sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Bem pensado


Ainda falando de felicidade - e dessa procura desenfreada por ela - não se sabe mais procurar. Tudo é rápido, tudo para ontem. Não se dedica um só minuto do dia para ver onde ela está. Cultivá-la, como se cultivam orquídeas, que pedem mais dedicação do que nos oferecem flores. Mas ninguém há de desmentir a beleza delas. O mundo tem pressa e menos flores.
E os relacionamentos entram na onda. Precisa-se urgente ser feliz. Nem que seja uma felicidade momentânea, fugaz. Não se tenta mais, não se esforça, porque um vai e outro volta. Não acho que seja amor. Ou se é, é um amor ficante. Ultra-rápido. Lavajato. Dura pouco. Amor de microondas, com prazo para esfriar. Ou de fogo alto, que queima logo, se a gente não ficar de olho. Louco fazer comparação com comida, mas o que se esperar de uma faminta?
Quem sabe cozinhar sabe do que eu falo. Da boa comida feita sem pressa, ali, a dois. Do caldo que se põe para ferver e fica de vigília, ali, namorando, caldo e pessoa. De um picando e outro abrindo o vidro. Um depurando, o outro pondo a mesa. Os dois sentando e comendo, enquanto se enamoram mais e mais -mesmo quando se acha isso impossível. É desse tipo de amor que falo. É esse tipo de amor que quero. Um amor que não cabe no livro da hora. Não cabe no filme da moda. Não se vê em vitrine. Porque esse amor tem que ser trabalhado. Esculpido. Detalhado. Arejado. Decantado feito um bom vinho.
Isso eu tenho aprendido.
No amor- aquele de verdade e não o de novela, nem do romance - a não ser que seja à la Gabriel Garcia Marquez, esperado em silêncio por anos, melhor explicar - não há de se ter pressa. Se é um plano para todo o sempre, melhor tomar cuidado. Precisa planejar, feito longa viagem. Pensar na mala antes de enchê-la de bobagens. Levar apenas o necessário, o imprescindível. Precisa querer. Precisa dedicação. Desprendimento. Abertura. Despojamento do que eu sou em prol do nós. Do que eu quero, se for um querer solitário. Nada há de solitário no amor maior. Nem o uso do banheiro (pode rir, mas é nesse momento, crucial, que se sente o tamanho da intimidade, não se enganem!). Tudo se reparte, até o que não se quer. Porque sabe que o que é do outro é seu também. E não estou falando só do pote de sorvete. Ou da cama. Porque amor que é amor, gruda, sobra cama. Amor que é amor, dá mais do que recebe. Amor que é amor ri das risadas do outro sem nem entender. E chora com o choro do outro sem nem saber o real motivo. E tenta de todas as maneiras fazê-lo feliz porque só assim será. E isso não está nos livros, nem nos famigerados ditos de auto-ajuda. Porque amor vivido é outra coisa. É romance escrito a dois, página por página. E ponto final. Final feliz, se assim se quiser.

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