segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Regando


Li, com um misto de admiração e emoção, o texto "Quatorze minutos de reflexão", escrito na semana passada, onde Mario Vargas Llosa descreve a rede de emoções, todas, que traçou nos minutos entre receber a noticia de sua nomeação ( não seria melhor dizer coroação?) para o Prêmio Nobel de Literatura. Seriam longos 14 minutos entre o telefonema oficioso e a confirmação oficial para a imprensa mundial. Quatorze minutos que o escritor teve para rever sua trajetória e planejar-se para o evento e suas ramificações, as tantas redes a traçar. E viver. O gosto da vitória, o sabor do reconhecimento, ainda em vida, e  o medo do que virá. Fala de manicômio, sabendo-se exposto ao mundo canino das celebridades da vez. Seria disputado, puxado, seguido até que a memória das pessoas se colocasse de novo no rumo das coisas normais. Para elas, mais um.Para ele eterno.
Coloquei-me no lugar dele, assim, corajosamente metida, sem nem pedir licença. Viver de escrever. Meu sonho. Quem dera. A boa sensação desta que me parece ser a melhor das "profissões", aqui entre aspas, pelo valor endeusado que a dou. Acordar e ter como meta o bom entendimento das ideias, a companhia sempre agradável das palavras bem escritas. Um lapidar de pensamentos. Joia de entendimento. Como se cada texto - ou livro - fosse uma vida. Quem sabe seriam os escritores e poetas ( não seriam eles  a mesma coisa?) gatos de tantas vidas? Sete, dizem. Mas muitos têm infinitas, e muitas sem morte. Escritor tem vida eterna, como sonham os cristãos. Uma boa frase, um bom texto, um livro podem viver dentro da gente até que as cinzas nos levem. Mas elas, as boas palavras, não viram cinzas. Virão outros a abrir o tesouro amarelado e vivê-las novamente. Ressucitá-las  a  cada vez. Deve ser por isso que sonho em viver para escrever ( mais do que escrever para viver, tarefa bem mais complexa...). Talvez queira eu, nada humildemente falando, imortalizar-me entre folhas. Imprimir nelas meu viver para a eternidade. meu paraíso efetivado.Seriam os escritores santos? Deuses? Então, deusa quero ser!

" E pensei em quanto eu tive sorte na vida por seguir o conselho do tio Lucho e ter decidido, aos 22 anos, naquela pensão madrilenha da rua do Doutor Castelo, em algum momento de agosto de 1958, que não seria advogado, e sim escritor, e que, desde então, ainda que tivesse de viver com pouco dinheiro, organizaria minha vida de modo que a maior parte do tempo e da energia fossem dedicados à literatura, e que eu só buscaria empregos que me deixassem tempo livre para escrever", relembra ele, em meio ao belo texto, ainda dividido entre a vida sonhada e agora realizada, e as providências pedidas.

Ah, meu amigo, que doce sonho. Antes tarde do que nunca. Eu continuo pacientemente regando o meu...

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