sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Meu vaso




Tem dia que as coisas parecem que não vão sair do lugar. Dos trilhos, como se diz por ai. Que ficarão emperradas - e emperrando - pelo caminho. E, espertas, não vêm sozinhas.
Poderia me deixar levar pela maré. Parece, por vezes, mais fácil. Não lutar. Nada fazer. Mas onde nos levará? Nem sempre  - quase nunca - às praias imaginadas, aos paraísos sonhados.
Mas já notei - pena não levar ao pé da letra - que espernear de nada adianta. Parece querosene na fogueira já alta da vida. Por vezes é melhor dar um tempo, afastar-se do problema, ver que rumo ele pega - se sai do nosso ou se devemos confrontá-lo de vez. Deixar que as coisa se resolvam por elas mesmas, parece ser uma boa estratégia. Usar de meus olhos de menina.  ‎E, quem sabe, fazer até graça da desgraça toda.
Então, leio uma frase que me refresca por dentro, feito um bom banho morno. Ou uma caminhada com os pés nas águas curadoras do mar.

"Uma hora não é uma hora, é um vaso cheio de perfumes, de sons, de projetos e de climas".
Deve-se a Proust, diz o amor.

Uma hora é só ela. Única, nunca volta. Sessenta minutos de tic-tac, bom ou mal. E passa, se for ruim, basta esperar. Ou fica, e espera ser vivida  -  e amada  - profundamente, se possível ficar na gaveta das horas bem vividas. Romântica, imagina-se ficando. Espera ser lembrada muitas  e muitas vezes, como que ressuscitada vez por outra. Imortal, se possível. 
As horas são companheiras, não nos largam, não desistem de nós. Quer gostemos ou não. Podemos fazer delas céu ou inferno. Cúmplice ou inimiga. Melhor enchê-la, como Proust, de perfumes  e sons. De projetos, que são os que nos movem. E dar a ela o melhor clima possível.
Quem sabe ela vira amiga de verdade?

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