sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Preciso


Mais um dia ou menos um? Outro dia coloquei essa pergunta no ar e surgiram mil respostas e mais mil indagações, do tipo "o ovo ou a galinha". E cada uma a seu modo. E volta a meia ela insiste, bate à minha porta  a me sondar outra vez, como que insatisfeita com as respostas. Ou com nenhuma. Ou, quem sabe, nem quer me ouvir.
Mais um dia ou menos um...Muitas pessoas ficariam em dúvida. Mas não eu. Não eu que sei onde quero estar...Estava distante quando pensei isso hoje. Pensava no meu mundo radiante. Seria a resposta do dia, caso o dia me perguntasse. Tentei imaginar a cena. Ele sentado ao meu lado, a olhar o pôr do sol, quatro pés balançando no trapiche. Nem olharíamos um para o outro, olhos fixos no horizonte.
- É essa a resposta do dia?, escutei ele resmungar.
 A que respondi  prontamente, quase cuspindo da boca, tamanha certeza:
- Não! Resposta de uma vida!
E continuei meu diálogo incessante, eu  e o passar do tempo, sem nem saber se ele queria ouvir (tem vezes que se pergunta sem nem querer saber...)
- Mais um dia quando se quer se livrar dos dias -  e às vezes quero, completei. Menos um porque sei o que quero para mim. Sei onde mora o meu Sol.
Materializei o desejo. Meu sol. Tal sonho reverberou em mim. E me peguei a pensar na engrenagem toda, no tiquetaquear dos segundos, na precisão dos ponteiros, um levando o outro a passear. Na engrenagem que faz bater o sino. No cuco que anuncia as horas. Na areia escorrendo de um vidro a outro. Lembro do relógio de água, do de bolas. Dos tantos espalhados pela casa. De outros tantos guardados em caixas, satisfazendo gostos. Pequenos , grandes, redondos, quadrados. Na diversão de, neles, ver o mundo passar, preencher um minuto, completar os sessenta, e eu a esperar. Vinte quatro voltas a dar.
Menos um dia. Bem vivido, mas menos um. Como se estivesse passando a limpo as coisas pendentes. Como se não quisesse deixar para trás nenhum rastro. Ou deixar, sim, porque sempre deixamos - mesmo à beira do mar, onde ele se encarrega de apagá-lo. Ou por dentro do rio, onde ele, o rastro está, mas não vemos. Nossas marcas ficam, modificam, sem que queiramos ou pretendamos. Passamos, e algo fica. Sempre fica. Um pedaço de nós fica lá.
Menos um dia no calendário, que risco, diariamente, e  com boa vontade, com canetas coloridas. Esse dia, lembro, não volta mais. Missão cumprida, por mais comprida que tenha sido. Se tivesse um de parede - destes de página inteira - rasgava. Simbólicamente sumia com ele. Menos um.
 E amanhã tem mais.

"E todos os dias têm essa janela por diante,
E todas as horas parecem minhas dessa maneira"
Passagem das Horas poema de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa

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