quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Vôo


Está lá no primeiro capitulo do livro do Bauman, A Arte da Vida, que estou relendo:

"Felicidade é tal qual o horizonte, que recua quando se tenta chegar perto dele".

Essa frase , ao mesmo tempo que me deu medo, deu-me coragem. Acredito, mesmo, que o que vem fácil, vai fácil. Como se não déssemos importância ao que não nos foi caro, material e sentimentalmente falando. Não damos bola ao que não nos custou nada, ou quase nada. Desfazemo-nos, fácil, da modinha barata de verão. Mas nos afeiçoamos ao que nada nos custou, mas que foi feito por alguém, ou por nós mesmos. Ou que nos lembra um momento, uma pessoa. Tenho até hoje um pano simples, destes, de secar a louça, mas que traz as mãos de meu filho marcadas à tinta. Ou quadrinhos que pintou com sua avó. Ou mesmo peças que fiz em meus nem tão pouco momentos voltados a algum tipo de arte. E tenho até hoje um diário, bem guardado, não pelo conteúdo, as "bobiças" da adolescência, mas pelo tempo que tive em convencer minha mãe a me dar um. Guarda-se o que se fez ou ganhou com carinho, ou que se ganhou
de quem se tem apreço.
Afasto-me. Amplio o quadro e vejo que o assunto vai longe. Lembro de meus pais fazendo planos a longo prazo, coisas que não fazemos mais. Sonhando alto, coisa que não temos mais coragem. Ainda sonhamos, temos vaga ideia do que queremos, pois disso se vive, de sonhos. Mas não planejamos mais nada. E não ensinamos isso a ninguém. Nossas crianças chegam ao tempo do vestibular crianças. E eu , na idade deles, bem sabia o que queria fazer. Opção única, mesmo que não para a minha vida toda. Minha mãe foi mais astuta: traçou planos de vôo para levá-la ao campo de conforto em que se encontra agora. Disso não teve medo. Fez faculdade depois dos 40, viajou por cinco anos para dar aula numa escola vizinha. Corajosa. Mas levou anos para sair de uma relação não feliz. Deixou-se levar. Medo?
Eu não fiz planos de vôo, e hoje sinto falta. Fiz viagens cansativas e infelizes. Fiz escalas que não me levaram a nada. E outras que dei a importância que não me deram. Nunca fui de me planejar. Nunca fiz carta de vôo. Deixei-me levar ao sabor do vento e fui administrando da melhor forma. Fui ao ápice e ao fundo do poço. E já passei muitos anos sentada no aeroporto, só sonhando, esperando minha vez de embarcar.
Mas, louca, admito, gostei do vôo até agora. Talvez porque o que eu gosto é de voar , assim, sem destino. Correndo riscos. Nômade. Irriquieta. Vencedora de tempestades. Até que meu porto final me aceite de vez.
Se me permite o grande pensador, volto ao pensamento que felicidade é o caminho. Passo a passo em busca de ser feliz. Dia-a-dia. Caindo e levantando, chorando e rindo.
 O que não posso esquecer é que depois da tempestade vem um lindo dia de sol. E meu vôo, último, será magnífico. O horizonte que me espera me promete um mundo!

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