quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Doideira


Estava lá, no jornal da semana:

"O ministro da Educação, Fernando Haddad, rejeitou o veto do Conselho Nacional de Educação (CNE), que determinou a proibição do livro ‘Caçadas de Pedrinho’, de Monteiro Lobato, em todo o País. O MEC vai devolver o parecer ao órgão, pedindo que a decisão de banir a obra em escolas públicas de Ensino Fundamental seja revista. Em decisão publicada na semana passada no Diário Oficial da União, o Conselho alegou que a obra tem conteúdo racista. Em um dos trechos, Tia Nastácia é comparada a “uma macaca”. Para que um parecer do colegiado passe a valer, precisa ser homologado pelo MEC. "

Não dá para crer. Nós, criados, bem ou mal, com tantas histórias do mestre, tantos contos e tantas aventuras, achamos piada. Não dá para levar a sério. Não tem como. Com tanto "lixo" sendo despejado nos ouvidos e olhos de nossas crianças e adolescentes,
que mal há na linguagem de Lobato?
Para quem não lembra, Caçadas de Pedrinho é um livro infantil escrito por Monteiro Lobato , publicado em 1933. Vejam bem, 1933. Conta as peripécias do menino às voltas com a caça de uma onça que ronda o Sitio do Picapau Amarelo, onde ele mora com a meiga Narizinho, a travessa Emilia ( é, a bonequinha de pano que tanto sonhamos), sua avó Dona Benta e Tia Anastácia, que cuida da "lida" da casa e se mostra, muitas vezes, uma ótima conselheira.
Anastácia representava, para mim, algo bem mais que um personagem. Tinha um pouco de saberes da terra e muito de ingenuidade. Sua figura lembrava as amas, as queridas babás, aquelas que sempre sonhamos ter: colo largoe quente, fala mansa, muita canção de ninar. A meu ver, representa bem o povo brasileiro, com seus mitos e verdades. Se o mestre faltou com o devido respeito, representa um sentido, um viver que o país teve e tem. Uma "falta de respeito" que se explica na linguagem de contador de histórias. Uma falta também ingênua, pensaria eu, com meu coração de menina. Uma força de expressão. Não mais que isso. Não chega nem aos pés de tanto preconceito ainda vivido na pele hoje em dia. E de toda ordem.
Fico imaginando quais seriam os próximos passos. Proibir os pais de dizer (ameaçar?) para o nenê dormir "senão a Cuca vem pegar". Ou de chamar o boi da Cara preta para pegar a criança "que tem medo de careta". Proibir as crianças de "atirar o pau no gato". Ou de dizerem que "quem não cantar agora vai cantar de madrugada". De ameaçar que a barca vai virar.Ouvimos muito, cantamos mais um monte de vezes e estamos todos inteiros. Ou se não inteiros, a culpa, com certeza, não era do que líamos ou dizíamos. Nem do que aprontávamos. E não fomos presos no quartel por não marchar direito, apesar das constantes "ameaças".  Nem ficamos traumatizados por sermos "cabeça de papel". E olha que o quartel pegou fogo...
As tragédias eram tantas... Da Terezinha de Jesus que deu uma queda e foi ao chão. Do anel que era de vidro e se quebrou. Do Samba Lelê sambando com a cabeça quebrada.Ou das intermináveis brigas entre o Cravo e a Rosa. Dava pena da barata que dizia ter de tudo, de vestido de filó a sapato de veludo. E ríamos, porque ela não tinha nada. Trágicas as noites que não se dormiu esperando a volta do Galinho branco e amarelo ( e olha que ele correu o mundo!). Ou porque o sapo estava com frio.
E se formos lembrar das histórias de Walt Disney, são tantos os sofredores, tantas as "tias Anastácias"! A Branca de Neve fugindo da bruxa, Cinderela sendo usada em trabalho escravo E os porquinhos que não tinham sossego, o elefantinho Dumbo que sofria com tantas gozações de todas ordem e era maltratado no circo, o Bambi sendo caçado por ai. Sem levar em conta as tantas vezes que gargalhamos das trapalhadas do Pateta e da "rabugice" do Donald. E da "pãodurice" do tio Patinhas. Lições, todas, com caminhos não tão bons, mas com final feliz. E ninguém se importou com eles.
E nem com a Barata:


A Barata diz que tem

A Barata diz que tem sete saias de filó
É mentira da barata, ela tem é uma só
Ah ra ra, iá ro ró, ela tem é uma só !

A Barata diz que tem um sapato de veludo
É mentira da barata, o pé dela é peludo
Ah ra ra, Iu ru ru, o pé dela é peludo !

A Barata diz que tem uma cama de marfim
É mentira da barata, ela tem é de capim
Ah ra ra, rim rim rim, ela tem é de capim

A Barata diz que tem um anel de formatura
É mentira da barata, ela tem é casca dura
Ah ra ra , iu ru ru, ela tem é casca dura

A Barata diz que tem o cabelo cacheado
É mentira da barata, ela tem coco raspado
Ah ra ra, ia ro ró, ela tem coco raspado

O tal Conselho beijou o  príncipe esperando que virasse sapo. Eles que cuidem do bulling. Esse, sim, pode trazer consequências drásticas!

2 comentários:

  1. O ministro quer se auto promover( com hifen?junto? separado?..rsrsrs.
    Não tem mais o que fazer? Quer mudar agora com a história de nossa tão rica literatura??!!
    Que vá se preocupar com a bagunça que é o ENEM e deixe os nossos autores em paz!!!
    Bj,
    Meg

    ResponderExcluir
  2. Meg, o Ministro esta a favor do Monteiro. O "conselho" é que não foi bom conselheiro...

    ResponderExcluir