domingo, 31 de outubro de 2010

Caminho


Estou lendo um livro sobre felicidade. Não tão simples assim, nem o livro e nem o tema. Estava eu agora jogada no sofá, e olhando o sol que deu as caras recém agora, final de tarde, depois de uma manhã chuvosa e um continuar cinzento.
Fiz do dia o que eu pude. Estudei o que tinha que ser estudado (sim, eu estudo nos finais de semana...), trabalhei o que tinha para trabalhar (sim, eu trabalho nos finais de semana...), caminhei até cansar. Cozinhei porque tinha que, fui dar uma volta com o filho e meu cão - atendendo a pedidos e latidos. Sentei em meio-fio, pisei na grama, corri, ri do jeito que o filho andava de skate (lembrava o " seu coisinha de jesus", do Casseta & Planeta., dá para imaginar e não rir? ). Dei água para o cachorro usando a palma de minha mão. Senti meu corpo satisfeito e cansado. Descansei. Dei-me ao luxo de dormitar no sofá. Afinal, é sábado.
Então, acordei com o sol lá fora. Por um momento senti-me insatisfeita com o dia. Culpa de meu pai, que não esquentava sofá nos finais de semana - nem naqueles de "chuva de canivete". Peguei dele a mania, imagino. Fica sempre a sensação de que estou perdendo algo. Como se o algo estivesse só lá fora. Como se o algo não pudesse ser eu, e só. Ah, se o sol não tivesse dado as caras, eu nem tinha percebido
o dia passar...
Mas voltando ao livro sobre felicidade - um tanto denso, nada fácil - peguei o que me cabia. É um daqueles tantos livros que não se lê de uma vez só, feito romance. Não tem um fim. É como se plantasse apenas um senão, um talvez, um quem sabe. Que me perdoe Bauman, o autor, mas é um livro de rabiscar. Sublinhar. Alinhavar. De contrariar, rever reler tantas vezes as necessárias até ter peito suficiente para discordar. Ou juízo suficiente para acatar. Mas numa coisa acredito: felicidade é o caminho. Vivido ou sonhado, acrescento eu. Aquela sensação do querer. Do viver o momento. E de se imaginar em outros, tantos.
Seria, então, a esperança companheira da felicidade? E ficariam de mãos dadas com meus dias os que ainda tenho a viver? Então, caro Sygmund, pode ser nada. Pode ser tudo. Pode ser o que se vive. E o que se revive. E o que se sonha. E o que se lembra. Um sorriso. Troca de olhar. O que se sente. O ser retribuído. Uma gargalhada - uma de tantas. Um passeio de mãos dadas. E fazer isso tudo vir à tona vez por outra e nos fazer escorregar os lábios de prazer do bem vivido. Disparar o coração sem aviso. Eternizar o feliz é felicidade. Trazer na pele o que me faz bem, mesmo longe. Então, meu caro amigo, não é só a viagem. Não é só o caminho que faz o trem da vida. É a lembrança das paragens. Do aceno nas estações. Da próxima, onde alguém nos espera. E a certeza de poder viver aquilo tudo de novo. Tantas e tantas vezes, ao vivo ou no coração. Felicidade é viver. Mesmo que sentada no sofá. Mesmo que com a cabeça em outro lugar, em outro tempo, passado ou futuro. Mesmo aqui, onde estou.
E poder dizer aos mais desligados:
" Eu não sou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada". Como fez uma certa Clarice.

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