quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Vero


Assumo. Se quiserem ponho em outdoor. Sou sol e lua. Sou preto e branco. Sou contrários.
Vamos por partes.  O mundo dos adultos não me interessa. Esse mundo cheio de problemas que nós mesmos criamos não me atrai. Esse mundo cheio de complicações e conjecturas, não me puxa para dentro dele. Assumo ser metade Poliana, menina ou moça, metade Carolina, aquela que ficava na janela vendo o tempo passar (minha mãe cantava para minha irmã...). Quem sabe Susanita, a do Quino, à espera de dias melhores, enquanto admirava seus lindos sapatos de verniz. 
A outra metade de mim nem sei o que é. Um avesso. Desprezo. Uma real sensação de desinteresse pelo mundo raso. Nem sei se existe. Ou não me diz nada. Não me acrescenta. Não me ilumina. Olho em volta e vejo um nada. Pessoas vivendo num mundo de fantasia. Devia amar. Combina com meu lado menina, sonhadora. Mas, não. No mundo das crianças tem verdade.
Meu mundo querido e tão ingenuamente sonhado não é vazio. Está cheio de boas intenções. Só de boas intenções. Não destas de status e posse. Nem de ti-ti-tis. Nem plumas, a  não ser de alguma fantasia para alegrar alguma menina, nem que seja eu. Nem coroas, a não ser a de princesas escondidas em seus castelos de sonhos. Deve ser por isso que o meu, sonho -  aquele, solitário e íntimo, da qual ninguém precisa (ou precisava)  saber, era o de um destes trabalhos voluntários, lá no meio do nada - ou do tudo. Esses da Cruz vermelha.Ou Médicos sem Fronteira (será que ainda dá tempo de fazer Medicina?). Um despir-se de mim. Com passagem só de ida.
Já tentei. Mas sempre quebrei a cara. Era ingênua demais, diziam. Frágil. Envolvia-me demais com a causa, alertavam. Envolvia-me com a pessoa (que era para minha uma pessoa e não um número, não mais um). Envolvia-me a ponto de me esquecer. De me fazer parte dela. Ou ela mesma, inteira. E quem se esquece, não ajuda. Atrapalha. Quem passa frio para aquecer o outro, não ajuda. Trocar de vida com o outro não leva ninguém a lugar nenhum. Dizem. Aliviar, sim. Ajudar, sim. Mas não necessariamente trocando de lugar.
Mas, enfim, admito. Sou assim, contraditória, irresolvível. Ininteligível. Queria para mim um mundo mais fácil - mas não no sentido de levar por levar, muito pelo contrário. Para mim, o mais fácil é o mais verdadeiro. Mais honesto. Mais vivido. Mais gente, menos coisa. Mais "vivível", se é que essa palavra existe. Mais humano - não no sentido teórico dado a  ele e sim de valorizar o ser. Um mundo mais igual. Mais puro. Mais verdadeiro. Deve ser isso que muitos sonham, mas não realizam. Procuram,  mas não acham. Penso que seja porque esse mundo ideal, resolvido, tem que se querer de verdade. Tem que se assumir a vontade de corpo e alma. Uma vontade que começa solitária. Que começa dentro de cada um. De mim. Começar a me cuidar para depois cuidar do outro. Adular-me para que o outro o faça. Valorizar-me para que o mundo me dê espaço.Tentar ser forte para depois levantar o outro. Tenho que começar a me amar para que o outro me ame. E a ser feliz  - ou tentar - para que o outro se sinta assim ao meu lado. Senão fica egoísta. Solitário. Pobre. Efeito contrário.
( E que não vistam as carapuças, por favor! Pelo menos as minhas dores, deixem que sejam só minhas!)
Respiro fundo. Tento acalmar meu coração. Lembro uma das raras frases "otimistas" de Clarice, a Lispector:

" Não tenho tempo para mais nada, ser feliz me consome muito".

 Paro para tirar a pulga que brinca por detrás de minha orelha. A dúvida cruel. Estaria ela sendo irônica? 

3 comentários:

  1. Valorizar-me para que o mundo me dê espaço.Tentar ser forte para depois levantar o outro. Tenho que começar a me amar para que o outro me ame. E a ser feliz - ou tentar - para que o outro se sinta assim ao meu lado. Senão fica egoísta. Solitário. Pobre. Efeito contrário.


    isso tão verdadeiro.. me sinto assim..
    adoro visitar seu blog e encontrar realidades tão minhas, tão suas..

    abraço com muito carinho!

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  2. Tão nossas...somos tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais...
    E são palavras como as tuas que me fazem continuar!

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  3. Obrigada pelo carinho.. Tuas palavras é como um toque suave no meu dia..

    abrço apertado!

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