quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Livre pensar



" ... o pensamento tem rédeas próprias, e muitas vezes surpreende  até mesmo quem o pensa".

Essa frase de Lucia Santaella, autora de tantos livros sobre comunicação, arte e linguagem, fez escapar um rasgo de sorriso em meu rosto. Um sorriso entre surpreso e prazeroso, do concordar e descobrir
que sou "normal".
Quantas e quantas vezes estou no caminho de um saber-me  - caminho esse que faço quase de olhos fechados, feito brincadeira de cabra cega, entregue e confiante do não saber onde, mas querendo chegar a algum lugar -  e sou surpreendida por mim mesma - ou seria pelo meu pensar? Quantas e quantas vezes peguei um caminho e cheguei, boquiaberta, em outro? Dai vem esse meu sorriso. Do encontrar no final - ou meio - do caminho escolhido pelo "destino" um belo jardim. Ou uma fonte inesgotável de prazer. Ou uma pedra, enorme, intransponível, tanto faz. A surpresa é o que chega. A surpresa é o que me vem sem esperar. Sem planejar. Sem, por vezes,  e muitas, nem entender.
Penso que seja coisa do momento. Esse momento movido a velocidade do pensamento - nem sempre da ação. Essa fase mutante pela qual todos estamos passando, querendo, aceitando, ou não. Essa frase de cruzamentos de informações, transposição delas, todas, juntas e ao mesmo tempo. Sem vírgulas, sem pausas, sem freios. Sem parágrafos que nos norteiam. Sem pontos finais, dando chance de respirar. Como diz Santaella, estamos "no olho do furacão", essa "inquietante e desconcertante evolução de tecnologias". Fala do computador como "motor de remodelar, dínamo da comunicação globalizada e acelerada da cultura".  
Bem sei . Sinto na pele - ou melhor dizer na ponta dos dedos? Saio em busca de algo qualquer e me vejo longe, num mundo distante, meditante até - aqui no sentido de perder conexão com este. O mundo, todo, ali, à minha espera. Isso para mim que estou longe de ser da nova geração. Do fazer tudo ao mesmo tempo. Do som ligado , as imagens  da televisão feito mosaico, trocando mensagens pelo celular...enquanto estuda!A era do zapping, eu definiria. Muitas coisa junta e  ao mesmo tempo e num clicar de olhos - ou teclar de dedos. O mundo ao alcance,  e um falso "sob controle" - nem que seja remoto.
Por isso gosto da educação que dei para meu filho. Consegui - não sei bem como - fazê-lo  "menos ativo". Ou menos "pró-ativo". Não se dá muito bem com jogos virtuais - a não ser nos rompantes de dias. Nem com mensagens de MSN, nem do celular. Não atende telefonemas como se falasse em código, como fazem muitos de seus amigos. Nem se comunica por monossílabos, teoria minha sobre a atual deseducação ( ou seria desinteresse?) . Falta o básico, parece. Divirto-me com suas brincadeiras - mímicas e danças inventadas - e seus "mantras" de chatice. Ou quando faz pouco caso sobre os "astros da vez". E relaxo ao ver que pede "colo", deita ao meu lado para assistirmos, juntos, a algum programa "saudável" na televisão, enquanto azucrina o cachorro como se fosse o irmão caçula. Até para comer ele foge do padrão. Gosta de experimentar, de inventar. Ao mesmo tempo que sai com amigos, em bando, como digo.
E leva na mochila o que tem de bom.
Sei - sabemos, espero que sim, do que nos espera. E tento de alguma forma fugir do padrão. Crianças superativas que serão adultos sem muita noção do que realmente querem além das vitrines. Do que realmente são. A era do fácil, do descartável - de coisas a relacionamentos. Sem rédeas. Cavalos selvagens soltos no tempo. Espero ter passado - e passar, já que filhos são para sempre - meu lado A. Minha noção clara sobre as pessoas. Sobre o real valor das coisas. Sobre a vida. Sobre o amor. Esse sim, um dínamo que me impulsiona. Que me faz crer que estou no caminho certo. Mesmo com tropeços. Ou longas esperas.

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