sábado, 16 de outubro de 2010

Facilitando


Tem sentimentos que se fazem difíceis de entender. Não pela palavra de difícil definição, não apenas. Mas pela própria dificuldade de expressá-la por palavras. Como se  a representação dela em símbolos fosse  irrepresentável. Ou fraca. Como se a palavra e o sentimento estivessem ali, juntos, sem precisar de maiores explicações. São. E ponto.
Como a palavra amor. Amo, e pronto. Parece conter nela muito. Implicitamente muito. Tudo. Quatro letras, apenas. Simples de falar, de pronunciar, de entender - não compreender - ,  em várias línguas: amor,amore, l'amour, love, liebe. E como se entende fácil quando nos filmes, seja lá em que língua for! Soa leve, fácil, gostoso de  ouvir e de viver. Está nos olhos. Nos gestos.
Mas, longe das telas e das páginas sofridas dos livros, como é difícil de se soltar! E não devia. Não ao filho e à mãe, um pouco mais ao irmão e irmã. Amo ouvir meu filho me dizer isso todo dia. Sinto-me à vontade para dizer o mesmo. Aprendi com ele. Fácil de dizer na emoção não contida. Quem sabe à amiga que nos consola. Ou ao ídolo da vez. Fácil falar quando não compromete. Amo Pessoa. Amo Clarice.  Amo os amores distantes, não tocáveis, não vivídos, que não se diz no olho no olho. Amo os amores platônicos, distantes, teóricos. Mas quando se trata do amor entregue, comprometido, do amor sofrido de amar alguém, do amor ciumento que só quer para sí, ah, quanto medo! Quanto calafrio! Mas, quando se consegue, enfim, entregar-se a ele, quanta liberdade. Leva com ele o peso da alma, a entrega da lágrima, o eu para o outro. Como se dividíssemos um só corpo, como se assumíssemos o nós. Como se vivêssemos um só. Dói, como toda entrega. Como todo despojar-se. Difícil descrever. Só quem sente, sabe.
Sigo, curiosa. Testo a palavra saudade. Coloco no dicionário e nada vem em outras línguas. No bom português, as definições de sempre. Falta. Ausência. Nostalgia. Quem dera fosse assim tão fácil. Tem palavras que fogem das definições. Precisam da divagação dos poetas. Eles, sim, sabem , pois vivem as palavras como se fossem deles. Apropiam-se delas como se objetos diretos. Mas gostei da definição doída  - e nada doida - de Clarice Lispector. Ela, poeta e mulher, fez da palavra, poesia.

"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida".

Saudade, penso, é gula. É muito. Exagero. Por vezes é melhor pensar como o poeta Luiz Pessoa: "Saudade...é só um sentimento...". Fica mais fácil.

2 comentários:

  1. tem com passar no seu blog e não se encantar com cada palavra escrita? IMPOSSÍVEL!

    obrigada por visitar meu blog e pela motivação!

    PS: Adoro clarice e Fernando Pessoa..

    bju na testa!

    ResponderExcluir