segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Quintaneando





Tirei o fim de semana para conhecer - ou seria reconhecer? - o centro de Porto Alegre. Passeie pelas ruas super movimentadas e fiquei abismada com o que vi. Um centro lotado de gente à procura de algo - objeto ou diversão. O real significado de um mar de gente. Ou seria melhor falar um rio?
Relembrei as aulas de urbanismo, várias delas. De como os prédios se encaixam na malha da cidade. Do como trazem na fachada a cara do momento em que foram desenhados. Do como convivem, bem ou mal, lado a lado. E com a cidade em volta. Das perspectivas que deram certo sem que pensassem nisso. Parei numa esquina e vi de um lado uma capela bem ao final da rua. De outro, a matriz, imponente  como sempre, no alto do morro. E para o outro lado, o rio com seu porto, hoje não tão alegre assim, escondido por detrás dos muros  - como se fosse feio, como se proibido. E ai sim, vislumbrei os "corredores" de prédio, cada um com sua história. E imaginei a Porto Alegre antiga, cheia de Veríssimos e Quintanas. De cafés tomados em plena rua. E das tantas e tantas conversas políticas e poéticas que a história nos deixou. Finalizei o passeio tomando café com Mário Quintana em pleno pôr do sol sobre o lago que se faz de rio. Sentia-me no topo do mundo. Não do de hoje, mas do de ontem. Até o café de hoje teve gosto de saudade, assim, tomado sobre os telhados do tempo.
Fiquei com vontade de entrar em um túnel que via nos seriados de minha infância. Voltar ao local ainda hotel. Eu, entre saias belíssimas, salto elegante e penteados bem feitos a  esperar o mestre para uma conversa. Vi-me jornalista. Quem sabe fotógrafa. Ou qualquer outra forma de materializar o momento. Quem sabe merecer palavras doces ou até entusiasmadas. Ou vê-lo, ali na minha frente, a rascunhar mais um pensamento na mesa do café, enquanto eu embalasse uma boneca qualquer. Dizem que era ranzinza. Acredito. Viver de palavras não é fácil. Mas sentar ao lado do boneco feito em sua homenagem -  e quase tocar-lhe com as mãos, feito namorados - , foi mágico. Meus olhos encheram-se de lágrimas e meu peito de saudade. Um saudade desconhecida. Não só do poeta, e sim do tempo. Devia ser bom poder andar pelas ruas sem contratempos. Sem o medo de agora. Sem essa pressa que faz a gente só passar. Não se vive. Não se tem hora para isso. Não se dá essa chance. Viver não põe a mesa, nem paga as contas. Por isso não se tem mais marios, nem  ericos, só poetas rasos. O hoje não se sabe mais romântico. Não se poetiza o simples. O hoje não se deixa levar pelas emoções do momento. O hoje não pára para se expressar. O hoje não entende o hoje. A não ser que se quebre as regras e se olhe o passado com olhos de menina, corpo espichado para espiar a vida. A não ser que se imagine a desfilar entre corredores perfeitos. Desfilando como mulher ou correndo como moleca. A não ser que se lembre de admirar o que já foi feito. Nem que seja numa, até então, simples tarde de domingo.
Mario, prometo que volto. Tem aula de dança. Essa chance de voltar ao teu tempo eu não posso perder...

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

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