domingo, 3 de outubro de 2010

Sai, neura!


Livros tem uma coisa mágica. Você abre, feito portal dos filmes infantis, começa a ler e nunca sabe onde vão te levar. Lendo um dos tantos livros que estou devorando para meus estudos, teoricamente "apenas" sobre a evolução da tecnologia, desde Thomás Edison ( sim, o "homem da luz!") até  a  Internet, fiz uma "viagem" e tanto. Lembrei, de novo, do adesivo que tinha no meu "possante" primeiro carro ( o primeiro carro a gente também nunca esquece...): "Quem lê, viaja".
Na descoberta da energia elétrica, muito mais que uma solução. Mudanças, muitas. O que começou nas indústrias, trouxe uma modificação radical - e sem volta, imagino - no nosso jeito de viver, no sentido mais material,  e de viver, esse que apesar do mesmo verbo, vem no sentido mais amplo. No nosso jeito de ver o mundo. De conviver. De viver. Claro, muita coisa boa. Tantas que nem vale a pena começar a enumerar (lembro do texto do outro dia, quando falava da falta que faz a falta de energia elétrica...) . E muitos exageros. Muitas modificações nem sempre bem vindas ( do meu humilde ponto  de vista, claro!).
Duas mudanças me chamaram  a atenção, a priori: a troca da vida no campo pela vida urbana - e todas as implicações de  uma falta total de planejamento. E a vida da mulher, e das tantas coisas que resmungo desde sempre. Ou desde os tempos que perguntava a mim mesma porque não tinha nascido homem (coisas de adolescente...).
No crescimento urbano desordenado das cidades ( ah, minhas aulas de urbanismo...), na corrida  maluca por um emprego nas grandes fábricas, pouco espaço para muita gente, pouca chance para muitos despreparados.Uma troca muitas vezes desonesta. A vida difícil mas, imagino, controlável do campo,  pela vida difícil e totalmente descontrolada da cidade. Um empilhar de gente e de subempregos. Um acúmulo de gente e de doenças. Uma falta inesgotável de planejamento e de ação. Todo mundo um pouco que seja interessado no assunto - ou no mundo -  sabe do que estou falando. Inclusive dos muitos problemas que temos até hoje. Basta ligar a televisão, dar uma volta de carro ou olhar pela janela para constatar.
Mas fiquei perplexa mesmo foi no detalhamento das mudanças no dia-a-dia da mulher, até então dona de casa ( certos estavam os vendedores que batiam de porta em porta a perguntar se a dona da casa estava;  coisa com que sonhamos, na maioria das vezes, uma simples mudança de uma letra que muda muita coisa...). Os trabalhos em casa, até então dificílimos pela falta de, digamos, métodos mais avançados de  manutenção de uma casa, eram repartidos entre os moradores ou outros ajudantes. Na presença dos novos aparelhos domésticos, como o próprio nome diz, passíveis de uso no lar, pensou-se que as mulheres poderiam fazer todo o trabalho sozinhas. O que trouxe uma certa solidão, quebrada pelas receitas de bolo da televisão. E pediu-se mais empenho, dadas as "facilidades". Roupas mais bem lavadas e muito bem passadas, faxinas diárias, e assim por diante. Seria uma nova escravidão? Ou seja, mais em qualidade e em quantidade. O "novo mundo" trouxe com ele uma perfeição que não se previa, e com uma periodicidade de assustar. Limpa-se a casa todo dia, lava-se  roupa até cansar ( e o passar é que são elas...). E, de troco, a velha e nada boa mania de se medir uma mulher pela impecabilidade de sua casa. Camisa amassada? Mulher descuidada. Casa suja? Mulher relaxada. Não sabe cozinhar? Não pode casar!
Some-se a isso a  entrada da mulher na força de trabalho ( e pela "porta dos fundos', fazendo armas ou uniformes de guerra, quem sabe a ser usada pelos próprios maridos ou prometidos...) e temos ai a invenção da "super-mulher". São, no mínimo, 8 horas de labuta fora e mais tantas de labuta dentro. E ainda têm os papéis de mãe, professora, terapêuta, conciliadora, amiga, amante, esposa fiel e dedicada (esqueci o adjetivo "ouvido de penico"...) . E se tem quem ajude, somos governantas de luxo. Somos polvos, de tantos braços e muitas cabeças, como disse uma vez. Agenda de múltiplos assuntos. Gelei só em lembrar de minha mãe, que engomava as roupas tarde da noite, depois de dar aula um dia inteiro, tinha cinco filhos, fez vestibular depois dos 40, etc.,etc. A vida dela já dava um livro.
Sem me estender mais do que já o fiz, ficou o alerta. Tecnologia, como tudo na vida, tem seu lado bom e  seu lado ruim. E por vezes escraviza. Eu, grudada nesse computador, bem sei. Mas, como diz uma propaganda de produto de limpeza, "sai neura!", que eu tenho mais o que fazer! Tenho até um romance para ler. Mas, antes " vai para o banho, meu filho!"

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