sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Desconectada




Ontem faltou luz. Em pleno século XXI. Pare para pensar: o que você faria numa hora destas? Sem computador para trabalhar ou me conectar com o mundo, coloquei em prática umas tarefas encardidas pela má vontade. E nem isso deu certo, já que nossas casas não tem luz natural suficiente. Meu ânimo durou pouco, proporcional à luz do dia. Não sabia mais nem como ligar um fogão para aquecer um chá. Cheguei a pensar que nem o telefone funcionaria. Como se eu é que estivesse desligada de tudo. Desconectada.
Mal acostumada, sim. Não estamos mais acostumados com faltas já que temos tudo ali na mão. Tudo está ao nosso alcance. Tudo controlado. Tudo, teoricamente, funcionando. Basta um toque no botão, ou girar um outro, e o mundo está ao nosso alcance. Um mundo mágico, o tal sonhado dos filmes de ficção. E basta um tilt, um deslize, e literalmente ficamos "fora do ar".
Engraçado - ou não, fazendo uma referência "caetanística", uma brincadeira que já rendeu muitas risadas deliciosas  -  como só nos damos conta da importância de alguma cosia quando ela não está perto, quando não está presente, fora de alcance. Coisa ou pessoa. Dos indispensáveis tradicionais, como água à luz , aos contemporâneas- de provedor à televisão a cabo. Quem sabe pessoas. Talvez sentimentos.  Pedimos, muitas vezes, mesmo que só em pensamento, que o outro fale menos.E ao seu menor silêncio, sentimos falta do simples som de sua voz. Pedimos para que nos deixe em paz. E sem ele por perto, sentimo-nos sós, quase um inferno. Estranhos sentimentos, sempre contraditórios. Tentamos, conscientes ou não,  afastar o outro. E quando a estratégia dá certo, corremos voltamos atrás. Como se nos testássemos. Ou ao outro. Como que para ver até onde  acorda espicha, quanto ela aguenta. Ou nós. Sem ver que é a nós mesmos que estamos ferindo.
Está certo, aceitemos, em  muitos momentos da vida precisamos de um silêncio  nosso, próprio, como quem põe as coisas no lugar. Como quem calcula o próximo passo. Como quem se passa  a limpo. Como quem fecha um pensamento. E nem sempre esse momento vem no momento certo - se é que momento certo existe. Perde-se o fio da meada já no meio da tricotagem. Quem sabe na finalização.
Bem sei do que falo. Quem tem um amor no peito, de filho e/ou do nós, sabe do que estou falando, a qual momento me refiro. Àquele momento que ele te vira e pede um beijo. Que te freia e te pede um abraço. Porque ele está precisando ou porque eu mesma necessito, sem nem me dar conta. Para quem ama, não há tempo para dizer isso, nem hora, nem lugar. E nem sempre damos esse tempo. Nem sempre escutamos o outro. Nem sempre recebemos o que ele tem para nos dar. E nesse não ter , muita perda. Porque, para ele, e com certeza para nós, esse é o momento. Essa é a hora. Esse é o lugar.
Talvez seja o mal do século. Estamos sempre correndo, ansiosos, tropeçando em nós mesmos e nos outros, com nossas agendas e angústias abertas. Por isso amo os momentos que me disponho a me abrir para o amor. A aprender com ele o como se ama.  Olhar o outro, não apenas ver. Compreender meu par, não apenas escutar ( essa, já , minha missão quase impossível...). Sentir o que ele tem no peito. Ver sua alma, dar com ele o passo da dança tão esperado, tendo como pano de fundo uma parada na vida. Um espaço fora do espaço. Feito uma redoma de amar.  
A luz voltou, está tudo normal. Mas serviu de alerta para que eu siga o exemplo da empresa de luz e , mesmo contrariando a pressa da vida, dê umas paradas para manutenções na rede. Assim evitarei que minha vida tenha blackouts.

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