrei os "corredores" de prédio, cada um com sua história. E imaginei a Porto Alegre antiga, cheia de Veríssimos e Quintanas. De cafés tomados em plena rua. E das tantas e tantas conversas políticas e poéticas que a história nos deixou. Finalizei o passeio tomando café com Mário Quintana em pleno pôr do sol sobre o lago que se faz de rio. Sentia-me no topo do mundo. Não do de hoje, mas do de ontem. Até o café de hoje teve gosto de saudade, assim, tomado sobre os telhados do tempo.
Fiquei com vontade de entrar em um túnel que via nos seriados de minha infância. Voltar ao local ainda hotel. Eu, entre saias belíssimas, salto elegante e penteados bem feitos a  esperar o mestre para uma conversa. Vi-me jornalista. Quem sabe fotógrafa. Ou qualquer outra forma de materializar o momento. Quem sabe merecer palavras doces ou até entusiasmadas. Ou vê-lo, ali na minha frente, a rascunhar mais um pensamento na mesa do café, enquanto eu embalasse uma boneca qualquer. Dizem que era ranzinza. Acredito. Viver de palavras não é fácil. Mas sentar ao lado do boneco feito em sua homenagem -  e quase tocar-lhe com as mãos, feito namorados - , foi mágico. Meus olhos encheram-se de lágrimas e meu peito de saudade. Um saudade desconhecida. Não só do poeta, e sim do tempo. Devia ser bom poder andar pelas ruas sem contratempos. Sem o medo de agora. Sem essa pressa que faz a gente só passar. Não se vive. Não se tem hora para isso. Não se dá essa chance. Viver não põe a mesa, nem paga as contas. Por isso não se tem mais marios, nem  ericos, só poetas rasos. O hoje não se sabe mais romântico. Não se poetiza o simples. O hoje não se deixa levar pelas emoções do momento. O hoje não pára para se expressar. O hoje não entende o hoje. A não ser que se quebre as regras e se olhe o passado com olhos de menina, corpo espichado para espiar a vida. A não ser que se imagine a desfilar entre corredores perfeitos. Desfilando como mulher ou correndo como moleca. A não ser que se lembre de admirar o que já foi feito. Nem que seja numa, até então, simples tarde de domingo.
Mario, prometo que volto. Tem aula de dança. Essa chance de voltar ao teu tempo eu não posso perder...

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Verdade



Se a "verdade" fosse aquilo que posso entender, terminaria sendo apenas uma verdade pequena,
do meu tamanho."
Clarice Lispector em A paixão segundo G.H.


Descubro isso lendo. Parece um buraco: quanto mais de cava, mais fundo. Ou seria profundo? Ou "quanto mais se sabe, menos se sabe", já disse alguém por ai. E vivendo de forma intensa cada momento que me deixa vivê-lo. Já se foram quase 20 livros desde que comecei minha caminhada para uma "nova" vida, dentro da vida que resolvo levar. Li de tudo: o que me indicavam por dever, o que me indicavam por querer, o que me pousava de forma lenta no colo. Ou o que me caia nas mãos ao passá-las pelas prateleiras da livraria. Às vezes até parece que são os livros que nos escolhem...
Li  de todo tipo. Os que ansiava e me decepcionaram. Não por serem fracos, mas porque sou outra. Os que nada esperava e me deram o susto de devorá-los de uma hora para outra. E outros que tenho medo, como se tivessem uma aura. Muitos precisarão de mais de uma visita, outros de muitas. E os tantos, tantos, tantos, que ainda quero ler. Alguns estão ao meu alcance, mas talvez não seja a hora. Livro tem disso: só cai na nossa mão quando tem vontade. Quando sente o nosso chamado. Ou seriam eles que nos chamam?
Aprendo, depois de passar da meia idade - se é que viverei tanto - que não sabia viver. Passava. Porque nada se sabe da vida sem passar pelos livros. Só se sabe do hoje sabendo do ontem. Só se sabe da gente sabendo dos outros. E, confesso, fora os rompantes de certos tempos - aqueles solitários, onde se acha melhor nossa própria companhia e dos livros à dos outros - quando lia muito, fiz muitas paradas. Paradas totais, quase greve, ou desprezo, como se eles não existissem. Como se o outro não existisse. Como se não existisse o mundo. Nem o passar das horas. Nem ao menos dos anos. E quantos ficaram a margem da cama esperando que me interessasse. Solitários, na ânsia que eu os pegasse e ao menos foleasse, fingindo interesse. Que deixassem de ser meros objetos de decoração (pobres deles ou de mim?). Se não os li, amigos, é porque não os merecia. Porque livro, por pior que seja, merece ser lido, já que é essa a sua meta, seu fim. Nem que seja para se ver o que não se deve escrever . Nem ler.
Mas, voltando à "verdade" de Clarice -  assim mesmo, entre aspas, já que não acredito existir uma só, nem só a minha, nem só a do outro -,  minha verdade seria bem pequena. Não pelo meu tamanho em medidas, nem pelo tamanho de meu saber. Nem pelo egoísmo de me achar o centro das atenções de mim mesma. Nem ao menos pelo tamanho de minha curiosidade, infinita e gulosa, o que faria da verdade algo imenso. Mas porque a verdade, para mim, é imensurável. Através dela vem outra, e mais outra e tantas, que parecem um sem fim. Labirinto de ideias, daquelas que nem sempre se acha o final. Ou se quer achar. A verdade deve ser como a felicidade:  mais vale o caminho que o achado.
Então, deixa eu voltar para o meu livro...



quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Atracando





Dia corrido. Misto de euforia e embrulho no estômago. Hoje, mais uma vez, volto a Porto Alegre para mais um bloco de aulas. Dizem os atores que a cada apresentação é a mesma sensação de frio na espinha. Sinto . Sei. Deve ser pelo acumular de coisa  a fazer, entre profissionais e pessoais, entre as tarefas de mãe, sempre parecendo intermináveis. Deve ser o empenho de acertar, texto e passos. Incrível essa capacidade que tenho de encher meu dia, seja lá com o que for, feito cova em plena areia fofa da praia. Posso cavara á vontade, mas nunca termina. Nunca de chega ao final. Sempre há mais areia e areia para o meu caminhãozinho - e aqui, num mal sentido. Por vezes eu mesma me soterro.
Já fiz as compras da casa, como se os moradores que aqui ficam fossem incapazes de tal. E rio, a toda volta, quando vejo que o que comprei está exatamente no lugar onde deixei. Já fiz com minha querida Sônia -  comigo desde sempre e já empatando com os anos de vida de meu filho - , o cardápio da semana, como se fosse ficar um mês fora, e não parcos dias. E como se ela não soubesse ainda, depois de tanto tempo de convivência, o que fazer. Já ví com meu filho as coisas faltantes, como se fosse um incapaz, bem ao contrário do "safo" que é. Enfim, essa é a vida de uma mulher, de toda ela que se dá ao "luxo" de fazer um pouco o que quer. De, enfim, depois de 15 anos  - mais para 16 - de babá e governanta, se dar ao "luxo" de  correr atrás de mais um sonho, entre tantos que já teve, certos ou não, e dos muitos que deixou para trás. E se não vivê-los, como saber?
E bem sei como isso me custa, além das caras fechada s e desdenhos da vez. Todo sonho cobra seu preço. Estar em meio a  quase duas dúzias de alunos recém - formados, jovens, com seu arquivo nada saturado (piada de meu sócio, que compara tudo na vida com computadores...). Sem contar os professores, todos também mais novos que eu. Precisa coragem. Arranjo. E uma bela dose de cara de pau. Tenho. E sigo meu caminho sem nem saber ao certo onde vai dar. Devo ter puxado minha mãe, que fez faculdade depois dos 40, e pós depois dos 60. E olha que os tempos dela eram bem outros. E tinha cinco filhos. Lição, boa ou ruim, mas lição. Pena ter deixado para "ser feliz" só depois dos 70. Esse exemplo não quero seguir.
Minha dose de ser feliz quero hoje, se possível agora.
Mas a ida para estudar vai bem além de livros e discussões em equipe. Bem mais do que os modernos professores acessam em plena aula. Tem outras facetas. E outras lições. Talvez até mais importantes do que as que me virão no diploma.  Tenho aproveitado ao máximo meu tempo. Montar uma trama boa de amizade e , quem sabe, negócios. Falando assim parece frio. Mas é como se o porto, hoje alegre, fosse para mim já um porto firme. Aproveito minhas poucas horas por lá para amarrar meu barco com cordas cada vez mais firmes, laços daqueles que só os bons navegadores conhecem e sabem fazer e soltar.  E na espera de poder atracar firme, fugindo de tempestades. Ou apenas por descobrir que ali é o seu lugar. Seu porto firme. Terra de ficar. E, quem sabe, olhar aquele pôr do sol que, aprendo, é o mais bonito do mundo. Quem sabe direi isso de coração. E com amor. Filha de gaúchos que sou, faço as contas e me vejo já metade "prenda". Meio caminho traçado. A outra metade, eu nem sei. Deve ser  a de ser mãe. E mãe mora no "país" do filho,
seja lá onde isso for.
Sou nômade, sempre fui. Se não de corpo, de alma. Já morei onde queria porque a vida me puxou, depois de uma conversa com minha vontade. Não no mundo, onde sonho belas passagens (é, mas não ganhei na megasena...), onde aprendo que os lugares são diferentes, e cada um tem sua beleza. Mas, descubro, o que conta são as pessoas. Já morei em cidades que não em deram esse alento. Conto com elas como número e nome, e nada mais. Apenas constarão em meu livro de memórias. Ou meu Curriculum Vitae. Posso conhecer um mundo todo, mas nada será guardado em mim além delas. Pessoas. O que importa é quem te recebe no porto e te puxa para a terra firme.  Quem te dá aquele abraço bem vindo e tão esperado. Quem te convence a ficar. Quem sabe um dia me mudo "de mala e cuia",como dizem os gaúchos?
A mala eu já tenho...

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Muito



Descubro-me exagerada. Nenhuma novidade para muitos. Nem para mim, pelo menos inconscientemente. Claro, se me dizem e acato, já deve estar escondido em mim em algum lado. Sou assim, visto o meu chapéu (desde que seja lindo, claro!).
Mas o fato de descobrir-me, no sentido de reconhecer, aceitar e me pegar pensando - e espero não passar frio interno demasiado por isso - me traz alívio e pre-ocupação em não ser tanto. Não ser em demasia,  porque um pouco até da um certo charme. Mas exagero, só de beijo. E de abraço.
Gargalhar com exagero, por exemplo, parece bom. Eu gosto. Desopila meu corpo, cérebro e alma. Fico mais leve. Quem me dera mais magra, mas dizem que tem essa função também. Sou barraqueira nesse sentido, mas nunca passei vergonha. Deve ser porque nunca gargalhei em velório. No resto, já, acho. Até porque não fiz tudo na vida. Ainda. Ainda bem, senão perderia a graça.
Comer em exagero é coisa da pessoa humana. E sou bem humana. Um pote de um kilo de sorvete, sozinha ?Já fiz. E só tenho belas recordações sobre o fato. E se quero exagerar, basta chamar alguma amiga que entre no mesmo barco - ou canoa furada? - e ir a um dos tantos buffets livres que tem pro aqui. E por ai, espero. Uma experiencia imperdivel, diria. Pinta remorço, mas do bom. Pior é remorço por empanturrar-se do que não se quer, ou até do que não se gosta. Mas isso já faz parte de um certo mazoquismo feminino. Comemos pelos outros. Ou pelas faltas, as tantas que já falei por aqui.
Tenho tantos outros surtos...davam um livro. Quando estou mal, tomo banho em excesso. Como se fizesse faxinas em mim. Como se lavasse a alma. Quando estou mal, desato arrumar  minhas gavetas e armários. Talvez seja culpa de deixar a coisa rolando. Ou outra bela forma de me arrumar por dentro. Ah, mas só as minhas. Tem arrumações e  faxinas que faço porque quero. Gosto da coisa limpa e bem arrumada. Mostra interesse pelo outro. Pelo bom convívio. Uma das tantas formas de amar.
Mas, tardiamente lembrando, hoje só queria - e vou -  falar do exagero das palavras. Deve ser exagero de pensamentos. Mais precisamente das malfaladas e malditas. Dos outros, tantos, deixarei para outra vez para não cair na tentação de exagerar demais (se é que isso existe). Falo demais, palavras ditas e escritas. Da escrita,  parece fácil  se livrar. Apago, deleto. Isso quando me dou conta antes da hora. Antes do "enviar". Antes de entrar no ar. Como se nunca fosse hora de entregar, enfim, a prova. Nem necessitar de nota. Mesmo assim, uma ou outra palavra"demais" sai pelo canto e vaza pelo ralo. Tipo veneno de cobra, sei lá. E ai, melhor esperar para ver o estrago. E é sempre mais fácil, pelo menos para mim, no sentido contrário da importância da outra pessoa. Se me é "normal", não cometo muitos erros. Mas se me é cara, luxuosa, rara, diria, ai parece que meto os pés pelas mãos (difícil de imaginar, pior de fazer mas, enfim, é o ditado...). Como se a pessoa que se ama tivesse o dever de me compreender. De me aceitar. Como se eu estivesse sempre nas entrelinhas, mesmo as mais apertadas de tanta coisa ruim que nem passaria um pensamento.
Falar em excesso é triste. Mas, pasmem, só faço isso com quem gosto de estar. Como se ficasse em silêncio muito tempo, feitos certos idosos, e quisesse colocar todo o meu eu para fora em minutos, se na presença de quem em compensa. Pena não escutar direito. Claro, quem fala demais se faz de surdo. Não é um diálogo. É um monólogo onde o outro é nosso convidado especial. Monólogo com inimigo é facil. Ou deve ser, não lembro de tal façanha. Mas tenho uma amiga que quando começa não pára mais. Ai, penso, é solidão...deixa ela falar! Hoje é o dia dela! Quem sabe amanhã é o meu? Ou já não foi? Só se fala demais com quem se ama. A quem odiamos, ou não temos nada de bom a dizer, nem a escutar, deserto.
 Dá para ouvir os grilos no pasto.
Ah, as palavras ditas, malditas! Podem ser como lâmina afiada. Tem que se saber manejar. Podem curar ou ferir. Podem matar, mesmo que "só" por dentro. Tomo cuidado, e mesmo assim erro, muito. Sempre. E me mortifico depois, feito castigo, autofragelação. Deve ser por isso que numa discussão sempre falo pouco, ou nada, por vezes parecendo desinteresse ou até desprezo. Mas acho que é medo. Medo de errar. Medo de mostrar meu medo. Ou minha fraqueza. Ou burrice. De não conseguir deletar. De não conseguir me segurar. De não conseguir diblar os maus momentos, aqueles por vezes tão difíceis de consertar. De deixar o pássaro da felicidade soltar-se do meu poleiro e ir embora. E isso requer convívio. Isso requer rotina. O lado doce dela. A doce rotina de saber o que o outro pensa, o que vai falar e, se possivel pensar e  falar do mesmo jeito, na mesma hora. E deixar as supresas para o campo bom. Uma comida bem feita, um buquet de flor, um agrado não esperado, um eu te amo no meio da tarde. Um beijo na testa que aquece por dentro. Um olhar que diz tudo. Que diz que vale a pena tentar. 
Sou exagerada, sim. Mais ainda em campos que desconheço. E me deixando levar pelos que estou descobrindo, mesmo tardiamente. Porque meu exagero maior é o de viver.

(Olho para cima e vi que escrevi demais...)


Escucha el silencio
escúchalo despacio
que su lenguaje es mensajero
de lejanos presagios
su lento discurrir compone
sílabas de esencia enmadejada
y su letanía de agua
envuelve como una túnica
las palabras de este mundo.
(Ima, poeta espenhola, http://lapoesianovende.blogspot.com/)



segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Três verbos


Esquecia de contar: fui assistir, sozinha, o filme Comer, Rezar, Amar, baseado no livro de mesmo nome ("aquele", famoso...). O sozinha deu um gostinho diferente. Como se precisasse dele. Como se não quisesse ouvir as criticas do depois. Como se o filme fosse meu. Simples assim.
Mas voltando às imagens e falas, muitas, lembrei de anotar algumas que darão - se não mudar de ideia até lá - um bom caldo. Ou, melhor dizer, um bom texto. Pano para a manga. Ou para o vestido todo. Mas antes que me entregue aos meus pensamentos, vou elogiar a fotografia do filme. Mostra a Itália como ela é ( Comer) , a Índia como imagino (Rezar) e Bali ( que significa "adoração") e sua leveza, sua alegria (Amar). Podia sentir gostos e cheiros, se me permitem dizer. Se lhes é possível imaginar. Entrei tanto no filme que nem lembrei das guloseimas compradas ( e devoradas depois, feito sobremesa ).
No Comer, a Itália como ela é. Lotada de boa mesa, ou seja, bons e fartos pratos, acrescidos de alegre companhia. Alegria. Movimento. Fala, muita, e sempre acompanhada de gestos largos, típica dos italianos ( é..tem no sangue...). O vermelho dos vinhos e dos molhos. A gula desavergonhada. Aprendemos sobre se dar ao prazer da vida - nem que isso custe uma calça apertada. Da comida remexendo com todos os sentidos. O dolce far niente tão mal compreendido. Aprendemos a amar o exagero da vida. E regalar-se com ele. Deleitar-se. Sem culpa ( bom, pelo menos no filme...).Descobri-me mais italiana do que pensava...
No Rezar, a paz da Índia. A simplicidade das coisas, faladas e vividas. A procura por um Deus, sempre tão idealizada, sempre tão distante, sempre tão difícil. No meio do caos urbano, o ashram, que traduzo por minha própria conta e risco, oásis de nós mesmos. Vem do sânscrito, a chamada "língua dos deuses", e significa "aashraya", proteção. Um lugar para se isolar do mundo dos outros e achar o seu, eu diria. E a bela lição: sem perdoar a nós mesmos, ninguém o fará. Parece piegas, mas nos livra de muitas culpas, essa bolas de ferro que atrapalham nosso caminhar pelos dias. E do achar nosso papel diante da vida. Ou os tantos. Um deles, o de ser o que sou, e nisso estar o meu deus, dentro de mim. Parece fácil... E dê-lhe meditação!O que já experiementei e sei dos favores.
E , por fim ou começo, no Amar, já em Bali, a finalização de uma procura e o começo de outra. O amor encontrado em uma das 13 667 ilhas da Indonésia ( soou como" agulha no palheiro"?). No encontro despretensioso com o amor, neste caso quase trágico, não fosse divertido - muito a aprender. De como encaixar o amor em nossa vida. Em como ele faz parte de nosso viver. Em como ele faz parte de nossos medos, mais até do que de nossos anseios. Ou, como dizem em certa parte, do desequilíbrio que traz o equilíbrio. O equilíbrio , tão procurado, não como soma de coisas bem resolvidas e fáceis, de pesos iguais e limpos, da balança correta dos mil lados do que somos. Mas da soma - à primeira vista - desgovernada de tudo o que somos. Do todo. Do total. Do bem e do "mal". É...agulha no palheiro. E sem bem do que falo...
Alguns filmes tem destas coisas. Pelo menos em mim. Ficam reverberando, vibrando, às vezes por horas, às vezes por anos, como se entranhassem em minhas células. E sabe lá quanto tempo vão estar. Uns, poucos, já fizeram morada em meu cérebro. Outros em minh'alma. Se, como dizem, quem lê, viaja, quem vê um filme, faz o que? Vive?
( Ps.: achei esse colar na Internet. Amei. Quem souber onde tem, me avise!)

domingo, 3 de outubro de 2010

Sai, neura!


Livros tem uma coisa mágica. Você abre, feito portal dos filmes infantis, começa a ler e nunca sabe onde vão te levar. Lendo um dos tantos livros que estou devorando para meus estudos, teoricamente "apenas" sobre a evolução da tecnologia, desde Thomás Edison ( sim, o "homem da luz!") até  a  Internet, fiz uma "viagem" e tanto. Lembrei, de novo, do adesivo que tinha no meu "possante" primeiro carro ( o primeiro carro a gente também nunca esquece...): "Quem lê, viaja".
Na descoberta da energia elétrica, muito mais que uma solução. Mudanças, muitas. O que começou nas indústrias, trouxe uma modificação radical - e sem volta, imagino - no nosso jeito de viver, no sentido mais material,  e de viver, esse que apesar do mesmo verbo, vem no sentido mais amplo. No nosso jeito de ver o mundo. De conviver. De viver. Claro, muita coisa boa. Tantas que nem vale a pena começar a enumerar (lembro do texto do outro dia, quando falava da falta que faz a falta de energia elétrica...) . E muitos exageros. Muitas modificações nem sempre bem vindas ( do meu humilde ponto  de vista, claro!).
Duas mudanças me chamaram  a atenção, a priori: a troca da vida no campo pela vida urbana - e todas as implicações de  uma falta total de planejamento. E a vida da mulher, e das tantas coisas que resmungo desde sempre. Ou desde os tempos que perguntava a mim mesma porque não tinha nascido homem (coisas de adolescente...).
No crescimento urbano desordenado das cidades ( ah, minhas aulas de urbanismo...), na corrida  maluca por um emprego nas grandes fábricas, pouco espaço para muita gente, pouca chance para muitos despreparados.Uma troca muitas vezes desonesta. A vida difícil mas, imagino, controlável do campo,  pela vida difícil e totalmente descontrolada da cidade. Um empilhar de gente e de subempregos. Um acúmulo de gente e de doenças. Uma falta inesgotável de planejamento e de ação. Todo mundo um pouco que seja interessado no assunto - ou no mundo -  sabe do que estou falando. Inclusive dos muitos problemas que temos até hoje. Basta ligar a televisão, dar uma volta de carro ou olhar pela janela para constatar.
Mas fiquei perplexa mesmo foi no detalhamento das mudanças no dia-a-dia da mulher, até então dona de casa ( certos estavam os vendedores que batiam de porta em porta a perguntar se a dona da casa estava;  coisa com que sonhamos, na maioria das vezes, uma simples mudança de uma letra que muda muita coisa...). Os trabalhos em casa, até então dificílimos pela falta de, digamos, métodos mais avançados de  manutenção de uma casa, eram repartidos entre os moradores ou outros ajudantes. Na presença dos novos aparelhos domésticos, como o próprio nome diz, passíveis de uso no lar, pensou-se que as mulheres poderiam fazer todo o trabalho sozinhas. O que trouxe uma certa solidão, quebrada pelas receitas de bolo da televisão. E pediu-se mais empenho, dadas as "facilidades". Roupas mais bem lavadas e muito bem passadas, faxinas diárias, e assim por diante. Seria uma nova escravidão? Ou seja, mais em qualidade e em quantidade. O "novo mundo" trouxe com ele uma perfeição que não se previa, e com uma periodicidade de assustar. Limpa-se a casa todo dia, lava-se  roupa até cansar ( e o passar é que são elas...). E, de troco, a velha e nada boa mania de se medir uma mulher pela impecabilidade de sua casa. Camisa amassada? Mulher descuidada. Casa suja? Mulher relaxada. Não sabe cozinhar? Não pode casar!
Some-se a isso a  entrada da mulher na força de trabalho ( e pela "porta dos fundos', fazendo armas ou uniformes de guerra, quem sabe a ser usada pelos próprios maridos ou prometidos...) e temos ai a invenção da "super-mulher". São, no mínimo, 8 horas de labuta fora e mais tantas de labuta dentro. E ainda têm os papéis de mãe, professora, terapêuta, conciliadora, amiga, amante, esposa fiel e dedicada (esqueci o adjetivo "ouvido de penico"...) . E se tem quem ajude, somos governantas de luxo. Somos polvos, de tantos braços e muitas cabeças, como disse uma vez. Agenda de múltiplos assuntos. Gelei só em lembrar de minha mãe, que engomava as roupas tarde da noite, depois de dar aula um dia inteiro, tinha cinco filhos, fez vestibular depois dos 40, etc.,etc. A vida dela já dava um livro.
Sem me estender mais do que já o fiz, ficou o alerta. Tecnologia, como tudo na vida, tem seu lado bom e  seu lado ruim. E por vezes escraviza. Eu, grudada nesse computador, bem sei. Mas, como diz uma propaganda de produto de limpeza, "sai neura!", que eu tenho mais o que fazer! Tenho até um romance para ler. Mas, antes " vai para o banho, meu filho!"

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Desconectada




Ontem faltou luz. Em pleno século XXI. Pare para pensar: o que você faria numa hora destas? Sem computador para trabalhar ou me conectar com o mundo, coloquei em prática umas tarefas encardidas pela má vontade. E nem isso deu certo, já que nossas casas não tem luz natural suficiente. Meu ânimo durou pouco, proporcional à luz do dia. Não sabia mais nem como ligar um fogão para aquecer um chá. Cheguei a pensar que nem o telefone funcionaria. Como se eu é que estivesse desligada de tudo. Desconectada.
Mal acostumada, sim. Não estamos mais acostumados com faltas já que temos tudo ali na mão. Tudo está ao nosso alcance. Tudo controlado. Tudo, teoricamente, funcionando. Basta um toque no botão, ou girar um outro, e o mundo está ao nosso alcance. Um mundo mágico, o tal sonhado dos filmes de ficção. E basta um tilt, um deslize, e literalmente ficamos "fora do ar".
Engraçado - ou não, fazendo uma referência "caetanística", uma brincadeira que já rendeu muitas risadas deliciosas  -  como só nos damos conta da importância de alguma cosia quando ela não está perto, quando não está presente, fora de alcance. Coisa ou pessoa. Dos indispensáveis tradicionais, como água à luz , aos contemporâneas- de provedor à televisão a cabo. Quem sabe pessoas. Talvez sentimentos.  Pedimos, muitas vezes, mesmo que só em pensamento, que o outro fale menos.E ao seu menor silêncio, sentimos falta do simples som de sua voz. Pedimos para que nos deixe em paz. E sem ele por perto, sentimo-nos sós, quase um inferno. Estranhos sentimentos, sempre contraditórios. Tentamos, conscientes ou não,  afastar o outro. E quando a estratégia dá certo, corremos voltamos atrás. Como se nos testássemos. Ou ao outro. Como que para ver até onde  acorda espicha, quanto ela aguenta. Ou nós. Sem ver que é a nós mesmos que estamos ferindo.
Está certo, aceitemos, em  muitos momentos da vida precisamos de um silêncio  nosso, próprio, como quem põe as coisas no lugar. Como quem calcula o próximo passo. Como quem se passa  a limpo. Como quem fecha um pensamento. E nem sempre esse momento vem no momento certo - se é que momento certo existe. Perde-se o fio da meada já no meio da tricotagem. Quem sabe na finalização.
Bem sei do que falo. Quem tem um amor no peito, de filho e/ou do nós, sabe do que estou falando, a qual momento me refiro. Àquele momento que ele te vira e pede um beijo. Que te freia e te pede um abraço. Porque ele está precisando ou porque eu mesma necessito, sem nem me dar conta. Para quem ama, não há tempo para dizer isso, nem hora, nem lugar. E nem sempre damos esse tempo. Nem sempre escutamos o outro. Nem sempre recebemos o que ele tem para nos dar. E nesse não ter , muita perda. Porque, para ele, e com certeza para nós, esse é o momento. Essa é a hora. Esse é o lugar.
Talvez seja o mal do século. Estamos sempre correndo, ansiosos, tropeçando em nós mesmos e nos outros, com nossas agendas e angústias abertas. Por isso amo os momentos que me disponho a me abrir para o amor. A aprender com ele o como se ama.  Olhar o outro, não apenas ver. Compreender meu par, não apenas escutar ( essa, já , minha missão quase impossível...). Sentir o que ele tem no peito. Ver sua alma, dar com ele o passo da dança tão esperado, tendo como pano de fundo uma parada na vida. Um espaço fora do espaço. Feito uma redoma de amar.  
A luz voltou, está tudo normal. Mas serviu de alerta para que eu siga o exemplo da empresa de luz e , mesmo contrariando a pressa da vida, dê umas paradas para manutenções na rede. Assim evitarei que minha vida tenha blackouts.