segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Sobre livros

 


Ontem fui conhecer a famosa feira do livro de Porto Alegre. Uma dama, enorme , em sua já 56a. edição. Nota-se sua maturidade. Achei estandes de todo tipo - de editoras, de lojas, de instituições, de briques, de lojas especializadas. Livros novos, novíssimos  (sendo lançados na feira) , usados, brasileiros e importados. Para todos os gostos e bolsos. Um interminável emaranhado de setores, enormes corredores, cada um com seu infinito número de bancas, e cada banca com número expressivo - quantitativamente  e qualitativamente falando - de livros. Grandes, pequenos, finos, grossos, sérios, risonhos. De mortais e imortais. Poesias, contos, romances, estudos, português, matemática, design, arquitetura. Física. História, geografia. Corpo. Alma. Espírito. Todos os campos e todos os temas. Todos os gêneros. Um mundo. Um supermundo. Um paraíso, onde nem contava o calor, pois era menor que o das pessoas a nos atender. Ou dos maravilhosos Quintana e Andrade (*) que nos recebem em uma das entradas para uma conversa de banco.
A feira pega boa parte do centro que chamo de histórico da cidade. Da praça ao rio. A nos contemplar - ou nós a elas - belas arquiteturas de todas as épocas. 
E gente de toda a ordem, muita. A cultura não faz distinção. Adultos, crianças, mulheres e homens , pobres e ricos, de um país que, dizem, não lê. O que farão, então, com os tantos volumes carregados nas sacolas? Que se folheie, apenas, então. Um livro pede isso. Para isso foi feito. Para ser aberto.  Tocado. Folheado, nem que de forma aleatória, nem de forma diferente do que foi idealizado. Porque o livro que sai da mão do autor é um. E o que entra na cabeça do leitor é outro. Porque cada um vê o mundo do seu jeito. Cada um faz do livro seu. E ponto.
E isso vi num programa de televisão. Destes, que não se dá muito crédito ao canal. Ledo engano. Falavam - poetas, escritores, artistas,atores -  que o melhor amigo de uma obra - seja ela escrita, falada, pintada ou encenada - é o prazo. Sem prazo, não tem obra, diziam. Porque para quem faz, a arte é sempre inacabada. Nunca está perfeita. Nunca completa. Não fecha. Sempre sobra ou falta algo. Para quem a esculpe, nunca está pronta. Porque as palavras são assim, mesmo, pensei. Dançam em nossa mente feito folhas ao vento. Catamos uma, mas sempre achamos que a outra, logo à frente, está melhor representando a beleza do total. Por isso um escritor nunca devia reler seu texto. Se ler, a cada vez que  o fizer, é como refizesse tudo, mesmo que só em mente. Porque para ele, a perfeição não existe. É como a felicidade de Baumann (**). A perfeição deve estar no caminho, não no fim. No sendo feito, não no acabado. Seria a obra o percurso?
Fiquei pensando na verdade disso. Longe de mim me comparar com os mestres, mas não  gosto de reler meus textos. Muito menos que o leiam para mim. Incomoda. Como se ficassem ali meus defeitos, minha fraqueza de carne. Ou quando o faço, refaço-os tão somente em minha cabeça. Faço deles novo. Outro. Ou lixo. Como se fugissem de meu alcance. Como  se não mais meus. Nem de ninguém. Orfãos de pai e mãe, destes que passam de lar em lar, até que alguém se afeiçoe - ou sinta pena - e os traga a morar em seu coração. 
(*) Uma estátua dos dois - Quintana sentado em um banco e Andrade de pé com um livro nas mãos - recebe as pessoas na praça em reforma. 
(**) A arte da Vida, de Zygmunt Bauman.

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