domingo, 21 de novembro de 2010

Estratégia



Sou um bicho engraçado. Escuto um assunto - seja na aula ou na esquina mais próxima. Talvez uma frase lida ou apreendida de algum filme - e minha cabeça pensante voa.  Cria textos, discute com ela mesma. Por vezes vira um pandemônio entre meus tantos eus. As tantas" Joyces " ficam de frente  umas com as outras e começam um tipo de brainstorm (um tipo de temporal de ideias, comumente usado em comunicação e publicidade), um deixar sair.
Ontem o tema que me pegou - quando ainda tentava entender os porquês de tantas pedrinhas chatas em meu caminho - foi o silêncio. Esteve comigo o dia todo, companheiro nem sempre desejado. Mas companheiro.Tenho usado dele para me entender. E me defender. Às vezes é só um leite que está ali para ser aquecido, mesmo que não queiramos. E por vezes vira, foge do bom controle. E me põe a pensar. Talvez teria sido melhor dar atenção para que ficasse no ponto certo. Ficar de olho, medir o fogo. Porque , basta um descuido, ele ferve, entorna, e ai só nos resta a chata tarefa de limpar da melhor forma. E, melhor já avisar: por mais que se limpe, o leite esteve lá, está lá, mesmo que não se veja. O fogão em questão não é - e nem nunca mais será -  mais o mesmo. O momento fica no passado e não se tem como tirar.
Meus silêncios foram três (silêncio se conta?) e cada um veio de braço dado com uma emoção. Usei do silêncio em "protesto" à minha invisibilidade diante do medo. Como se eu fosse um grande perigo. Talvez não eu, mas minha língua, reconheço, sempre pronta a falar demais. A questionar. Está ai uma lição já aprendida, mas não ainda apreendida, o que faz toda diferença. Nesse momento -  e em tantos! - , melhor calar. Dói, mas é, aprendo, o melhor caminho. Fiz de meu silêncio atenção. Usei da calma como minha arma. Abafei a fervura. Deu pra beber, em pequenos goles. Se não alimentou, pelo menos não machucou.
Usei do silêncio como protesto de mágoa diante do que não era esperado. Diante da pouca importância que me deram. Da não resposta à minha saudade. Deixei as palavras guardadas para um melhor momento. Vieram hoje, 24 horas depois. Saíram doces, jogando o silêncio no lixo. Bela lição. Fiz de minha tristeza, compreensão. Amor de mãe tem destas coisas.
E usei o silêncio como forma de "esfriar o leite". Vi o fogo sendo ativado, como sempre um tudo que se tira do nada ( quando se sabe ou se lembra de onde veio a fúria do fogo). Senti o confronto entre suas moléculas e  a parede recipiente. Senti a pressão subindo. Deixar ferver ou esfriar? Às vezes, nem dá para raciocinar. Usei do silêncio como se esperasse o tempo passar. Soprando o fogo exagerado das emoções para outro lugar. Usei da espera e do querer para deixar a "poeira baixar". Valeu a pena. Veio em forma de sorriso. Em delicado sabor que me alimentou o dia todo. Quem sabe me alimenta para toda a vida?
Disso é feita a maturidade, imagino. Receita difícil essa, que nem sempre dá certo. Maturidade é saber esperar. Não deixar se levar pelo impulso do pouco. Do agora. Pelo calor da hora, pela labareda que entorna. Da querosene no fogo ainda começando. Por vezes, é melhor abafar.
Sábia Cora Coralina. Ela bem sabia. Era "uma mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores". Talvez eu ainda não tenha achado o caminho das pedras - ou estou nele e tentando me desviar - mas por onde passo, ando tentando deixar flores. Ou pelo menos sementes. Quem sabe elas vingam e vem me perfumar as horas?






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