terça-feira, 2 de novembro de 2010

Vida


Hoje é dia dos mortos. Ou Finados, para ser mais polida. Minha mente voltou no tempo. Era dia de uma tristeza democrática. Dos que choravam seus mortos e dos que nem tinham mortos a chorar. Até dos que nem sabiam do que se tratava. A aura de tristeza era quase obrigatória. Uma dor generalizada, mesmo que não coubesse. Mesmo que não se entendesse. Era pequena e não entendia o porque do fazer silêncio. Nem da razão do rádio tocando marchas fúnebres um dia todo. Um clima de tristeza imensa, invasiva, penetrante. Minha visão de morte era outra. De medo ou de tanto faz.Lembro de brincar em volta de túmulos enquanto minha mãe e minha tia lavavam o túmulo de seus enterrados. E mesmo quando a morte chegou perto e fez da alma de minha mãe morada, não me fiz triste. Deve ser porque não mora em mim. Ou porque meu espírito de criança é mais forte que eu. Faz da morte coisa bonita. E resolvida. Foi. Que descanse em paz. Dói mais em quem fica.
No México, é festa. As viúvas levam para os túmulos de seus amados suas comidas prediletas, sua música preferida. Banham-se e vestem-se como se fosse dia de baile. Passam a noite de vigília. Dançam ao som das lembranças de dias bem vividos. As crianças ganham doces, as caveiras ganham vida, as ruas, alegria. O jeito de chorar os mortos tem mil vidas. Feito gatos. Seriam sete? Ou eternos?
E eu acho graça até das histórias contadas. Do amor que nasceu nesse dia e foi registrado em outro. A esperança no dia do contrário. Alegria em dia de tristeza. Uma vela para o santo outra para o espírito. A mãe de branco, a vó de preto. O choro da vida em meio ao choro da morte. Festejo e clausura. Superstição ou proteção? Como poderia uma criança ser feliz nascida nessa data? Certa estava a mãe. Fazer festa no dia de dor de nada valia. Uma vida inteira de explicações e ressalvas. Era pecado, diria a vizinha ou a tia beata. E assim se fez. O nascido de hoje escrito no livro do dia de ontem. A prova escrita para toda uma vida contra os boatos fugidos da sala. E fez do amor uma pessoal especial. E fez dele único e coisa e tal. E faz dele um amado, por mais que tente viver seus dias de luto.
Hoje é dia dos mortos. A vida segue. E eu comemoro estar viva. Deve ser o amor pulsando dentro de mim. Apoderou-se, para nunca mais sair. Um ser eterno.
 Que me proteja a Mãe Oxum!

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