terça-feira, 30 de novembro de 2010

Bandeira branca



Estava seguindo as notícias do Rio de Janeiro, não a titulo de curiosidade como muitos, mas de plena atenção como se passássemos - e não foi isso que se viu? - por uma guerra interna. Tentei ver o lado da polícia, da imprensa e dos moradores, esses que tiveram - e tem  - que viver neste
campo de batalha  real e nada momentâneo. Para nós, foi o show da semana. A manchete da vez.
Para muitos, o de sempre. 
Por  parte da polícia - e incluo aqui o Estado - , achei que demorou demais. Não é de hoje que ouvimos falar dos problemas das favelas, da total falta de oportunidades e de um contexto mais favorável, mais humano. E de como alguns intimidam e obrigam tantos até então do bem a  entrar no negócio, seja por pressão ou total falta de possibilidades. Não é de hoje que a comunidade pede atenção, não só em termos de segurança como de educação, saúde, saneamento, lazer. Se deixaram eles se instalarem lá, tem o dever de pelo menos incluí-los na receita do dia. São, eles querendo ou não, pessoas da sociedade. Já se cansou de ver resultados maravilhosos em lugares que tiveram um trabalho mais especifico, quando foram olhados de frente, quando foram vistos como cidadãos. Mas, não. Parece mais fácil deixar "a coisa rolar". Até porque, sabemos, há muito mais interesse do que se possa imaginar. Está ai o filme Tropa de Elite que nos dá uma pequena degustação do que há por lá. Do que vem de lá. Não há santos em nenhum lugar quando as coisas são difíceis de um lado e aparentemente muito fáceis de outro. Até porque não temos bons exemplos nem nos mais altos escalões, seja da polícia ou da política...ou seria tudo a mesma coisa?
Os poderes, todos, não tem nos dado exemplos a serem seguidos. Mas, muitos já me dirão: o buraco é bem mais abaixo...
Tenho uma visão muito cuidadosa de todas estas questões. Tento não ter preconceitos de qualquer ordem, pois nunca se sabe quando a "água vai bater na bunda". Ou o assunto bater na porta. Acho, sim, que toda  pessoa tem que ter oportunidades na vida, senão o caminho do bem fica muito longe de ser alcançado, enquanto o do mal está ali diante deles, como diante de nós. O da simples agressão. O do desdenho. da exclusão. O da criminalidade, o das drogas. O da vida fácil. Estão ali, servidos em bandejas, para quem quiser ver e usar. Das favelas aos colégios de luxo, como temos visto nos jornais. E nessa era de facilidades, nessa era do querer mesmo sem poder, do acesso a tudo e sem limites, a guerra começa em casa. Na mesa do café da manhã. No caminho para a escola. Nos mantras dos nãos ditos por tantas mães. Para essas mães que tentam, penso eu, mas que tem que ficar longe o dia todo, é coisa de rezar e rezar... Entregar nas mãos de Deus, como dizem. Pobre delas -e  Dele - , não têm dado conta do recado...
Mas voltando ao assunto que me trouxe até aqui, detestei ver as pessoas saqueando os imóveis dos traficantes. Não por pena dos caras, não. Sabe lá o ódio engasgado em tantas goelas. Mas pela total demonstração de impotência  - ou desinteresse - de quem deveria manter a ordem. Da demonstração do descaso por parte da policia e  do sensacionalismo por parte da imprensa - que fez disso tudo circo.  E do mal exemplo frente à comunidade e principalmente frente aos filhos. Da repetição do erro. Do exemplo mal dado. Da invisibilidade da coisa. Se alguém ali tivesse pensado nisso, estes lugares bem poderiam servir de "troféus", sim, mas não para uns poucos. A comunidade ganharia ali um belo centro comunitário, uma escola, uma creche, um posto de saúde. Faltou pensar.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Onze





Se amanhã o que eu sonhei não for bem aquilo,
eu tiro um arco-íris da cartola.
E refaço.
Colo.
Pinto e bordo.
...Porque a força de dentro é maior.
Maior que todo mal que existe no mundo.
Maior que todos os ventos contrários.
É maior porque é do bem.
E nisso, sim, acredito até o fim.
Caio F.Abreu

Li esse poema no perfil de uma amiga no Facebook - a "Belle d'Jour", codinome  de uma mulher de belíssimo gosto em textos e obras. Gostei. Tem um "quê" de positivo que necessito, nestes tempos de cobranças internas intermináveis.
Ando bem sensível. Muito. Choramingando por qualquer coisa (qualquer coisa mesmo!) ou por coisas que antes nem dava bola (como ser tratada como uma ninguém). Enraivecida por nada - ou seria tudo, que tento camunflar com meu jeito de "ir levando"? Não sei se pela proximidade de mais um final de um ano nada comum, nada fácil. Ou o famoso  - e nada comprovado - "Inferno astral", aqueles dias terríveis que precedem ao nosso aniversário. Uns dizem que são dez dias, outros, que um mês inteiro.
Poderia ser um ano?  
Dezembro se aproxima e é como se eu visse um demônio em minha frente. Deve ser o cobrador desdes últimos 300 e poucos dias batendo à porta cobrando decisões. Se cobrasse em dinheiro, eu pagaria. Venderia a alma para me livrar dele. É...dinheiro não traz felicidade, mas quem sabe convence o capeta?
Falando sério, 'eita' aninho nada normal! Já diz o texto de Baumann ('tá' certo, já falei demais dele aqui...merecia até um certo crédito do autor...) que a felicidade pode estar em querer pouco. Que quem se acostuma com o básico é mais facilmente abraçado pela felicidade. E ai eu paro para pensar: será que o que eu quero é muito?  Quero ser eu mesma. Já estou quase careca de falar isso. Ontem fiz todo um texto sobre isso que pesou como pedra no estômago. Hoje, passado a limpo, pesa feito água. Mas não teriam as duas coisas o mesmo pesar? A água disfarça seu peso, mas enche, pesa de qualquer forma. Tente beber uns 10 copos de água morna, em jejum,  um trás do outro, e depois me diga. E não se iluda: a água fura a pedra, você bem sabe disso...Lembra? "água mole em pedra dura...".
Mas, enfim, o final do ano se aproxima e traz mais um número em minha vida. Entro na casa do sete. Na numerologia, na casa dos onze pela soma dos números. O Onze (assim, mesmo, em letra maiúscula, para que ganhe destaque na minha vida) , diz lá, "gosta do poder, que lhe permite realizar os seus desejos. Busca o domínio das situações - e, muitas vezes, das pessoas. Quer ter as rédeas de sua vida em suas próprias mãos, e sempre que pode, faz valer a sua vontade". O que bastou para me deixar mais animada.
Diz que o Onze é o inventor da frase "querer é poder". Tomara esteja certo. Tomara me dê a força que está me faltando para virar a mesa. Quem sabe ele me descobre debaixo dela...





sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Guerra


Guerra. É o que está se vendo ontem e hoje pela televisão. Ao vivo. Cenas que põem filmes como Tropa de Elite numa sessão infantil de cinema. Agentes do Bope sendo transportados em tanques de guerra "iguais aos usados na Guerra do Iraque", enfoca a jornalista. E militantes das favelas fortemente armados e sendo filmados à distância. Os helicópteros não podem chegar muito perto para não correr o risco de serem abatidos - como aconteceu no ano passado. É a guerra brasileira, nosso pacifismo de fachada, escondido em algum morro do Rio. Ou daqui.
Tento entender os reais porquês enquanto o especialista em segurança passa as orientações para os bairros vizinhos. "A comunidade  já está acostumada," salienta ele, "mas o perigo se estende por mais de 1500 metros" ( que é a distância que pode ser percorrida pelas balas em uso). O Brasil pára ver para ver sua própria guerra interna. E, como nas melhores guerras, comandada de longe por seus "co"mandantes. E não foi sempre assim? Ou alguém viu algum "cabeça de guerra" sair de seu domínio para dominar o mundo?
Teve um tempo que tive medo de polícia. Ainda tenho. Parecem que estão sempre intimidando, usando de seu poder para nos fazer calar ou parar. Mas não vou negar que senti uma certa admiração pelo grupo de ontem, por toda aquela movimentação. Exército, Marinha, Bope, todos os poderes, juntos. Fora os que devem chegar, reforço esse que vem de vários estados do país. Seria orgulhoso, não fosse as razões torpes e minha pena em relação aos moradores, os verdadeiros prisioneiros desta história. Seria interessante de ver, não lembrasse eu da quantidade de homens lutando contra a dita "lei", em números quase iguais. Que vida é essa que levam essas pessoas que não vêem outro caminho que não seja o do crime?
É, mas essa história vem de longe e vai longe, apesar das rezas de tantas e tantas mães. Duvido que alguma apoie isso. Seriam eles, então, filhos desgarrados. Que futuro se espera disso? Que filhos virão dai? Então lembro do Carnaval que, tirando as tantas histórias não muito glamurosas que tem por trás, ainda junta muita gente em prol de algo bom.  E dos trabalhos de voluntários, tantos, quase nunca reconhecidos. Poderíamos ter um fio de esperança?
Falando em filho - e tentando de alguma forma relaxar - o meu entrou de férias. Muitas mães, como eu, arrepiam só de pensar. O meu, já quase um homem formado, interrompe meu raciocínio matinal pedindo café. Perco as estribeiras e o texto quase pronto. Voou levando meus melhores pensamentos. E eu, que podia ter feito disso uma guerra, levei em conta a dos outros. Meu filho está em casa, são e salvo, de balas e de más ideias. O máximo que pode acontecer é ele reclamar que "não tem nada para fazer'. E isso, mãe que é mãe, já está acostumada. Melhor nem lamentar...

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Pesadelo



Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas, e mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!
Confissão, Mário Quintana


Acordei hoje com essa sensação. Suave por fora, tremendo por dentro. Tive sonhos impensáveis, fui despertada na madrugada pela minha síndrome - que não me visitava fazia tempo. Acordou-me de solavanco. Apeguei-me aos santos e rezas até que meu coração acalmasse. E me apego às palavras aqui tecladas para ver se me entendo. Se me advinho. Se me exorcizo.
Pode ter sido só uma noite ruim. Como pode ser meus fantasmas querendo sair. Os fantasmas das coisas que vamos levando e nem percebemos como crescem dentro de nós. Criam raízes. E muitas vezes daquelas traiçoeiras, estrangulantes. Parasitas, sim, mas que podem aparentar linda for.
Minhas parasitas são as coisas mal resolvidas, os sapos engolidos a seco. As inseguranças do caminho. As situações guardadas em segredo. Mas são também meus medos. E esses são tantos...Eu que me dizia corajosa, já me pego pensando que não. Acho que meu maior medo é não poder me ser como quero. É não poder ser como sou. É deixar de batalhar pelas coisas que acredito, coisa que tenho feito a tantos e tantos anos. É o medo de que a minha criança interior seja dragada pelo passar dos dias, pela espera de ser feliz, e eu vire uma mulher infeliz. Que não tenha mais sonhos. Seca por dentro. Morta. Feito árvore que cai depois de um temporal, assim, sem avisar. Apenas cai.
Apego-me ao amor. Ao que fiz - e faço - em nome dele. Apego-me a essa sensação que me alivia de ter feito - e estar fazendo - o meu melhor. Se meu sorriso não veio hoje - ou pelo menos até agora - com certeza virá. Não sou mulher de remoer mágoas. Nem que seja por ter desabafado. Nem que seja por ter entendido. Ou tentado. Nem que seja por saber que a vida tem muito ainda para me dar. Bem mais que noites mal dormidas.
 Mas, se eu fosse Clarice, a Lispector, falava que estava só cansada...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Livre pensar



" ... o pensamento tem rédeas próprias, e muitas vezes surpreende  até mesmo quem o pensa".

Essa frase de Lucia Santaella, autora de tantos livros sobre comunicação, arte e linguagem, fez escapar um rasgo de sorriso em meu rosto. Um sorriso entre surpreso e prazeroso, do concordar e descobrir
que sou "normal".
Quantas e quantas vezes estou no caminho de um saber-me  - caminho esse que faço quase de olhos fechados, feito brincadeira de cabra cega, entregue e confiante do não saber onde, mas querendo chegar a algum lugar -  e sou surpreendida por mim mesma - ou seria pelo meu pensar? Quantas e quantas vezes peguei um caminho e cheguei, boquiaberta, em outro? Dai vem esse meu sorriso. Do encontrar no final - ou meio - do caminho escolhido pelo "destino" um belo jardim. Ou uma fonte inesgotável de prazer. Ou uma pedra, enorme, intransponível, tanto faz. A surpresa é o que chega. A surpresa é o que me vem sem esperar. Sem planejar. Sem, por vezes,  e muitas, nem entender.
Penso que seja coisa do momento. Esse momento movido a velocidade do pensamento - nem sempre da ação. Essa fase mutante pela qual todos estamos passando, querendo, aceitando, ou não. Essa frase de cruzamentos de informações, transposição delas, todas, juntas e ao mesmo tempo. Sem vírgulas, sem pausas, sem freios. Sem parágrafos que nos norteiam. Sem pontos finais, dando chance de respirar. Como diz Santaella, estamos "no olho do furacão", essa "inquietante e desconcertante evolução de tecnologias". Fala do computador como "motor de remodelar, dínamo da comunicação globalizada e acelerada da cultura".  
Bem sei . Sinto na pele - ou melhor dizer na ponta dos dedos? Saio em busca de algo qualquer e me vejo longe, num mundo distante, meditante até - aqui no sentido de perder conexão com este. O mundo, todo, ali, à minha espera. Isso para mim que estou longe de ser da nova geração. Do fazer tudo ao mesmo tempo. Do som ligado , as imagens  da televisão feito mosaico, trocando mensagens pelo celular...enquanto estuda!A era do zapping, eu definiria. Muitas coisa junta e  ao mesmo tempo e num clicar de olhos - ou teclar de dedos. O mundo ao alcance,  e um falso "sob controle" - nem que seja remoto.
Por isso gosto da educação que dei para meu filho. Consegui - não sei bem como - fazê-lo  "menos ativo". Ou menos "pró-ativo". Não se dá muito bem com jogos virtuais - a não ser nos rompantes de dias. Nem com mensagens de MSN, nem do celular. Não atende telefonemas como se falasse em código, como fazem muitos de seus amigos. Nem se comunica por monossílabos, teoria minha sobre a atual deseducação ( ou seria desinteresse?) . Falta o básico, parece. Divirto-me com suas brincadeiras - mímicas e danças inventadas - e seus "mantras" de chatice. Ou quando faz pouco caso sobre os "astros da vez". E relaxo ao ver que pede "colo", deita ao meu lado para assistirmos, juntos, a algum programa "saudável" na televisão, enquanto azucrina o cachorro como se fosse o irmão caçula. Até para comer ele foge do padrão. Gosta de experimentar, de inventar. Ao mesmo tempo que sai com amigos, em bando, como digo.
E leva na mochila o que tem de bom.
Sei - sabemos, espero que sim, do que nos espera. E tento de alguma forma fugir do padrão. Crianças superativas que serão adultos sem muita noção do que realmente querem além das vitrines. Do que realmente são. A era do fácil, do descartável - de coisas a relacionamentos. Sem rédeas. Cavalos selvagens soltos no tempo. Espero ter passado - e passar, já que filhos são para sempre - meu lado A. Minha noção clara sobre as pessoas. Sobre o real valor das coisas. Sobre a vida. Sobre o amor. Esse sim, um dínamo que me impulsiona. Que me faz crer que estou no caminho certo. Mesmo com tropeços. Ou longas esperas.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Dos


Estava lá, no livro do Zygmunt Baumann, A arte da vida :
Para Max Scheler, filosofo alemão ( 1874-1928), “ o homem é antes de ser um ens cogitans ou um ens volens ( um ser que sabe e um ser que deseja) , é um ens amans ( um ser que ama). O coração vive suas próprias regras e é surdo – ou corajosamente desobediente - às regras dos outros. Nesse sentido, o coração é semelhante à razão, também conhecida por rejeitar empréstimos de outras lógicas. O coração tem suas próprias razões. Segundo suas razões, o coração constrói o mundo como um mundo de valores. O amor ama, e amando sempre, enxerga além do que tem nas mãos e que possui. O impulso que o guia e incita pode se cansar, mas o amor não". Já para Erich Fromm - aquele mesmo, dos livros -
 " o amor é basciamente, dar, não receber".
Então...descubro isso em um livro que fala de tudo um pouco na busca da felicidade. Não, não é um livro romântico, mas descubro que até os grandes filósofos amaram. Ou amam. Porque não nós, simples mortais? E ponho na minha lista de leitura o livro de Leandro Konder, médico e filósofo brasileiro, que discorre sobre o assunto em seu livro Sobre o Amor, onde relata as experiências de autores clássicos da literatura, da filosofia e das ciências humanas com esse sentimento tão complexo ao longo do tempo e da história das idéias. De Sócrates e Platão a Drumonnd, passando por Goethe, Shakespeare, Camões, Freud, sem deixar de lado Marx (sim, até ele) , até mulheres como Simone de Beauvoir. Fora os grandes poetas, todos, que levaram a ferro e fogo suas paixões, na vida real ou só no discorrer de seus pensamentos sobre algum papel. Amaram, cada um a seu modo, seu jeito e seu tempo. Sentiram o coração disparar, nem que tenha sido ao ler seus próprios poemas. Até Clarice Lispector, com toda a sua amargura aparente, amou. Se não amou, mentiu, em tantas em tantas letras, em tantos e tantos poemas e textos. E tem , ainda, as famosas cartas de amor, tema do livro que ainda hei de ler - Cartas de amor de mulheres famosas, ou algo assim, da escritora alemã Petra Müller. De Marilyn Monroe (até recados em nota de lavanderia) , de Frida Kahlo (bem retratado no filme homonimo e no livro Cartas Apaixonadas de Frida Kahlo, de Martha Zamora. Ah, e nossos poetinhas do violão e piano, quanto amor em verso e prosa, muitos amores imortalizados por vozes mágicas, como de Elis. Do brega ao chique, todo mundo ama.
Pego-me pensando se alguém algum dia fugiu disso. Ou fugirá. De amar e ser amado. Ou de amar e não ser correspondido. Ou de achar que amava, mas descobrir que nem tanto. De achar que amava o que era na verdade ódio, seu vizinho mais próximo. Se até os "imortais" amaram - e amam - então, todos já passaram ou estão passando por esta experiência. Ùnica, diga-se de passagem...
Ah, o amor. Quando o eu e o tu vira nós. Quando nada mais tem graça sem o outro. Nem o riso e nem o choro. E digo mais: o amor parece que fica mais forte, mais romântico, muito mais amado se dito, escutado, declarado, cantado, em espanhol...

"Si te quiero es porque sos mi amor mi cómplice y todo,
y en la calle codo a codo somos mucho más que dos..."
Mario Benedetti

Credito de imagem: Bea Sempere, "una amica italiana"















segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Revisão



Já estamos no final de Novembro. Logo , logo chega Dezembro. Meu mês - e do Natal, e do final de ano, e da correria e do tamanho estresse. Das festas das empresas, das confraternizações com os colegas, das tantas e tantas comemorações. Das compras de última hora, de cumprir as promessas das primeiras horas do primeiro dia do ano. Mês de agenda cheia e de saco de paciência vazio.
Nossa, como Dezembro cansa. Aliás, o ano já chega aqui cansado. Afinal, foram longos 11 meses passados, bem ou mal - quem dera "no ponto". Foram mais de 300 dias de correria. Do tudo ou do nada. De levanta, vive e deita. Nem tem graça fazer aniversário . Ou estaria ai mesmo toda a graça?
Engraçado isso, dividir o ano em meses, os meses em dias, os dias em horas, estas em minutos e eles em segundos, e vai por ai a fora. Tudo bem divididinho, irmanamente, tudo igual para não dar briga, feito coisa de criança. Isso para o "Senhor do Tempo" porque, na prática, os dias passam diferentes. Os alegres passam rápido, os tristes atravancados, pesados. Os mais ou menos, só passam. Uns ficarão gravados - e geralmente por coisas ruins. Outros ficarão na'lma. Falo deles, os felizes. Os marcantes. Como se suas páginas fossem perfumadas. Coloridas. Sei lá: cor e cheiro de laranja, posso assim definir.
Mas nem preciso rever para constatar. Eu não tive um ano morno. Não tive o conforto de dias amenos. Estes eu deixei passar. Vivi como pude os dias gélidos, mesmo que hibernando feito urso polar. E outros, navegando, como os dias de pleno verão. Dias de tirar o barco para velejar. Dias de viajar, seja tempestade ou calmaria. De conhecer terras e mares. Novos ares. Dias de viver. Dias de enfrentar. Seja qual estação. Outono, inverno, primavera ou verão. Seja qual o lugar. Dias que fui e nem deu vontade de voltar...
Carlos Drummond de Andrade tinha razão:
" Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial....Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente".
O ano já passou e eu bem sei onde quero ficar..

























domingo, 21 de novembro de 2010

Estratégia



Sou um bicho engraçado. Escuto um assunto - seja na aula ou na esquina mais próxima. Talvez uma frase lida ou apreendida de algum filme - e minha cabeça pensante voa.  Cria textos, discute com ela mesma. Por vezes vira um pandemônio entre meus tantos eus. As tantas" Joyces " ficam de frente  umas com as outras e começam um tipo de brainstorm (um tipo de temporal de ideias, comumente usado em comunicação e publicidade), um deixar sair.
Ontem o tema que me pegou - quando ainda tentava entender os porquês de tantas pedrinhas chatas em meu caminho - foi o silêncio. Esteve comigo o dia todo, companheiro nem sempre desejado. Mas companheiro.Tenho usado dele para me entender. E me defender. Às vezes é só um leite que está ali para ser aquecido, mesmo que não queiramos. E por vezes vira, foge do bom controle. E me põe a pensar. Talvez teria sido melhor dar atenção para que ficasse no ponto certo. Ficar de olho, medir o fogo. Porque , basta um descuido, ele ferve, entorna, e ai só nos resta a chata tarefa de limpar da melhor forma. E, melhor já avisar: por mais que se limpe, o leite esteve lá, está lá, mesmo que não se veja. O fogão em questão não é - e nem nunca mais será -  mais o mesmo. O momento fica no passado e não se tem como tirar.
Meus silêncios foram três (silêncio se conta?) e cada um veio de braço dado com uma emoção. Usei do silêncio em "protesto" à minha invisibilidade diante do medo. Como se eu fosse um grande perigo. Talvez não eu, mas minha língua, reconheço, sempre pronta a falar demais. A questionar. Está ai uma lição já aprendida, mas não ainda apreendida, o que faz toda diferença. Nesse momento -  e em tantos! - , melhor calar. Dói, mas é, aprendo, o melhor caminho. Fiz de meu silêncio atenção. Usei da calma como minha arma. Abafei a fervura. Deu pra beber, em pequenos goles. Se não alimentou, pelo menos não machucou.
Usei do silêncio como protesto de mágoa diante do que não era esperado. Diante da pouca importância que me deram. Da não resposta à minha saudade. Deixei as palavras guardadas para um melhor momento. Vieram hoje, 24 horas depois. Saíram doces, jogando o silêncio no lixo. Bela lição. Fiz de minha tristeza, compreensão. Amor de mãe tem destas coisas.
E usei o silêncio como forma de "esfriar o leite". Vi o fogo sendo ativado, como sempre um tudo que se tira do nada ( quando se sabe ou se lembra de onde veio a fúria do fogo). Senti o confronto entre suas moléculas e  a parede recipiente. Senti a pressão subindo. Deixar ferver ou esfriar? Às vezes, nem dá para raciocinar. Usei do silêncio como se esperasse o tempo passar. Soprando o fogo exagerado das emoções para outro lugar. Usei da espera e do querer para deixar a "poeira baixar". Valeu a pena. Veio em forma de sorriso. Em delicado sabor que me alimentou o dia todo. Quem sabe me alimenta para toda a vida?
Disso é feita a maturidade, imagino. Receita difícil essa, que nem sempre dá certo. Maturidade é saber esperar. Não deixar se levar pelo impulso do pouco. Do agora. Pelo calor da hora, pela labareda que entorna. Da querosene no fogo ainda começando. Por vezes, é melhor abafar.
Sábia Cora Coralina. Ela bem sabia. Era "uma mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores". Talvez eu ainda não tenha achado o caminho das pedras - ou estou nele e tentando me desviar - mas por onde passo, ando tentando deixar flores. Ou pelo menos sementes. Quem sabe elas vingam e vem me perfumar as horas?






quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Revival



Entrei numa brincadeira do Facebook que me deixou encantada: trocar a foto do perfil por algum personagem de nossa infância. Pensei um pouco. Afinal, eram tantos! E, infelizmente, todos importados - ou "abrasileirados", como o Garibaldo, da Vila Sésamo.
Ok, você não lembra. Então não era criança nos anos 1970 (é , agora tem que escrever assim...). Na procura de uma "figura" feminina, dei uma de Penélope Charmosa, da Corrida Maluca, já que queria a Miss Piggy, mas essa já estava "ocupada" por uma amiga que mora em Portugal. E descobri nessa procura que a grande maioria dos personagens são masculinos - ou melhor dizer machos? E que as personagens femininas entravam em cena "apenas" para roubá-la. Poucas eram mocinhas, muitas bruxas. Dai minha escolha pela "heroína" que não descuidava da vaidade (xi, começo a ver que não fiz uma boa escolha...). Mas, como toda menina, minha identificação era com...meninas. Não patas, ou ratas, nem porquinhas, ou outras fêmeas do mundo animal. Achava a personagem realmente charmosa, com seu chapéu e seu lenço esvoaçante. A bota até o joelho dava o toque final. Ela, materializada como pessoa, deveria ser de "fechar o comércio"! E vagava pelo mundo masculino com toda facilidade pertinente. E era a única da turma, que me lembre, que não era boba ou trapaceira. Coisa rara...
Mas voltando ao assunto em questão, que infância tivemos ( desculpa para as novinhas e novinhos de plantão)! . Brincávamos na rua até tarde, talvez de pés descalços ou apenas um chinelo. Tênis só na escola, os congas - azul ou branco? Fazíamos "cozinhadinhos" com fogo mesmo, sem frescura, e ninguém morreu queimado ou intoxicado. Trepávamos nas árvores sem medo de cair (hoje nem árvores temos...). Brincávamos de faz de conta, de bandido e mocinha. Soltávamos pipa. Jogávamos amarelinha , bolita ou pião. Peteca. Descíamos morros enormes de carretilha. Ou grandes gramados sentados sobre um pedaço de papelão. Balanço? Só os improvisados, tábua e corda. Sumíamos no mundo até nossa mãe nos achar "no berro" (graças por terem inventado o celular bem depois, Senhor!) ou esperar na hora marcada. Nosso banho era rápido, a janta na hora certa e com todo mundo na mesa. Rezei muito "papai do céu" para agradecer. Pouco víamos de televisão, talvez uma novela chorosa já no colo da mãe e com os olhos mais fechados que abertos. Dormíamos de luz apagada em quartos com simples "camas e armários", para que mais? E em bando, nada de quarto separado. Era um banheiro para todo mundo. E , sim, ajudávamos na casa. Eu me lembro de sentar no chão para secar panelas...
Hoje me encanta ver as crianças do condomínio onde moro brincarem "de pegar" ou de "31". Meu filho já fez muito disso. Pena que hoje façam isso só às 10 horas da noite, e mais para dar sossego para os pais. O resto do dia devem ficar entre um entra e sai de aulas demais. Quem sabe elas já vão no salão fazer a unha. Ou caras em bocas no espelho do banheiro de algum shopping. Mais certo que estejam grudados no celular ou no videogame. A infância vai passar tão rápido que eles nem vão se dar conta...

Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6ªfeira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
(em Esconderijo do Tempo, de Mario Quintana)


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Linguagens


Gostei. Até agosto de 2011 as escolas serão obrigadas a ter aulas de música. Gosto da ideia. Como já falei aqui, foi na escola que, digamos, apurei meu gosto musical. Dá até saudade do chiado dos discos de vinil das aulas do "Tio Neri". Parece que no som do toca-discos (Hã? O que é isso, mãe?) azul do professor as músicas ficavam mais românticas. Ouvíamos de Lupicínio Rodrigues à "pimentinha" Elis. Sambas e bossa nova. Longas passagens por Tom Jobim e Vinícius, o poetinha. Toquinho. Chico e tantos outros. Geraldo Vandré eu escutava na casa de praia de uma amiga. Às vezes Gal e Bethânia, outras Caetano. Mas eu gostava mesmo era dos antigos. Gosto. Nunca deixei de. Nem vou.
Mas uma coisa só reconheci, depois de "madura" . As músicas - e os poemas - ficam muito bem na língua espanhola. Não sei dizer o porquê, apenas sinto. Uma sonoridade diferente, temperada de puro romantismo. Como se falassem, sempre, ao pé do ouvido. Como se fossem, sempre, "calientes" ( apesar de meu convivio com espanhóis não ter tido nada disso...). Devem ter algo de encantamento por nerudas e gabbos. Deve ser culpa de meus poetas de plantão. Deve ser...
Também o português das terras de Pessoa me soa bem. Acho charmoso, como se sempre cantarolasse. Acho leve, "entra" bem. Como se cada frase viesse das bocas encantadoras de um grande cantor. De um bom e bem cantado fado. Coisa que não sinto quando me vêm em italiano, língua que adoro. Na arte, parece tosca, se me permitem dizer. Ou té engraçada. Chingamento em italiano me faz rir, sem sombra de dúvida. Acho charmoso, mas...tosco. Francês parece sempre bonito, mas passa algo de distanciado. Como se usassem da língua apenas para encantar, como se não estivessem sendo verdadeiros. Deve ser influência do filme francês, onde sempre parece que falta algo de sincero. Onde os dramas são sempre para lá de confusos. Alemão, perdoem-me, mas não entra bem em meus ouvidos. Nem falado, que dirá declamado ou cantado. Deve ser algo distante, coisas da história. Algo imposto, nenhum deleite. Ah, e ainda tem as músicas indianas... são tantas as músicas e línguas que gosto...deve ser essa minha vontade de conhecer o mundo. De tê-lo, todo , dentro de mim. Ou pelo menos no ouvido. Já era um começo...
Aliás, quanta coisa tenho aprendido nessa vida, cada dia mais, cada dia uma surpresa. Dizem que esse mundo consumista tem fome de compras. Eu tenho de saberes. E não paro nunca. Encanta-me a pessoa sábia, e que passa o que sabe sem que eu perceba isso. Que me passa seu encantamento aos poucos, palavra por palavra, gesto por gesto. Amo a que me ensina através de uma música ou página marcada. A que dança comigo - ali, na rua, na calçada - e me deixa com a voz embargada. E aprendo que, para aprender é preciso coração aberto. É preciso corpo e alma. E amor, muito amor.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Minha Marilyn



Hoje é aniversário de minha mãe, e mais uma vez não vou poder abraçá-la. Está longe. Foi ter com sua irmã e outros tantos parentes dos lados de lá. Está nas terras das árvores petrificadas. Ou tomando chimarrão com alguma prima mais chegada. Talvez tenha ido festejar com outros, mudar de ares. Ou apenas sair do de sempre, bem provável.
Lembro bem dessas  visitas. Cheiro de fogão à lenha e de carne ensopada. Cama cheia de cobertas, galo a cantar na madrugada. Manhãs frias e grama molhada. A casa de bonecas, a roda d'água. As longas caminhadas. E um come aqui e come ali que fazia parte de cada entrada. De bolo de fubá a goiabada.
Do aniversário de minha mãe não esqueço nunca. Nem dia - fácil, após o 15 de novembro, feriado. Nem da idade. É só saber um pouco de matemática básica. São 30 anos a mais que eu. Não dá para esquecer, nem que se queira. O passar dos anos é implacável. O das horas, também.
Idade é uma coisa que a gente só guarda a nossa - e de vez em quando me pego refazendo as contas para ver se não estou roubando, nem para menos e nem para mais. E dos filhos, no meu caso um. E é uma coisa engraçada. Quando se tem pouca, soma-se bem. Meu filho já vai fazer 16 anos. Sabe bem quantos meses - e talvez dias - faltam para tal data. Quando se tem muita, ou nos anos de números picados, esquece-se. Ou pelo menos não se fica dias  a contar a sua chegada. São dias a menos, não dias a mais, seria essa a  lógica?  E para a mulher, há, bela roubada...
Nada. Chego a uma conclusão , para mim, engraçada. O que se quer que chegue, contamos até minutos. O dia da viagem tão sonhada. Quantos faltam para a tão esperada férias. Quantos meses de namoro ( neste quesito, quando passam para anos, a coisa fica demorada...). Quanto tempo sem ver a pessoa amada. Não é que deu até rima não forçada?
Pois é, minha mãe , minha Marilyn, faz hoje mais um aniversário e não posso abraçá-la. Nem ligar, já que perdeu o celular. Não gosto de abraços intermediados. Então mando um por aqui, bem apertado. Porque de tanta rima? Ah, quem tem uma mãe poeta como eu, já faria disso uma bela homenagem...

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Paz?

Não peguei a reportagem toda, mas pelo que entendi, um grupo de rapazes espancou um suposto homossexual no Rio de Janeiro - que foi salvo por vigilantes de edifícios vizinhos. Nem precisava pegar a  reportagem como um todo, porque as notícias me parecem sempre as mesmas, como se o tempo não tivesse passado. Ligar a televisão, hoje, não quer dizer necessariamente se atualizar. O que vejo, muitas vezes, é bem o contrário. Desatualiza-se. Como se as pessoas tivessem parado no tempo, entregue ás mesmices do passar dos dias. Tudo virou normal. O bem e o mal. E nem se dá conta disso.
E me pego pensando se a própria mídia brasileira como um todo - mais ainda a televisão que junta imagem, som  e movimento e pode mostrar o acontecimento na hora, em tempo "real", como uma grande escola de desaprendizado. E não só dos repórteres, já que a grande massa de pessoas virou um. Filma-se a cena, ao invés de tentar freiá-la. Raros são os momentos que se aprende algo que preste. E nesses raros, geralmente a lição está na crítica sobre esse ou aquele acontecimento.
Foi o que se deu hoje. A mim não faz diferença quem atacou quem. Faz diferença mais para quem viveu o momento. Mas me peguei vendo cada lado da notícia. A mãe de um dos meninos - todos, bons estudantes de boas escolas particulares, moradores de bom bairro, e como a mãe mesmo disse, bons meninos. Que juntos viraram maus.  "Eu dei amor", diz ela, como se isso bastasse. Falta base. Falta controle.
Falta pulso, bem sabemos. Sobra mimo. Mimo que paga a culpa de termos menos tempo dedicado. Tempo que valha a pena, não o do passar das horas.
 A  história conta e a psicologia explica.  A psicóloga em questão, entrevistada sobre o assunto em pauta, falou duas grandes verdades (sim, verdades, porque concordo e, portanto, denomino-as como tal). Uma a de que em grupo a coragem se multiplica. Outra de que em grupo a responsabilidade se divide. Seriam meras conjecturas matemáticas não fossem tão verdadeiras, tão óbvias. Jovens - e adultos também , e até crianças, infelizmente - transformam-se quando em grupo. Viram machos - mesmo se tratando de meninas. Bando. Animais  na luta pelo "nada". Ou pelo tudo que imaginam ser . Por medo de não ser mais um, vergonha  de não serem iguais ou puro encorajamento, não sei. Viram algo sobre o qual nem sempre eles mesmos tem controle. Vão na onda. No embalo. Ou sabe lá como se diz isso hoje. É o bulling ganhando as ruas, e não só as de periferia. A violência não faz distinção de classe. Nunca fez.
Mais do que ver esse tipo de notícia, que me preocupa, gosto de entender. Entendendo, faço meus ensinamentos ganharem corpo. Chamo meu filho, ali, na hora, e  "puxo a orelha" , aproveitando a  ocasião. Porque ser mãe é isso. É até entender se a coisa acontecer. Mas não pode ser acusada de não ter alertado.

PS.: em tempo me avisam que o fato se deu em São Paulo, em plena na Avenida Paulista. O caso do Rio foi bem outro, possivelmente provocado por policiais. E quando falo de bulling, na verdade estou generalizando toda e qualquer violência  - truculência - desse gênero. De mostrar o poder. Até coloquei um ponto de interrogação no título. Paz, aonde?

domingo, 14 de novembro de 2010

Menos um



Às vezes, para mim, final de semana cansa mais que o ínicio dela. A casa fica "cheia", movimentada, um entra e sai, como se todos tivessem "pulga na bunda". E eu que fico com elas atrás das orelhas.  Três  - pessoas, não pulgas - que parecem que viram seis. Ou mais. E acumulam-se tarefas - para as mulheres, melhor esclarecer. A de mãe, que se junta com a cozinheira, que vira a arrumadeira para que a casa continue habitável. E, claro lava os pratos ( e talheres e panelas e coisa e tal). Acho que pensam que as louças são auto limpantes. Bom se fossem. Não teria tanta alergia. Nem faria  tanto barulho. Nem desperdiçava ,eu tempo e a torneira, água. Casa ecológica e sustentável: eu me sustentaria, fácil, fácil, de bom humor. Agora sei de onde vem a raiva de cozinha da minha mãe. Imagine. Cinco filhos. E eu reclamando com um só. Cinco pratos, cinco copos, cinco bocas a alimentar. O meu nem parou em casa. Bom se tivesse avisado com antecedência. Nem teria feito compras, nem ao menos pensado no cardápio. Nem passaria pela minha cabeça tal chatice - o que já seria uma espécie de férias. Mas bastou parar  para não parar mais de pedir coisas. Principalmente atenção. E a mal acostumada massagem nos pés. À nós, resta ser mãe quando se lembram. Ou precisam. E nem sempre a nossa cabeça está disponível.
Nem sempre  a cabeça está no lugar.
Engraçado essas coisas. Quando se tem mais tempo parece que não dá tempo de nada. Ou deve ser porque imendei uma tarefa na outra, sem nem dar tempo do dia respirar. Sem nem dar tempo para mim. Com mais tempo livre, pensei mais em ler para me preparar para meu curso. O que não combinou  muito com o sol lindo lá de fora. Mas, enfim, a leitura era necessária. E foi providencial. Preencheu meus vazios. Ou as duas coisas. Ou porque sei bem o que quero para mim. Quando a gente está despedaçada, fica difícil catar os cacos e fazer deles coisa boa. Não sou muito boa em mosaicos.
Chegou a noite, para meu alívio. A casa quieta. Só o barulho das teclas e os suspiros do cão. Lembro que amanhã tem mais. É feriado. Dia de descanso. Mas para quem? Logo, logo o dia me chama para fazer o café, faça chuva ou faça sol.
Passou mais um dia e  nem lembrei de viver...Devia ter ficado um tempo vendo o tempo passar...


Se me fosse dado um dia, outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
(Tempo, Mario Quintana)

sábado, 13 de novembro de 2010

Caseira



Como era bom o tempo que não se ouvia a palavra dieta. Nem conselhos para uma boa alimentação. Nem se sabia as palavras diet e ligth. Podíamos comer pão francês pela manhã, e acompanhado de uma generosa porção de manteiga feita em casa. Ou esperar que as mães - ou avós - fizessem belo pão de casa ( dos quais eu preferia a "bundinha", mania que tenho até hoje...). Comer não era pecado. Nem vinha acompanhado de culpa. Nem preocupante. Não se tinha entraves. Nem senão.
Tenho muitas - e boas - lembranças disso. Meus irmãos iam para a nossa casa e levavam amigos que eram glutões. Para satisfazê-los, nossa casa sempre tinha pão de casa (que minha mãe assava usando com fôrmas as latas usadas dos óleos de cozinha. Hoje faz na panela...), e baldes de doce (não, você não leu errado...). Para acompanhar, com litros de leite fervido (caixinha? onde?) e café passado no coador de pano, mistura boa servida em canecas também enormes. Tudo era muito. Muito simples e muita quantidade. E divertido. O "proibido", na época, era a carne. Mas pelo preço e não pelo colesterol. E como eu não era fã, falta não me fazia. Roubava as batatas.
Falando em batatas, adoro elas ainda mornas, comidas até com cascas. Bastava um salzinho. Essa mania peguei na casa de uma amiga. Saímos da escola e eu, vez por outra, passava por lá, logo do lado. Sempre roubávamos algo do preparo do almoço. As batatas era as preferidas. Ou cenouras. O que importava era o ato, nem tanto o gosto. Como tempero, as risadas, os olhares de cumplicidade. Coisa de criança, coisa boa.
Cresci (é...isso acontece, mesmo contra a nossa vontade). Comecei a cozinhar cedo. Minha aula começava na hora do almoço ( acho que já ouvi isso em algum lugar...hoje se chama de turno intermediário). E a escola era longe. Tinha lá meus sete anos. Talvez seis. Fazia meu almoço e ia. De sobremesa, bela caminhada. Com o tempo, tinha que fazer a mais para agradar meu pai. Ou seria ele que me agradava? Não fique com pena: eu gostava.
Já mocinha, fazia o lanche de meu irmão, três anos mais velho. As vitaminas bem preparadas. Coisa de "mãe". E a janta de meu pai, que adorava - adora? - minha criatividade com o nada.Coisas de filha. Já na faculdade, alimentei meu irmão com paneladas de cozidos e bolinhos de arroz.
Aprendi muito com minha mãe, mas só de olhar. Quem cozinha não gosta de ajuda. Hoje bem sei. Com minha avó aprendi a não sujar. Não, não se iluda. Minha vó era uma deusa no fogão. E um diabo no resto. Quando ela saia de lá, dava vontade de chorar. E olha que o piso da cozinha era branco...
Comida sempre me traz boas recordações. As sopas de verduras e milho verde ( porque se chama de verde se é amarelo?) no inverno, as saladas mistas no verão. O almoço invariável de domingo, com frango, macarrão e salada de batata ( ah, e farofa. Não sei comer sem farofa). O café com leite em pó nas tardes de inverno na praia, com bolinho de chuva - mesmo que brilhasse o sol. E as famigeradas bolachas com gosto de ontem. Ou de lata enferrujada. Delas, só gostava de lamber o recheio, ou o açúcar de volta. E de roubar Leite Ninho de colherada.
Acabo de descobrir porque não emagreço. Para mim, comida é muleta. Sinto-me amparada.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Novidade?







Falando em bulling, palavra que virou moda (será porque é "estrangeira"?), esse tipo de preconceito e maldade já existe faz tempo. Bulling , descobri, vem de bulli, ou "valentão". O famoso prevalecido. O que usa de sua força - física ou popular - para maltratar outros. Para menosprezar o outro, torná-lo menor. Ou um nada. Isso deve ter fundo de maus tratos em casa. Pode ser um mero repasse. Ou vem de se achar um m.... Quem sabe de total falta de controle dos pais. Quem sabe desinteresse  por parte deles. Incentivo até, talvez. A literatura deve ter livros e mais livros sobre isso. Nem vou perder o meu tempo tentando entender e muito menos explicar.
A coisa é antiga. Vem de longe. Eu sofri muito com esse tipo de atitude nos tempos de escola. Desde cedo. E, triste constatação, começou quando entrei numa escola particular por ter merecido uma bolsa de estudos (depois de umas férias todinhas estudando, diga-se de passagem). E por meninas, as ditas "colegas de sala". Colegas, pois sim...Um grupo terrível de três meninas " da alta sociedade" que destratavam à muitas como eu sem motivo aparente. Ou exatamente por isso. Não nos parecíamos com elas. Pelo menos , imagino, era o que pensavam. Ou com duas: a outra era saco de pancada. A  conhecida "maria vai com as outras". E, aviso: a mágoa fica. A coisa dói. Deixa-nos impotente. Posso até dizer que traumas ficam. E, pensando bem, para toda a vida.
Eu tinha meus recursos. Tinha uma outra ' leva' de meninas que gostava de mim. Fora as freiras do colégio, que me tratavam bem por ser a "poetiza" da sala. Cuidavam de mim como se eu fosse um tipo de 'mascote'. E as diferenças não paravam por ai. As amigas protetoras em questão eram mais evoluídas. Como "pessoas" ( aulas de inglês, dança, violão, tênis - essas tais que eu assistia e fazia bonito nas quadras...). E como "mulheres". Eu ainda brincava de boneca (fiz isso até os 15 anos...), enquanto as outras já faziam bebês . Sentiram o drama?
Pois é. Palavras viram moda. Claro que não se pode comparar - acho - as vivências de hoje com as de outrora. As minhas brigas eram "de boca". Hoje são de corpo. Fico horrorizada ao ver meninas se atracando feito moleques de rua nos pátios das escolas. Ou meninas sendo agredidas por serem "diferentes". A exclusão a céu aberto e conta escancarada. A escola mostra sua impotência frente à impunidade das leis e à falta de controle que vem de casa. Pois é. Bulling é coisa de sempre. Foi-se deixando passar o tempo. Nunca foi resolvido e só tende a piorar.  
E parece que é justo na escola que a violência mais cresce. Fico indignada - envergonhada até -  vendo professores sendo destratados. Agredidos, para se falar bem a verdade. Isso é falta de educação que vem de berço, sinto dizer. É falta de base. E é coisa nova. Não é mais do rico ridicularizando o pobre. É briga de iguais. Combina com essa geração de puro consumo. E vem de toda parte. Recebi uma pesquisa que mostra que as meninas de Classe C (quem é quem?) gastam 72% de seu orçamento em moda. Essa "moda" que vêem nas novelas e revistas de toda ordem. Nas imagens que buscam na Internet. Na "patricinha" da vizinha. No que vêem nas vitrines dos shoppings. Talvez o bulling seja uma forma de se auto-afirmar. De se sentir alguém. Inserido em algo.  Nem que seja algo podre.
Bons tempos em que se levava maçã...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Doideira


Estava lá, no jornal da semana:

"O ministro da Educação, Fernando Haddad, rejeitou o veto do Conselho Nacional de Educação (CNE), que determinou a proibição do livro ‘Caçadas de Pedrinho’, de Monteiro Lobato, em todo o País. O MEC vai devolver o parecer ao órgão, pedindo que a decisão de banir a obra em escolas públicas de Ensino Fundamental seja revista. Em decisão publicada na semana passada no Diário Oficial da União, o Conselho alegou que a obra tem conteúdo racista. Em um dos trechos, Tia Nastácia é comparada a “uma macaca”. Para que um parecer do colegiado passe a valer, precisa ser homologado pelo MEC. "

Não dá para crer. Nós, criados, bem ou mal, com tantas histórias do mestre, tantos contos e tantas aventuras, achamos piada. Não dá para levar a sério. Não tem como. Com tanto "lixo" sendo despejado nos ouvidos e olhos de nossas crianças e adolescentes,
que mal há na linguagem de Lobato?
Para quem não lembra, Caçadas de Pedrinho é um livro infantil escrito por Monteiro Lobato , publicado em 1933. Vejam bem, 1933. Conta as peripécias do menino às voltas com a caça de uma onça que ronda o Sitio do Picapau Amarelo, onde ele mora com a meiga Narizinho, a travessa Emilia ( é, a bonequinha de pano que tanto sonhamos), sua avó Dona Benta e Tia Anastácia, que cuida da "lida" da casa e se mostra, muitas vezes, uma ótima conselheira.
Anastácia representava, para mim, algo bem mais que um personagem. Tinha um pouco de saberes da terra e muito de ingenuidade. Sua figura lembrava as amas, as queridas babás, aquelas que sempre sonhamos ter: colo largoe quente, fala mansa, muita canção de ninar. A meu ver, representa bem o povo brasileiro, com seus mitos e verdades. Se o mestre faltou com o devido respeito, representa um sentido, um viver que o país teve e tem. Uma "falta de respeito" que se explica na linguagem de contador de histórias. Uma falta também ingênua, pensaria eu, com meu coração de menina. Uma força de expressão. Não mais que isso. Não chega nem aos pés de tanto preconceito ainda vivido na pele hoje em dia. E de toda ordem.
Fico imaginando quais seriam os próximos passos. Proibir os pais de dizer (ameaçar?) para o nenê dormir "senão a Cuca vem pegar". Ou de chamar o boi da Cara preta para pegar a criança "que tem medo de careta". Proibir as crianças de "atirar o pau no gato". Ou de dizerem que "quem não cantar agora vai cantar de madrugada". De ameaçar que a barca vai virar.Ouvimos muito, cantamos mais um monte de vezes e estamos todos inteiros. Ou se não inteiros, a culpa, com certeza, não era do que líamos ou dizíamos. Nem do que aprontávamos. E não fomos presos no quartel por não marchar direito, apesar das constantes "ameaças".  Nem ficamos traumatizados por sermos "cabeça de papel". E olha que o quartel pegou fogo...
As tragédias eram tantas... Da Terezinha de Jesus que deu uma queda e foi ao chão. Do anel que era de vidro e se quebrou. Do Samba Lelê sambando com a cabeça quebrada.Ou das intermináveis brigas entre o Cravo e a Rosa. Dava pena da barata que dizia ter de tudo, de vestido de filó a sapato de veludo. E ríamos, porque ela não tinha nada. Trágicas as noites que não se dormiu esperando a volta do Galinho branco e amarelo ( e olha que ele correu o mundo!). Ou porque o sapo estava com frio.
E se formos lembrar das histórias de Walt Disney, são tantos os sofredores, tantas as "tias Anastácias"! A Branca de Neve fugindo da bruxa, Cinderela sendo usada em trabalho escravo E os porquinhos que não tinham sossego, o elefantinho Dumbo que sofria com tantas gozações de todas ordem e era maltratado no circo, o Bambi sendo caçado por ai. Sem levar em conta as tantas vezes que gargalhamos das trapalhadas do Pateta e da "rabugice" do Donald. E da "pãodurice" do tio Patinhas. Lições, todas, com caminhos não tão bons, mas com final feliz. E ninguém se importou com eles.
E nem com a Barata:


A Barata diz que tem

A Barata diz que tem sete saias de filó
É mentira da barata, ela tem é uma só
Ah ra ra, iá ro ró, ela tem é uma só !

A Barata diz que tem um sapato de veludo
É mentira da barata, o pé dela é peludo
Ah ra ra, Iu ru ru, o pé dela é peludo !

A Barata diz que tem uma cama de marfim
É mentira da barata, ela tem é de capim
Ah ra ra, rim rim rim, ela tem é de capim

A Barata diz que tem um anel de formatura
É mentira da barata, ela tem é casca dura
Ah ra ra , iu ru ru, ela tem é casca dura

A Barata diz que tem o cabelo cacheado
É mentira da barata, ela tem coco raspado
Ah ra ra, ia ro ró, ela tem coco raspado

O tal Conselho beijou o  príncipe esperando que virasse sapo. Eles que cuidem do bulling. Esse, sim, pode trazer consequências drásticas!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Reclamação






Ontem fez calor, muito calor, destes de mais de 37oC à sombra. E eu já desenhava reclamações sobre o Verão, coitado, que nem deu as caras ainda.  Um sol de anil, sem nem uma nuvem. Mas bastou o chegar da noite e o tempo emburrou. Aliás, virou bicho traiçoeiro. Deu um temporal daqueles de derrubar árvores. E como me dói vê-las, ali, estendidas no chão.
Hoje o tempo é outro. Amanheceu chovendo fraquinho, o que não alterou muito com o passar das horas. Despencou poderia dizer. Ou como falo em tom de zombaria: a temperatura caiu violentamente...quem bom que não encima de mim!
Ficaram em algum lugar uns bons 20oC. Não chegaram até aqui. Devem estar tomando um bom café com bolo em alguma casa bem servida pelo caminho, diria. Aliás, é essa  a minha vontade, não fosse essa minha briga -  diga-se de passagem, chata , nada convencedora e ameaçadora da paz -  com a balança. Um café com leite de queimar a goela. E um bom pedaço de bolo  - daqueles, de vó, como gosto, simples - ,  quem sabe de fubá ou de laranja? Quem sabe uma natinha para molhar?
Protesto. Acho isso uma covardia. Teste, convenço-me. Bem no dia que não dá para caminhar e gastar, nem que seja em teoria, as calorias a mais deliciosamente devoradas, lá vem a chuva para me impedir de tal. Nem dá para pensar que "gastei, portanto posso". E nem dá para negociar com o corpo e dizer que amanhã eu caminho. Que amanhã eu como menos. Que amanhã eu faço. Essa conta não dá para marcar na caderneta. Essa conta pede dinheiro vivo, pagamento na hora - ou nada feito, não se leva a paz de espírito. Uma matemática lógica para coisas que não tem lógica nenhuma, como satisfazer os desejos - inclusive os reprimidos. Uma subtração menor, quase infâme, de coisas que se avolumam como que em progressão aritmética.
Injusto. Está ai uma boa reivindicação para a próxima encarnação. Ou Deus muda essa matemática, ou muda o que é moda ou sinônimo de saúde. Ou tira as calorias das coisas boas. Ou me deixa menos encanada. Ou, quem sabe , me manda seca feito vara de pau. Ou magra de ruim. Não era nada mal...
Servidos?

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Sortudas



Para um dos tantos trabalhos da minha pós, fiz uma pesquisa relâmpago com mulheres casadas, acima de 30 anos, sobre o uso - ou não - de motéis ( e , claro, sexo). E os porquês, entre outras perguntas. Há as que amam , pela praticidade e pelo clima, a grande maioria delas. E há as que odeiam, acham o lugar promíscuo, voltado para safadezas de toda ordem. Uma grande maioria gostaria de usar mais. De ousar mais. Gostam do clima, do diferente, do inesperado, feito os tempos de namorados.
Estão satisfeitas as que fazem amor mais de uma vez por semana, mesmo que seja no quarto de casa, sempre o mesmo,  tanto faz. Curiosamente, são as casadas a mais tempo. Talvez porque não tenham mais filhos a chamar ou entrar porta a dentro. Ou porque estão curtindo uma vida mais estável. Quem sabe,enfim, descobriram e se entregaram aos segredos do estar de bem com a vida. O valor da intimidade que um bom relacionamento traz. Conheço umas que não dormem bem quando o marido não está. Ou sem que uma parte de seus corpo não toque a dele. E é desses detalhes, mínimos, que se transforma o sexo em amor.
E o que era para ser mero material de trabalho, virou um belo tema de discussão. E de uma enorme compreensão sobre o tema casamento. Não pode estar desvinculado de sexo. Porque sexo   - pelo menos para nós, mulheres - não é só cama e xau. Sexo começa no bom dia bem dado, um telefonema no meio da tarde para ver como andam as coisas ou se precisa algo para o jantar. Um convite fora de  hora. Um "sequestro" para uma noitada.  Ou uma pipoca no cinema, tanto faz.  E se vem mais de uma vez por semana, uau, sortudas somos. Fica aquele clima de namoro no ar. Aquela troca de olhares que ninguém nota - e se notar, gosta. Dá chão para os filhos quando compreendem isso, quando vêem pais se dando bem. Dá coragem para que queiram isso para a  vida deles também.
Amizade, interesse, cumplicidade. Carinho. Companheirismo. Um esperar ansioso da chegada do outro. Um prato feito com carinho à espera do amado. O gargalhar espontâneo sem grande motivo. O beijo bem dado ao abrir da porta. Isso é sexo em sua melhor forma. Mas claro que não pode ser só isso. Tem um dito popular que diz que se deve casar com quem se gosta de conversar. Porque um dia o sexo não será mais o mesmo, todos sabemos. Mas se houver brilho nos olhos, se houver o olhar interessado, ah, de uma conversa para um bom e demorado chamego é um já!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Sobre livros

 


Ontem fui conhecer a famosa feira do livro de Porto Alegre. Uma dama, enorme , em sua já 56a. edição. Nota-se sua maturidade. Achei estandes de todo tipo - de editoras, de lojas, de instituições, de briques, de lojas especializadas. Livros novos, novíssimos  (sendo lançados na feira) , usados, brasileiros e importados. Para todos os gostos e bolsos. Um interminável emaranhado de setores, enormes corredores, cada um com seu infinito número de bancas, e cada banca com número expressivo - quantitativamente  e qualitativamente falando - de livros. Grandes, pequenos, finos, grossos, sérios, risonhos. De mortais e imortais. Poesias, contos, romances, estudos, português, matemática, design, arquitetura. Física. História, geografia. Corpo. Alma. Espírito. Todos os campos e todos os temas. Todos os gêneros. Um mundo. Um supermundo. Um paraíso, onde nem contava o calor, pois era menor que o das pessoas a nos atender. Ou dos maravilhosos Quintana e Andrade (*) que nos recebem em uma das entradas para uma conversa de banco.
A feira pega boa parte do centro que chamo de histórico da cidade. Da praça ao rio. A nos contemplar - ou nós a elas - belas arquiteturas de todas as épocas. 
E gente de toda a ordem, muita. A cultura não faz distinção. Adultos, crianças, mulheres e homens , pobres e ricos, de um país que, dizem, não lê. O que farão, então, com os tantos volumes carregados nas sacolas? Que se folheie, apenas, então. Um livro pede isso. Para isso foi feito. Para ser aberto.  Tocado. Folheado, nem que de forma aleatória, nem de forma diferente do que foi idealizado. Porque o livro que sai da mão do autor é um. E o que entra na cabeça do leitor é outro. Porque cada um vê o mundo do seu jeito. Cada um faz do livro seu. E ponto.
E isso vi num programa de televisão. Destes, que não se dá muito crédito ao canal. Ledo engano. Falavam - poetas, escritores, artistas,atores -  que o melhor amigo de uma obra - seja ela escrita, falada, pintada ou encenada - é o prazo. Sem prazo, não tem obra, diziam. Porque para quem faz, a arte é sempre inacabada. Nunca está perfeita. Nunca completa. Não fecha. Sempre sobra ou falta algo. Para quem a esculpe, nunca está pronta. Porque as palavras são assim, mesmo, pensei. Dançam em nossa mente feito folhas ao vento. Catamos uma, mas sempre achamos que a outra, logo à frente, está melhor representando a beleza do total. Por isso um escritor nunca devia reler seu texto. Se ler, a cada vez que  o fizer, é como refizesse tudo, mesmo que só em mente. Porque para ele, a perfeição não existe. É como a felicidade de Baumann (**). A perfeição deve estar no caminho, não no fim. No sendo feito, não no acabado. Seria a obra o percurso?
Fiquei pensando na verdade disso. Longe de mim me comparar com os mestres, mas não  gosto de reler meus textos. Muito menos que o leiam para mim. Incomoda. Como se ficassem ali meus defeitos, minha fraqueza de carne. Ou quando o faço, refaço-os tão somente em minha cabeça. Faço deles novo. Outro. Ou lixo. Como se fugissem de meu alcance. Como  se não mais meus. Nem de ninguém. Orfãos de pai e mãe, destes que passam de lar em lar, até que alguém se afeiçoe - ou sinta pena - e os traga a morar em seu coração. 
(*) Uma estátua dos dois - Quintana sentado em um banco e Andrade de pé com um livro nas mãos - recebe as pessoas na praça em reforma. 
(**) A arte da Vida, de Zygmunt Bauman.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Bem pensado


Ainda falando de felicidade - e dessa procura desenfreada por ela - não se sabe mais procurar. Tudo é rápido, tudo para ontem. Não se dedica um só minuto do dia para ver onde ela está. Cultivá-la, como se cultivam orquídeas, que pedem mais dedicação do que nos oferecem flores. Mas ninguém há de desmentir a beleza delas. O mundo tem pressa e menos flores.
E os relacionamentos entram na onda. Precisa-se urgente ser feliz. Nem que seja uma felicidade momentânea, fugaz. Não se tenta mais, não se esforça, porque um vai e outro volta. Não acho que seja amor. Ou se é, é um amor ficante. Ultra-rápido. Lavajato. Dura pouco. Amor de microondas, com prazo para esfriar. Ou de fogo alto, que queima logo, se a gente não ficar de olho. Louco fazer comparação com comida, mas o que se esperar de uma faminta?
Quem sabe cozinhar sabe do que eu falo. Da boa comida feita sem pressa, ali, a dois. Do caldo que se põe para ferver e fica de vigília, ali, namorando, caldo e pessoa. De um picando e outro abrindo o vidro. Um depurando, o outro pondo a mesa. Os dois sentando e comendo, enquanto se enamoram mais e mais -mesmo quando se acha isso impossível. É desse tipo de amor que falo. É esse tipo de amor que quero. Um amor que não cabe no livro da hora. Não cabe no filme da moda. Não se vê em vitrine. Porque esse amor tem que ser trabalhado. Esculpido. Detalhado. Arejado. Decantado feito um bom vinho.
Isso eu tenho aprendido.
No amor- aquele de verdade e não o de novela, nem do romance - a não ser que seja à la Gabriel Garcia Marquez, esperado em silêncio por anos, melhor explicar - não há de se ter pressa. Se é um plano para todo o sempre, melhor tomar cuidado. Precisa planejar, feito longa viagem. Pensar na mala antes de enchê-la de bobagens. Levar apenas o necessário, o imprescindível. Precisa querer. Precisa dedicação. Desprendimento. Abertura. Despojamento do que eu sou em prol do nós. Do que eu quero, se for um querer solitário. Nada há de solitário no amor maior. Nem o uso do banheiro (pode rir, mas é nesse momento, crucial, que se sente o tamanho da intimidade, não se enganem!). Tudo se reparte, até o que não se quer. Porque sabe que o que é do outro é seu também. E não estou falando só do pote de sorvete. Ou da cama. Porque amor que é amor, gruda, sobra cama. Amor que é amor, dá mais do que recebe. Amor que é amor ri das risadas do outro sem nem entender. E chora com o choro do outro sem nem saber o real motivo. E tenta de todas as maneiras fazê-lo feliz porque só assim será. E isso não está nos livros, nem nos famigerados ditos de auto-ajuda. Porque amor vivido é outra coisa. É romance escrito a dois, página por página. E ponto final. Final feliz, se assim se quiser.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

De cão!




Tive uma noite de cão. E ai fico pensando de onde saiu esse termo, já que olho para meu cão e vejo como ele dorme gostoso. Como relaxa. Como desliga do mundo. Até os de rua dormem bem,
encostados uns nos outros, ou nos donos.
E pela manhã, pensando nos porquês, um pensamento puxando outro, e mais outro, virando um montão. Como se eu puxasse um fio, ali, pedido na praia. E viesse com ele outros tantos, e  tantos outros, que mais pareceriam, ao olhar  de longe,  uma enorme rede de pesca. Porque rede de pesca? Trama difícil de desatar, ainda mais se pensarmos que é um fio só. Serve para algo lá no mar, mas em terra pouco - ou de nada  - vale. Não se sabe de onde vêm, porque vêm, e muito menos o que fazer com esse lixo nada ecológico, que pode levar mais de cem anos para se dissolver. Que machuca. Que segura nossos movimentos. Espero que as minhas preocupações - ou apenas pensamentos -  não levem tanto tempo para se dissolver. Para desatar os nós. Para virarem pó. Ou arte.
Deve ser o espírito de final de ano se apoderando de mim. Mais um ano passando rápido e  é complicado ver que sobram sonhos quando faltam dias no calendário. E a ansiedade de um novo ano - nada novo, diga-se de passagem, que é sempre o mesmo, mas que se pensarmos assim, desesperançosos, o que será de nós? E porque, em sabendo disso, deixamo-nos levar por essas picardias? Porque entramos no rítmo alucinante do ter que? Porque entramos na onda - quase um tsunami - do mundo imposto?
Meus pensamentos noturnos, nada companheiros, eram pequenos perto do que espero para mim. Nada de sério. Apenas uma listagem de tarefas  - eu e minhas listas!- a serem feitas até lá. Providências a serem tomadas antes que o sol do dia primeiro de 2011 desponte no horizonte de minha vida. E o tão esperado momento de isolar-me. Preciso disso. Estou necessitada de uma parada estratégica. Um afastar-me para ver melhor. Como que planejando como sairei da correnteza em que me encontro, que está me levando para todo lugar menos onde quero estar.
A lista era pequena. Os "problemas" solúveis  ( tá...só não há solução para a morte, xô!). Hoje me parecem marolas (...já ouvi isso em algum lugar...) . E nada como uma boa noite de sono para me refazer e me animar. Afinal, as festa estão ai, os presentes, as férias...ái!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Vôo


Está lá no primeiro capitulo do livro do Bauman, A Arte da Vida, que estou relendo:

"Felicidade é tal qual o horizonte, que recua quando se tenta chegar perto dele".

Essa frase , ao mesmo tempo que me deu medo, deu-me coragem. Acredito, mesmo, que o que vem fácil, vai fácil. Como se não déssemos importância ao que não nos foi caro, material e sentimentalmente falando. Não damos bola ao que não nos custou nada, ou quase nada. Desfazemo-nos, fácil, da modinha barata de verão. Mas nos afeiçoamos ao que nada nos custou, mas que foi feito por alguém, ou por nós mesmos. Ou que nos lembra um momento, uma pessoa. Tenho até hoje um pano simples, destes, de secar a louça, mas que traz as mãos de meu filho marcadas à tinta. Ou quadrinhos que pintou com sua avó. Ou mesmo peças que fiz em meus nem tão pouco momentos voltados a algum tipo de arte. E tenho até hoje um diário, bem guardado, não pelo conteúdo, as "bobiças" da adolescência, mas pelo tempo que tive em convencer minha mãe a me dar um. Guarda-se o que se fez ou ganhou com carinho, ou que se ganhou
de quem se tem apreço.
Afasto-me. Amplio o quadro e vejo que o assunto vai longe. Lembro de meus pais fazendo planos a longo prazo, coisas que não fazemos mais. Sonhando alto, coisa que não temos mais coragem. Ainda sonhamos, temos vaga ideia do que queremos, pois disso se vive, de sonhos. Mas não planejamos mais nada. E não ensinamos isso a ninguém. Nossas crianças chegam ao tempo do vestibular crianças. E eu , na idade deles, bem sabia o que queria fazer. Opção única, mesmo que não para a minha vida toda. Minha mãe foi mais astuta: traçou planos de vôo para levá-la ao campo de conforto em que se encontra agora. Disso não teve medo. Fez faculdade depois dos 40, viajou por cinco anos para dar aula numa escola vizinha. Corajosa. Mas levou anos para sair de uma relação não feliz. Deixou-se levar. Medo?
Eu não fiz planos de vôo, e hoje sinto falta. Fiz viagens cansativas e infelizes. Fiz escalas que não me levaram a nada. E outras que dei a importância que não me deram. Nunca fui de me planejar. Nunca fiz carta de vôo. Deixei-me levar ao sabor do vento e fui administrando da melhor forma. Fui ao ápice e ao fundo do poço. E já passei muitos anos sentada no aeroporto, só sonhando, esperando minha vez de embarcar.
Mas, louca, admito, gostei do vôo até agora. Talvez porque o que eu gosto é de voar , assim, sem destino. Correndo riscos. Nômade. Irriquieta. Vencedora de tempestades. Até que meu porto final me aceite de vez.
Se me permite o grande pensador, volto ao pensamento que felicidade é o caminho. Passo a passo em busca de ser feliz. Dia-a-dia. Caindo e levantando, chorando e rindo.
 O que não posso esquecer é que depois da tempestade vem um lindo dia de sol. E meu vôo, último, será magnífico. O horizonte que me espera me promete um mundo!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Vida


Hoje é dia dos mortos. Ou Finados, para ser mais polida. Minha mente voltou no tempo. Era dia de uma tristeza democrática. Dos que choravam seus mortos e dos que nem tinham mortos a chorar. Até dos que nem sabiam do que se tratava. A aura de tristeza era quase obrigatória. Uma dor generalizada, mesmo que não coubesse. Mesmo que não se entendesse. Era pequena e não entendia o porque do fazer silêncio. Nem da razão do rádio tocando marchas fúnebres um dia todo. Um clima de tristeza imensa, invasiva, penetrante. Minha visão de morte era outra. De medo ou de tanto faz.Lembro de brincar em volta de túmulos enquanto minha mãe e minha tia lavavam o túmulo de seus enterrados. E mesmo quando a morte chegou perto e fez da alma de minha mãe morada, não me fiz triste. Deve ser porque não mora em mim. Ou porque meu espírito de criança é mais forte que eu. Faz da morte coisa bonita. E resolvida. Foi. Que descanse em paz. Dói mais em quem fica.
No México, é festa. As viúvas levam para os túmulos de seus amados suas comidas prediletas, sua música preferida. Banham-se e vestem-se como se fosse dia de baile. Passam a noite de vigília. Dançam ao som das lembranças de dias bem vividos. As crianças ganham doces, as caveiras ganham vida, as ruas, alegria. O jeito de chorar os mortos tem mil vidas. Feito gatos. Seriam sete? Ou eternos?
E eu acho graça até das histórias contadas. Do amor que nasceu nesse dia e foi registrado em outro. A esperança no dia do contrário. Alegria em dia de tristeza. Uma vela para o santo outra para o espírito. A mãe de branco, a vó de preto. O choro da vida em meio ao choro da morte. Festejo e clausura. Superstição ou proteção? Como poderia uma criança ser feliz nascida nessa data? Certa estava a mãe. Fazer festa no dia de dor de nada valia. Uma vida inteira de explicações e ressalvas. Era pecado, diria a vizinha ou a tia beata. E assim se fez. O nascido de hoje escrito no livro do dia de ontem. A prova escrita para toda uma vida contra os boatos fugidos da sala. E fez do amor uma pessoal especial. E fez dele único e coisa e tal. E faz dele um amado, por mais que tente viver seus dias de luto.
Hoje é dia dos mortos. A vida segue. E eu comemoro estar viva. Deve ser o amor pulsando dentro de mim. Apoderou-se, para nunca mais sair. Um ser eterno.
 Que me proteja a Mãe Oxum!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Missanga



Tem dias que a gente acorda , como dizem por ai, de pá virada. De pé esquerdo. Eu, normalmente, levanto com os dois. Coloco-os, juntos, no solo. Como que para firmar meu dia deste a saída da casa.
Mas hoje acho que levantei com o pé trocado. Aliás, acho que estava, ontem, com a coisa toda trocada. Truncada. Dia vivido, mas não como queria. Como se o corpo estivesse deslocado na mente, e a alma tivesse tido um dia sem sentido. No fim das horas, pernas para cima, tamanho peso nelas. Livro de bom gosto, e até ele me lembrou do assunto, único, em pauta. Até a noite veio pesada, cheia de sonhos malucos. Deve ter sido a má companhia da noite anterior. Um pensamento chato, pesado, de impotência. O velho e nada bom pensamento que vem me acompanhando feito coceira, daquelas difíceis de coçar: o de não poder estar onde queria estar. E olha que tive um dia válido, com o filho para cá e para lá. Mas não foi completo. Não resolveu a falta. Como se apenas tivesse passado água fresca na ferida.  A água fatalmente seca e ela volta a incomodar, se fazer presente.
E hoje veio à tona. E como sempre sinto, a casa veio a baixo. Como se eu fosse a corda que amarra tudo. Como se eu fosse o prumo da obra. A comandante de todos. Não sou, aviso. Nem quero.
Deixem-fora disso!
Assim é a vida de mãe, título que me veio sem nem chamar. E de dona de casa (este preferia que nem existisse no meu vocabulário). A de mãe, vem, cresce mais e mais e a gente se espreme, aceita, resolve, dá conta, de um jeito e de outro. E, cá entre nós -  e que nosso filhos não nos ouçam - reza-se para se estar certa. Reza-se para ter feito - e estar fazendo - a coisa certa. Pede-se para a 'nossa senhora mãe protetora de todas as mães" que não nos arrependamos da tarefa árdua e nem sempre feita com vontade. Nem sempre feita com certeza - aliás, quase nunca. Nem sempre aceita de bom grado. Ser mãe é algo intuitivo. Jogo eterno de erro e  acerto. E espera-se - as mais verdadeiras hão de concordar - para sentir-se recompensada. Pensamento nada altruísta eu sei. E nem sou. Nem pretendo. E esse emprego é dureza: 24 horas de dedicação, sete dias por semana, anos a fio.  E nada fácil. Dá-se muito, sem se esperar nada em troca. E muitos se vão sem nem olhar para trás. Ou viram as costas ao menor deslize materno. Espero que não seja esse o meu fim.
A tarefa de dona de casa, então, nem me fale. Preferia eu mesma fazer as coisas, se valesse a pena. Mas não vale. Não aqui. Nem agora. Já fui muito boa nisso e não recompensou. Fui taxada de neurótica. Larguei de mão. Tem tarefas que a vida nos dá e nem pergunta se queremos. E fazemos, até que a própria vida nos abra, e bem, os olhos.
Mas, voltando ao delírio do dia - que deveria ser feliz, especial, mas estou longe do que me faz feliz e especial -  pesa sobre mim, ainda, a ideia de ser simples fio. Aquele, mero condutor ,que alinhava, que puxa ou que amarra, tanto faz. Aquele que dá corpo e torna as coisa visíveis, possíveis bem sei. Mas não quero. Não é valorizado.Só lembram dele quando arrebenta. Ou enoza, feito cabelo solto ao vento. Eu? Eu não sirvo de exemplo. Nem de guia. Esse cargo não me serve. Quem quiser que pegue.Tenho uma outra vida a viver. E essa me faz missanga. Me faz bonita. Me faz parte integrante e colorida. E não só fio, invisível, do lindo colar da vida que quero ter.

E faço minhas a palavras do meu mundo:
"A missanga, todos a vêem. Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas. Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo"
 (Mia Couto)