quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Atracando





Dia corrido. Misto de euforia e embrulho no estômago. Hoje, mais uma vez, volto a Porto Alegre para mais um bloco de aulas. Dizem os atores que a cada apresentação é a mesma sensação de frio na espinha. Sinto . Sei. Deve ser pelo acumular de coisa  a fazer, entre profissionais e pessoais, entre as tarefas de mãe, sempre parecendo intermináveis. Deve ser o empenho de acertar, texto e passos. Incrível essa capacidade que tenho de encher meu dia, seja lá com o que for, feito cova em plena areia fofa da praia. Posso cavara á vontade, mas nunca termina. Nunca de chega ao final. Sempre há mais areia e areia para o meu caminhãozinho - e aqui, num mal sentido. Por vezes eu mesma me soterro.
Já fiz as compras da casa, como se os moradores que aqui ficam fossem incapazes de tal. E rio, a toda volta, quando vejo que o que comprei está exatamente no lugar onde deixei. Já fiz com minha querida Sônia -  comigo desde sempre e já empatando com os anos de vida de meu filho - , o cardápio da semana, como se fosse ficar um mês fora, e não parcos dias. E como se ela não soubesse ainda, depois de tanto tempo de convivência, o que fazer. Já ví com meu filho as coisas faltantes, como se fosse um incapaz, bem ao contrário do "safo" que é. Enfim, essa é a vida de uma mulher, de toda ela que se dá ao "luxo" de fazer um pouco o que quer. De, enfim, depois de 15 anos  - mais para 16 - de babá e governanta, se dar ao "luxo" de  correr atrás de mais um sonho, entre tantos que já teve, certos ou não, e dos muitos que deixou para trás. E se não vivê-los, como saber?
E bem sei como isso me custa, além das caras fechada s e desdenhos da vez. Todo sonho cobra seu preço. Estar em meio a  quase duas dúzias de alunos recém - formados, jovens, com seu arquivo nada saturado (piada de meu sócio, que compara tudo na vida com computadores...). Sem contar os professores, todos também mais novos que eu. Precisa coragem. Arranjo. E uma bela dose de cara de pau. Tenho. E sigo meu caminho sem nem saber ao certo onde vai dar. Devo ter puxado minha mãe, que fez faculdade depois dos 40, e pós depois dos 60. E olha que os tempos dela eram bem outros. E tinha cinco filhos. Lição, boa ou ruim, mas lição. Pena ter deixado para "ser feliz" só depois dos 70. Esse exemplo não quero seguir.
Minha dose de ser feliz quero hoje, se possível agora.
Mas a ida para estudar vai bem além de livros e discussões em equipe. Bem mais do que os modernos professores acessam em plena aula. Tem outras facetas. E outras lições. Talvez até mais importantes do que as que me virão no diploma.  Tenho aproveitado ao máximo meu tempo. Montar uma trama boa de amizade e , quem sabe, negócios. Falando assim parece frio. Mas é como se o porto, hoje alegre, fosse para mim já um porto firme. Aproveito minhas poucas horas por lá para amarrar meu barco com cordas cada vez mais firmes, laços daqueles que só os bons navegadores conhecem e sabem fazer e soltar.  E na espera de poder atracar firme, fugindo de tempestades. Ou apenas por descobrir que ali é o seu lugar. Seu porto firme. Terra de ficar. E, quem sabe, olhar aquele pôr do sol que, aprendo, é o mais bonito do mundo. Quem sabe direi isso de coração. E com amor. Filha de gaúchos que sou, faço as contas e me vejo já metade "prenda". Meio caminho traçado. A outra metade, eu nem sei. Deve ser  a de ser mãe. E mãe mora no "país" do filho,
seja lá onde isso for.
Sou nômade, sempre fui. Se não de corpo, de alma. Já morei onde queria porque a vida me puxou, depois de uma conversa com minha vontade. Não no mundo, onde sonho belas passagens (é, mas não ganhei na megasena...), onde aprendo que os lugares são diferentes, e cada um tem sua beleza. Mas, descubro, o que conta são as pessoas. Já morei em cidades que não em deram esse alento. Conto com elas como número e nome, e nada mais. Apenas constarão em meu livro de memórias. Ou meu Curriculum Vitae. Posso conhecer um mundo todo, mas nada será guardado em mim além delas. Pessoas. O que importa é quem te recebe no porto e te puxa para a terra firme.  Quem te dá aquele abraço bem vindo e tão esperado. Quem te convence a ficar. Quem sabe um dia me mudo "de mala e cuia",como dizem os gaúchos?
A mala eu já tenho...

2 comentários:

  1. Chorei...
    Vai guria..segue o caminho do teu coração.
    Bj,
    MEG

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  2. Estou. E descubro que nenhum caminho é fácil de ser seguido. Mas continuo guardando as pedras para fazer meu castelo...

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