segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Missanga



Tem dias que a gente acorda , como dizem por ai, de pá virada. De pé esquerdo. Eu, normalmente, levanto com os dois. Coloco-os, juntos, no solo. Como que para firmar meu dia deste a saída da casa.
Mas hoje acho que levantei com o pé trocado. Aliás, acho que estava, ontem, com a coisa toda trocada. Truncada. Dia vivido, mas não como queria. Como se o corpo estivesse deslocado na mente, e a alma tivesse tido um dia sem sentido. No fim das horas, pernas para cima, tamanho peso nelas. Livro de bom gosto, e até ele me lembrou do assunto, único, em pauta. Até a noite veio pesada, cheia de sonhos malucos. Deve ter sido a má companhia da noite anterior. Um pensamento chato, pesado, de impotência. O velho e nada bom pensamento que vem me acompanhando feito coceira, daquelas difíceis de coçar: o de não poder estar onde queria estar. E olha que tive um dia válido, com o filho para cá e para lá. Mas não foi completo. Não resolveu a falta. Como se apenas tivesse passado água fresca na ferida.  A água fatalmente seca e ela volta a incomodar, se fazer presente.
E hoje veio à tona. E como sempre sinto, a casa veio a baixo. Como se eu fosse a corda que amarra tudo. Como se eu fosse o prumo da obra. A comandante de todos. Não sou, aviso. Nem quero.
Deixem-fora disso!
Assim é a vida de mãe, título que me veio sem nem chamar. E de dona de casa (este preferia que nem existisse no meu vocabulário). A de mãe, vem, cresce mais e mais e a gente se espreme, aceita, resolve, dá conta, de um jeito e de outro. E, cá entre nós -  e que nosso filhos não nos ouçam - reza-se para se estar certa. Reza-se para ter feito - e estar fazendo - a coisa certa. Pede-se para a 'nossa senhora mãe protetora de todas as mães" que não nos arrependamos da tarefa árdua e nem sempre feita com vontade. Nem sempre feita com certeza - aliás, quase nunca. Nem sempre aceita de bom grado. Ser mãe é algo intuitivo. Jogo eterno de erro e  acerto. E espera-se - as mais verdadeiras hão de concordar - para sentir-se recompensada. Pensamento nada altruísta eu sei. E nem sou. Nem pretendo. E esse emprego é dureza: 24 horas de dedicação, sete dias por semana, anos a fio.  E nada fácil. Dá-se muito, sem se esperar nada em troca. E muitos se vão sem nem olhar para trás. Ou viram as costas ao menor deslize materno. Espero que não seja esse o meu fim.
A tarefa de dona de casa, então, nem me fale. Preferia eu mesma fazer as coisas, se valesse a pena. Mas não vale. Não aqui. Nem agora. Já fui muito boa nisso e não recompensou. Fui taxada de neurótica. Larguei de mão. Tem tarefas que a vida nos dá e nem pergunta se queremos. E fazemos, até que a própria vida nos abra, e bem, os olhos.
Mas, voltando ao delírio do dia - que deveria ser feliz, especial, mas estou longe do que me faz feliz e especial -  pesa sobre mim, ainda, a ideia de ser simples fio. Aquele, mero condutor ,que alinhava, que puxa ou que amarra, tanto faz. Aquele que dá corpo e torna as coisa visíveis, possíveis bem sei. Mas não quero. Não é valorizado.Só lembram dele quando arrebenta. Ou enoza, feito cabelo solto ao vento. Eu? Eu não sirvo de exemplo. Nem de guia. Esse cargo não me serve. Quem quiser que pegue.Tenho uma outra vida a viver. E essa me faz missanga. Me faz bonita. Me faz parte integrante e colorida. E não só fio, invisível, do lindo colar da vida que quero ter.

E faço minhas a palavras do meu mundo:
"A missanga, todos a vêem. Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas. Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo"
 (Mia Couto)

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