quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Linguagens


Gostei. Até agosto de 2011 as escolas serão obrigadas a ter aulas de música. Gosto da ideia. Como já falei aqui, foi na escola que, digamos, apurei meu gosto musical. Dá até saudade do chiado dos discos de vinil das aulas do "Tio Neri". Parece que no som do toca-discos (Hã? O que é isso, mãe?) azul do professor as músicas ficavam mais românticas. Ouvíamos de Lupicínio Rodrigues à "pimentinha" Elis. Sambas e bossa nova. Longas passagens por Tom Jobim e Vinícius, o poetinha. Toquinho. Chico e tantos outros. Geraldo Vandré eu escutava na casa de praia de uma amiga. Às vezes Gal e Bethânia, outras Caetano. Mas eu gostava mesmo era dos antigos. Gosto. Nunca deixei de. Nem vou.
Mas uma coisa só reconheci, depois de "madura" . As músicas - e os poemas - ficam muito bem na língua espanhola. Não sei dizer o porquê, apenas sinto. Uma sonoridade diferente, temperada de puro romantismo. Como se falassem, sempre, ao pé do ouvido. Como se fossem, sempre, "calientes" ( apesar de meu convivio com espanhóis não ter tido nada disso...). Devem ter algo de encantamento por nerudas e gabbos. Deve ser culpa de meus poetas de plantão. Deve ser...
Também o português das terras de Pessoa me soa bem. Acho charmoso, como se sempre cantarolasse. Acho leve, "entra" bem. Como se cada frase viesse das bocas encantadoras de um grande cantor. De um bom e bem cantado fado. Coisa que não sinto quando me vêm em italiano, língua que adoro. Na arte, parece tosca, se me permitem dizer. Ou té engraçada. Chingamento em italiano me faz rir, sem sombra de dúvida. Acho charmoso, mas...tosco. Francês parece sempre bonito, mas passa algo de distanciado. Como se usassem da língua apenas para encantar, como se não estivessem sendo verdadeiros. Deve ser influência do filme francês, onde sempre parece que falta algo de sincero. Onde os dramas são sempre para lá de confusos. Alemão, perdoem-me, mas não entra bem em meus ouvidos. Nem falado, que dirá declamado ou cantado. Deve ser algo distante, coisas da história. Algo imposto, nenhum deleite. Ah, e ainda tem as músicas indianas... são tantas as músicas e línguas que gosto...deve ser essa minha vontade de conhecer o mundo. De tê-lo, todo , dentro de mim. Ou pelo menos no ouvido. Já era um começo...
Aliás, quanta coisa tenho aprendido nessa vida, cada dia mais, cada dia uma surpresa. Dizem que esse mundo consumista tem fome de compras. Eu tenho de saberes. E não paro nunca. Encanta-me a pessoa sábia, e que passa o que sabe sem que eu perceba isso. Que me passa seu encantamento aos poucos, palavra por palavra, gesto por gesto. Amo a que me ensina através de uma música ou página marcada. A que dança comigo - ali, na rua, na calçada - e me deixa com a voz embargada. E aprendo que, para aprender é preciso coração aberto. É preciso corpo e alma. E amor, muito amor.

2 comentários:

  1. Que saudade das aulas do tio Neri.
    Clave de sol,dó-ré-mi-fa-sol-lá-si...
    Fiz parte do coral do "seu" Arlindo, lembra?
    Bj,
    Meg

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  2. Ah, Meg, as saudades são tantas que nem caberiam em todo texto do mundo!

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