quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Demais



Descubro como sou frágil. Seria melhor dizer fraca? Sou pior que o tempo. Esse, um bom pescador sabe lê-lo entre as nuvens. Sabe quando o céu de anil vai se transformar, cedo ou tarde, num quadro cinzento. Eu,  não. Sou como os dias que a tempestade vem tão rápida que nem o mais experiente homem do mar  nota. Ou porque se distrai com algum peixe lutador e se deixa levar pela água. Nem nota o vento mudando, nem o mar agitado. Deve ser porque ama o mar. Porque confia nele. Precisa dele. Faz dele sua morada.
Sei bem o que me atinge, assim, no meio do peito. São os tornados. Mudam de ideia e de caminho sem nem avisar. E levam  tudo pela frente, sem nem pedir licença. Arrasam até as mais calmas pradarias - muitas que nem estavam no trato. Aliás, somos assim. A famosa "gota dágua" nos atinge. Entorna o copo. Vira tsunami. Como se fôssemos, todos, formigas, esses seres da máxima importância, mas que
nem sempre se tornam visíveis.
Outro dia me peguei pensando o que as mais pequenas gotas de chuva representam na vida dos pequenos seres. Lembrei dos desenhos animados, onde gotas viram bombas. Uma chuva, guerra impiedosa. Assim somos - sou? - quando algo nos atinge, por menor que seja seu volume. Depende muito de quão agarrados estamos. Do quão dependentes. Depende muito do valor do efeito para nós. Sobre nós. Mas tento entender. Foi a gota. Uma sucessão de  muitas que nem percebemos, mas estão lá, entornando o copo. Ou tentando. E , basta uma, minúscula, última, e toda a água se vai. Fica o copo ali, meio sem ação. Meio cheio ou meio vazio, depende da visão.
Frágil, sinto-me. Fraca. Deixando-me levar pela menor marola. Mas porque sei que é mais uma, de tantas, repetidamente tentando me tirar do rumo. Do prumo. Testando-me, como sempre. Deve ser porque me atinge a alma. Quando tira o sorriso da menina, por amar esse louco mar.
Demais. 

Sou como você me vê,
posso ser leve como uma brisa,
ou forte como uma ventania,
depende de quando,
e como você me vê passar.
(Clarice Lispector)

Ps.: Descubro que as tempestades passam. Sempre. No meu caso, basta uma caminhada com o filho, cachorro a tiracolo. As nuvens se dissipam, o céu se abre de novo, um sorriso volta ao meu rosto suado. Voltei cantarolando. Tudo volta ao normal.
Ou quase. Falta fazer as pazes com o mar...

4 comentários:

  1. Não foi à toa que te comparei a um vulcão.
    Torço sempre por ti.
    Bj,
    Meg

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  2. Meg, tua torcida vale por duas! beijos

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  3. Nossa.. Ei! sabe qual a vontade que tenho quando me deparo com um texto lindo desses?! vontade de pegar as palavras nas mãos e comer rs
    parece uma besteeira né? Mas é verdade rs

    Adoroooo

    Abraço e um beijo na bochecha

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  4. Pode devorar. Se sairam de mim, não são mais minhas, são de quem quiser...

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