quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Ganhos




Hoje meu filho viaja. Vai passar 50 dias longe, muito longe. Leva na bagagem um pouco de mim. Sinto meu coração apertado. Não deve estar cabendo nele toda a minha ansiedade, medos, preocupações tolas de mãe de que tudo dê certo, que tudo corra como esperado. Ou melhor seria dizer sonhado?
Mas fica essa sensação dúbia, de alegria e tristeza. Sensação de perda. De falta. De descolamento. Como se uma parte de mim fosse com ele. Deve ser a parte da dedicação, essa tarefa que cultivo há quase 16 anos. Perda? Não. Seria melhor dizer, afastamento, breve. Perdas, já encontrei muitas, sei bem como é. É dor, não é estranhamento. A dor é outra. Já perdi tantas coisas - amigos, afetos, coragem. Noção das coisas. Rumo. Eu , tantas vezes. Na maioria das vezes eram coisas minhas, internas e íntimas, tão difíceis de achar de novo dentro de mim.Outras se foram sem nem avisar. E sabe lá quantas ainda vou perder até que o ano vire outro...
Mas achei muitas também. Meus portos. Meus achados. Descobertas. E esses, quero-os dentro de mim para sempre. Foram presentes que a Vida me deu -  talvez só para me consolar. Fez bem. Revigorou-me. Senti minha pele, meu sangue circulando. Minha alma sendo sacudida. Por momentos achei que era feliz. Que era eu de novo a me mostrar. Um renascer. E dentro desse eu, muitos outros que nem sequer sabia que existiam. Essas, lindas descobertas, não morrem jamais.  São minhas marcas. Meu legado. E cada vez que sentir saudades de mim mesma, basta relembrar. Um alento. Elas estão ali, na primeira gaveta de meu coração. Uma gaveta sempre limpa e arrumada, perfumada, pronta para ser aberta cada vez que a emoção pedir, sempre que o amor faltar.
Hoje meu filho viaja. E com ele vai um pouco do que sou. Mas vai ser bom. Eu e ele temos muito o que conversar, ele com ele, eu comigo. Ele precisa me dar mais valor. E crescer. Eu também preciso de
me dar mais valor. E crescer.
Como vemos, o tempo passa, mas as necessidades são as mesmas. Mas desta vez quem vai precisar de colo, talvez, seja eu...já estou com saudades...

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Saldo


Ainda dentro do tema Felicidade. Ser feliz, melhor dizer. Até porque acho duas coisas bem diferentes. Felicidade, para mim, é bem mais complexa. E tem me parecido inatingível, apesar de ter virado lei.
Estar feliz é mais fácil. Pode - e geralmente vem - de um imprevisto. Pode ser uma sessão de cinema com filho. Um sorvete em hora não esperada. Um sabor. Um olhar. Um perfume que nos lembra alguém. Beijo na testa. Carinho do amado. Abraço apertado. Conversa animada. Troca de gentilezas. Palavras bem ditas e bem escutadas. Um bom livro - melhor ainda se muitos deles, ali, a nos esperar, feito amigos. Noite bem dormida. Namorar. Beijo não esperado. Sentir o sol na pele. O suor depois da caminhada. O saber do dever cumprido. Água na sede. O efeito do bem falado ou bem feito. Do bem entendido.
Amar e ser bem amado.
Já ser feliz é mais complicado. Vem das certezas de dentro da gente de ter feito - amado, falado, dado - o nosso melhor. Isso ninguém tira. Do que realmente somos, e não essa carapuça que colocamos, vez por outra, para nos proteger ou fugir de todo mal. Um somatório de coisas muitas vezes impossíveis, apesar de tão sonhadas - e nunca sonhadas sozinhas. Do ser amado, do amar, do se amar - assim, como se é, um poço de defeitos compreensíveis. Ser humano não é assim tão fácil. E não sabe se ser sozinho. Caixa de dúvidas, de incertezas. Na verdade, somos mais decepção que honra. Somos mais esperar que se adiantar. Receber que dar. Por isso amamos tanto os cães. Fiéis, apesar de nosso 'mal - tratos', físicos ou emocionais. Intuitivos, sabem quando é hora de silenciar e de agradar. Por vezes, acho que nos compreendem mais que nós a nós mesmos...
Ah, os cães, grandes mestres. Contentam-se com pouco. Basta uma dormida ao sol, uma caminhada na quadra, umas cheiradas por ai, uma aventura acolá. Uns goles dágua e um mínimo de ração. São felizes. Nós, não. Sempre queremos mais. Das pessoas, das coisas, de nós. A tal ambição, que por vezes nos afoga. Os sonhos que muitas vezes nos cegam. O não alcançado, que muitas vezes nos derruba. Por isso volto à minha teoria. Não seria melhor largar teorizações e desejos, tantos, e viver um ser mais simples? Que diferença faz uma sandália a mais? Basta olhar a leveza dos pescadores. Acordam com o sol  (ou será que são eles que o acordam?). Vão ao mar, não sem antes o contemplar. Não sem antes dialogar, filosofar. Ler nas entrelinhas das ondas, nuvens e vento. Entender. Aceitar. Silenciar. Saber esperar. Roupas de ontem, sandálias gastas, conversas de bar. Peixe com farinha, um pirão para variar. Limãozinho do terreno. Verdurinha da horta. Para que mais? Ser feliz pode até pedir mais. Mas eles não deixam de dormir. Não tomam remédios para relaxar. Não sentem inveja de ninguém. Não choram por outrem. Riem por qualquer coisa, porque sabem que faz bem. E tem sempre um sorriso largo e uma boa história para contar.
Às vezes - aliás, muitas - me 'vejo' em meio a eles. Casa simples, vista para o mar. Eles a pescar, eu a analisar. Escrever. Descrever. Desenhar. Mas nunca caraminholar. Fartura, só a de viver. Simples. Sem ter que. Sem tanto sofrer. Sem tanto a errar. Porque a vida tem me mostrado que somos sempre lembrados pelos erros e defeitos, nem sempre pelo que somos e pelos acertos, menos ainda pelas tentativas, quase sempre vãs. O saldo, no final das contas, sempre dá negativo. Por mais que se queira, tão somente, acertar.

Se meus joelhos
Não doessem mais
Diante de um bom motivo
Que me traga fé
Se por alguns
Segundos eu observar
E só observar
A isca e o anzol
Ainda assim estarei
Pronto pra comemorar
Se eu me tornar
Menos faminto
E curioso
Curioso...
O mar escuro
Trará o medo
Lado a lado
Com os corais
Mais coloridos...
Valeu a pena...
Sou pescador de ilusões...

Se eu ousar catar
Na superfície
De qualquer manhã
As palavras
De um livro
Sem final

Valeu a pena
Sou pescador de ilusões...

(Pescador de Ilusões, O Rappa)

































segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Sinceramente



Estou num momento crucial de minha vida. De contrários. De opostos. De extremos. Muito feliz e muito triste. Meu filho está na sua melhor fase. Adolescente, cheio de vida, cheio de sonhos e de partida para a primeira viagem de seus sonhos ( sim, acredito, e sonho, que virão muitas, como se esse abrir de portas fosse eterno...). Acredito que seja uma soma de coisas: merecimento, oportunidade e , claro, uma forma atualíssima de 'estar entre os melhores'. Uma aposta antiga, quando se põe no melhor colégio, quando se espera as melhores amizades, quando se deposita nele os nossos sonhos. Quando se dá a ele o que não se teve e nem se tem. Frutos, todos, dessa vida que vivemos para - e tão somente - eles. Deixamos de lado nossos sonhos e até nosso conforto, em prol deles. E este é um deles.
E eu na minha pior, posso assumir. Mais que uma 'crise de meia idade', como dizem, uma crise de idade inteira, sinto. Como mulher, como mãe, como profissional. Comigo mesma. Crise de pacote completo. Nisso, pouco de mim, que sempre fui de me jogar na vida - até o dia que ela, machucada, se vingou. Fiquei medrosa.
Viajar. Está no meu sangue, diz meu horóscopo. Conhecer países e línguas. Fiquei na língua, uma só. Já me fiz muitas promessas de tal. Já me fizeram algumas, escritas às pressas diante de um esquecimento - ou desinteresse - de presente qualquer, diante do olhar comparativo dos outros e do que eles iam pensar. E por um problema ou outro, nunca fui além de onde poderia ter ido e voltado em um mesmo dia. Nem do total desintendimento do que se falava - o que deve ser, uma baita experiência.
Lembro de meu pai. Tinha agência de viagens e nunca viajou. Por medo ou conformismo, não sei. Nem nos deu. Conhecia países de ouvir falar. E falava deles como se tivesse estado lá. Eu tenho em mim a percepção de ser isso, viajar, uma porteira aberta para a passagem da boiada da vida. Um portão a ser transpassado. Depois disso, da ,enfim, saída, sempre se volta, sempre se vai a viajar. Um viver contínuo, como se entrasse no cotidiano. Na ordem do dia. E a quase certeza já que, para quem não passa, nada passa.
Estranho sentimento. Ambíguo. Egoísta, assumo. Mas sincero, como sempre o são, como sempre sou. Meu filho está pronto para sair e eu nem sei onde ficar...Talvez faça parte da minha procura.
 Talvez Neruda esteja certo:



"Algún día en cualquier parte, en cualquier lugar indefectiblemente te encontrarás a ti mismo,
y ésa, sólo ésa,
puede ser la más feliz o la más amarga de tus horas".

domingo, 26 de dezembro de 2010

Feliz?



Está lá. Uma PEC (proposta de emenda à Constituição) que  " altera o artigo 6º da Constituição Federal para incluir o direito à busca da Felicidade por cada individuo e pela sociedade. Diz lá : "Art. 6º: São direitos sociais, essenciais à busca da felicidade, a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados,
na forma desta Constituição.
Está lá. Sei que é sério, sei que é necessário - imprescindível, diria. Mas dai a dizer que se alcançará a felicidade, ah, sei não. Talvez a busca, como se fala. E, sempre insatisfeitos como somos, em chegando lá, outras coisas faltarão e sempre será uma busca. Por vezes injusta. Muitas vezes cansativa. Até porque é isso que nos move. Já cansaram de dizer que felicidade é o caminho, não o fim. Não o pote de ouro, mas o arco-íris. E vai servir, sim, de base para pequenos advogados sairem atrás de grandes causas. Nem sempre dos clientes, mas sempre deles. 
Mas voltando ao tema, e agora pelo meu ponto de vista, achei graça. Ou fácil, pela descrição simples, do que é a tal Felicidade, ali escrita em letra maiúscula, como muitas vezes já falei aqui da Vida e do Amor, meus queridos companheiros que respeito - e porque não dizer, idolatro. Felicidade. Agora é lei. Devo me sentir meio sendo julgada. Pago caro pela minha saúde. Mais ainda pela minha educação. Trabalho apenas me faz sobreviver. Moradia não é minha por inteiro  - e atualmente, mais ponto de discórdia que conforto. Lazer virou sinônimo de não pensar nos problemas, tantos. Segurança, se for essa ai citada, pagamos para ter e rezamos para não precisar. A tal segurança em mim mesma, está na boca do buraco.
E ainda tem a tal Felicidade. Mais essa. A minha aportou em um ponto alto de minha vida. Virada. Renascimento. Escolheu bem. Fez lá morada sem nem saber se era bem vinda. Se for presa por isso, nem tenho como pagar a fiança. Isso se eu quiser sair. Por vezes parece que estar encarcerada , morta, longe de tudo que não seja a tal felicidade, parece uma boa pedida...
Felicidade. A minha tem cor de laranja, cheiro de lavanda. É uma felicidade sábia, contida, sem fanfarras ou outdoors. Uma felicidade silenciosa, sem pressa, minuciosa, por vezes cortada por uma gargalhada ou por um bem viver. Uma felicidade difícil de alcançar, mais difícil ainda de entender. E simplesmente impossível de se resistir, mais ainda de se desistir. Feito o arco-íris e o pote juntos. Porque a felicidade que eu escolhi, que eu quero, é imensa. Não cabe em leis. Muito menos em emendas. Nem me cabe, talvez.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Cadê


25 de Dezembro. Natal. Quando eu era criança - de idade, digo , pois criança ainda sou - este era o dia de experimentarmos os presentes. Os meninos com suas bicicletas e carrinhos, as meninas com suas bicicletas e bonecas - ou os queridíssimos jogos de panelinha. Nisso, nestes presentes, muito de nós como fomos e somos ainda hoje: os 'meninos' com suas aventuras e as 'meninas' cuidando dos bebês e das casas.
Brincar era uma escola. Da vida.
Vejo que o tempo realmente passou e as coisas mudaram de vez. Primeiro que, ao caminhar - e fiz isso por muitas ruas e muito tempo - o que vi foi um Natal silencioso. De cidade vazia. Ninguém nas ruas. Nada de estréias de bicicletas, nem de demonstrações do que se ganhou no dia. Nenhum pai ensinado o filho a andar sem rodinhas. Nem um adolescente a testar patinetes. Ou outros com seus skates. Nenhuma menina levou sua boneca nova a tomar sol. Nem deu de mamar em alguma esquina. Não houve o encontro na praça para conversarem sobre suas novas aquisições. Nem histórias de como o Papai Noel entrou ou como devorou seu lanche. O dia está com cara de ressaca de festa qualquer...
A ficha caiu quando assisti o jornal. Uma "pirralha" , já de unhas pintadas, levada  a conhecer brinquedos 'antigos' ( e olha que nem eram do meu tempo de criança). Fez pouco caso. Falou que eram da 'era dos dinossauros'. O menino até que tentou, mas não conseguiu manejar o pião. Senti pena. Ele teria ai um bom encontro com o pai - quem sabe com o avô. Ou aprenderia muitas coisas ao usar blocos para construir casas. Já a menino, não sabe o que está perdendo, enfiada em casa a 'brincar' com seu celular. Não sabe o que é jogar amarelinha. Nem pular elástico. Nem pega-pega ou '31'. Nunca vai saber o sabor inegualável de um 'cozinhadinho' de verdade, feito com fogo de verdade e com comida de verdade. Nem do sabor de uma noite sem luz e muitas histórias fantasmagóricas. Muito menos do momento inesquecível de um piquenique. Ou da graça de levar uma rolhada no jogo de 'dorminhoco'. Devem estar faltando risadas...
Meu filho fala que os meninos estão testando seus jogos na tela de LCD ou no novo lap top. Ou deslizando sob patinetes motorizados na garagem do prédio. Que as meninas estão trocando mensagens pelo celular novo. E  - óbvio - não estão falando de bonecas. E eu penso que, se ganharam presentes tradicionais - palavra que desconhecem...devem chamar de 'velhos' - , talvez de avôs e avós menos antenados, estes ficaram debaixo da árvore ou foram deixados em um canto qualquer. Nem sei para quem a televisão está passando 'Branca de Neve e os sete anões'. Talvez seja um presente para as mães...ou avós!
As crianças estão muito ocupadas para assistir e se deliciar.
Mas como disse Carlos Tullio Schibuola, "a infância continua. Os brinquedos é que mudam"!

25 de Dezembro de 2010. Século XXI.
Andei pelas ruas e não achei o espírito de Natal...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

24/12



24 de Dezembro. Para quase todos, um dia especial. Um pré-Natal. Para as crianças, um dia ansioso à espera dos presentes. Para os adultos, dia de correria para ajustes finais da grande ceia, do grande encontro. Para uns, descanso. Para outros, labuta. Para uns, contar os lucros. Para outros tantos,
os prejuizos.
Para mim, que nunca fui muito dada à festas natalinas - ou outras tantas datas impostas pelo calendário ou vontade de quem quer que seja - desde que não acredito mais no tal Papai Noel (eu disse isso? Eu não disse isso!) e nem espero nada debaixo da minha árvore, poderia ser um dia qualquer. Mas não. Longe disso. Essa data tem para mim um belo significado, que não nasceu comigo. Nem me veio com o tempo. Apareceu. Nasceu. Feito lindo dia de sol. Luz. Ganhou um novo significado, muito além da espera da nova boneca. Veio como meu presente maior, que nem precisou de belo papel e coloridas fitas. Veio das palavras, essa paixão que reconheço. Belas palavras. Simples palavras. Um simples brincar com elas - já, talvez, com seu significado. Um brincar atrevido. Um sopro. Aviso. Um diálogo emocionante com a Vida. Um troca de carinho com o Amor. Um marco. Um presente que veio de longe, de leve, penetrante, duradouro, mesmo que não se faça. Mesmo que não se pense. Mesmo que não se acredite. Que não se saiba amado. Simples palavras que mudaram meu mundo. Meu rumo ( ou seria melhor dizer que me deu um?). Deram-me mais confiança. Deram-me mais sentido. Vida. Luz. Alimento. Porquê.
24 de Dezembro. Meu verdadeiro Natal. Natal, diz o nome, vem de nascimento. Eu nasci de novo e nem sabia...

"Todos os dias, quando acordo, vou correndo tirar a poeira da palavra Amor..."
Clarice Lispector


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Ócio



Dia inútil. Todo presente que deveria ser comprado já está guardado ou entregue. Toda compra a ser feita, já encerrada. Todo trabalho que deveria ser feito, já o foi. O armário já foi revisado. A mala, pronta. Toda  a lista de tarefas riscada. Não sei se por minha sensatez de não entrar no parafuso confuso de todos. Ou porque me organizei de tal forma que tudo me coube a tempo. Sinto-me inútil nessa espera insensata. A espera insensata e chata para cumprir as ordens do dia. Ou dos dias, das datas tão imaculadas. Tantos abraços e beijos, tanto desejos decorados. Todas as frases já ditas e escutadas. Repetição da repetição. Um sair automático.
Sento na frente do computador porque sei que algo me entala. Algo me pesa. Espero que, escrevendo, isso me saia. Quero estar leve para esperar o que me vem de novo. O que me espera não é pouco. O que eu espero, infinito. Pode ser a decisão de uma vida. Ou da vida que quero para mim. Chamam isso de esperança - que me lembra a palavra esperar, o que me dá calafrios. Já esperei muito, já esperei demais.
O que mais estou esperando?
Viram? A palavra esperar tem destes percalços. Pode ser coisa boa ou ruim. O esperar alegre de quem se ama. O esperar aflito de quem espera uma notícia. O esperar ansioso de quem espera um neném. O esperar de melhoras do doente. O eterno esperar de que as coisas aconteçam como a gente imagina. Que os sonhos - ou pelo menos alguns deles - se realizem, como diz a música de final de ano. O esperar ser correspondido no que se sente. O esperar que esperem pela gente. O esperar ser reconhecido pelos outros. Esperar ter escolhido o caminho certo - ou pelo menos um bom caminho. Esperar que a chuva passe - ou fique, se for época de seca - que o temporal fique para traz, que o sol reapareça e se estabeleça, enfim. E nisso, nossas chuvas, nossas tempestades - muitas em parcos copos d'agua . Esperar que nosso sol interno brilhe.
Que nos aqueça a alma.
Esperar. A palavra da época - ou só do dia? Palavra que freia, palavra parada, estática ( de movimento, mas não de pensar!) que pede paciência, muita. Pede tranquilidade. Pede abnegação. Pede confiança, toda. Pede força. Plenitude. Positividade. Não é só um repassar de horas. Um tiquetaquear no ouvido. Não. Esperar é ter esperança, palavra que rima com criança. Seria esperar feito criança? Melhor sair do casulo voando feito borboleta...
Enfim... isso posto... só foi mesmo mais um dos tantos desabafar...uma passada pelas letras...

"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa.
Não altera em nada...
Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas.
A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."
(Clarice Lispector)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Querido Noel


Hoje acordei com uma vontade na cabeça que não tenho desde meus seis anos de meninice: escrever uma carta ao Papai Noel. Fico meio encabulada, talvez pela idade, talvez porque ele já tenha tanto trabalho nessa época do ano. Mas, bem da verdade, não custa tentar.
"Querido Papai Noel,
Primeiro queria dar os parabéns pelo fato de você (posso chamá-lo assim?)  estar sempre em forma ( não seria bem essa a palavra correta, mas...) Ou  seria melhor, sempre em alta? Vai ano, volta ano e as pessoas - as crianças, claro, de todas as idades - sempre  lembram de agradá-lo, de uma forma ou de outra. Bom, pelo menos uma vez ao ano. Seu sucesso é o mesmo, mesmo que menos crianças acreditem que Papai Noel exista de verdade. E sempre, mesmo os menos crédulos, acreditam que voce vai, sempre,  lembrar deles. E não deve haver pessoa no mundo que não pense em você pelo menos um  dia ao ano. Bem ou mal, claro. Não precisa se desculpar: sei como é duro agradar gregos e troianos, ricos e pobres. E dentro da máxima do marketing - falem bem, falem mal, mas falem de mim - tua imagem está sempre na mente  - e na boca- das pessoas. Que sucesso, hein? Poderias até dar palestars de auto-ajuda. Mas ninguém o reconheceria de paletó e gravata...Triste dizer, mas sem sua roupa de sempre, bem vindo ao mundo dos ninguém!
Mas até essa sua caracterização, apesar de eu achar ultrapassada e com cara de pijama, tem seu lado bom. Alimenta um verdadeiro batalhão de sósias que arranjam por ai no Natal. Até eu já  fiz o seu papel, pasme! Sempre dá um troco para quem é barrigudo (opa, desculpa, ai!) e tem bela barba branca  (a-d--o-r-o!). Se eu fosse você, montava logo uma franquia.  Assim poderias pagar um belo dublê e ficar na maciota ai pelo Pólo Norte mesmo. Ou seria outro lugar?
Bom, já enrolei demais. É essa minha mania de dar rodeios. Vamos aos fatos: já é quase Natal. As renas já devem estar sendo tratadas, os seus ajudantes a pleno vapor, lendo as cartas de última hora (estariam grudadas também no computador?), mandando para frente os pedidos. Correria, não é mesmo? Aqui  também - pelo menos para quem tem dinheiro. Só estranho que essa época que era para todos estarem mais abertos a um bom sorriso, estão carrancudos e cansados, quando não brigando por qualquer coisa...
Bom, vamos tentar de novo. Meu pedido não é simples. Não tenho nem quero grandes luxos na vida, nem sonhar grandes sonhos, a não ser esse - e outros poucos que posso pedir ao longo do novo ano. Não se acha em loja para comprar (já andei pesquisando pela Internet, só achei montanhas de livros dizendo "você também pode!"). Quero voltar a ser eu mesma. Não exatamente  a menina que te escrevia. Mas aquela que fui, corajosa  e destemida - que tem, sim, um pouco dela. A que se dava o devido valor. A batalhadora, sem medo de nada, a não ser o de não ser feliz.
Achas difícil? Já venho pedindo isso ao Papai do Céu fazem uns anos, mas ele já anda muito ocupado. Talvez eu é que não estou pedindo direito. Ou entendendo as mensagens. Então, estou repassando a tarefa. Nem precisa embrulhar para presente. É tão importante e urgente que nem vou notar o pacote. Será que chega a tempo da ceia? De qualquer forma, já agradeço e prometo deixar um belo lanche, como nos bons tempos de menina.
Grande abraço da loirinha de olhos azuis que te encantou um dia,
Joyce =)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Novo?


 
"Jamais haverá ano novo, se continuar a copiar os erros dos anos velhos."
Luís de Camões


Ler essa frase e saber de sua autoria , choca. Lição tão antiga e tão pouco acreditada, ou pelo menos seguida. E não só em relação a um novo ano. E, sim, ao próximo passo, dentre tantos que damos na vida, num dia, num minuto.
Já falei aqui da minha visão da vida como um enorme e contínio jogo de escolhas. Como numa jogatina, cartas são apresentadas a cada momento e cabe a nós fazer a escolha, feito consulta de Tarô. Junto à frase de Camões a imagem da mesa cheia de cartas não marcadas a uma frase dita por uma amiga - a de que "não são os outros que nos fazem as coisas. Nós é que deixamos que eles nos façam". Paro e penso que estão, todos, certos.
1) Nada é novo se continuarmos a copiar - ou deixarmos acontecer - velhos erros, as cartas marcadas, viciadas, seria o termo certo; no máximo, um reciclado, revisado, mas não novo
2) Sim, a vida pede escolhas a cada momento, e nada mudará se escolhermos as mesmas cartas, os mesmos caminhos que já sabemos onde vai dar. Se fizermos o mesmo jogo, usarmos da mesma estratégia
esperando resultado outro.
Sei bem do que falo. Tenho diploma, mestrado e doutorado nisso. Sou PHD. Sempre vou pelo lado mais confortável - nem sempre para mim, mas para o outro. Devo ter aprendido isso cedo, em casa, sendo a 'queridinha do pai'. A que não teima. A que não apanha - porque nada faz de errado. Já fui mais corajosa, bem mais. Mais peituda. Mas sempre de uma forma extrema, 8 ou 80: não direta, sempre dando voltas, ou grosseiramente seca, impetuosa. O que me colocou no stand by da vida foi o medo. O medo do amanhã. Deve ser , ainda, sequelas de um tempo ruim - que, aliás, me parece cíclico. Organizei as ideias, dei prazos, e ao invés de ir à luta, esperei sentada, confortavelmente sentada no sofá da sala, como se os problemas fossem se resolver a contento. Sózinhos. Por livre e espontânea vontade - do outro, não minha. Ao falar o que queria - e isso eu sempre fiz , bem ou mal - achei que tudo aconteceria.
Já enfrentei cachorro louco, já peguei ladrão na escada, já segurei pai raivoso. Talvez tenha deixado para trás minha coragem. Está ai um bom pedido para o Papai Noel. Ou Yemanjá.




















 






segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Celebrar



"Celebrar quando o plano corre como o esperado? Qualquer um consegue fazer isso. Mas é quando você percebe que a história da sua vida poderia ser contada de mil maneiras diferentes, vezes e vezes sem conta como uma tragédia que você escolhe chamá-la de épica, é que então se começa a aprender
 o que é realmente celebrar.
Quando o que estiver diante dos seus olhos parecer distante, ou diferente do que sonhou e ainda assim você acreditar, tiver ousadia, a coragem de chamar de belo ao invés de erro,
parabéns, isso é celebrar".
(Shauna Niequist, in Cold Tangerines: Celebrating the Extraordinary Nature of Everyday Life)

Li esse pensamento em um blog de uma amiga virtual e querida, que mora além mar. Veio bem a calhar. Ela, que me chama sempre de menina apesar de ser bem mais nova que eu, e de feliz, sendo ela bem mais feliz que eu, já é por si só um celebrar. Um presente que me veio de forma totalmente inesperada. De desafeto para afeto. É a prova viva de que caminhos tortos podem, e geralmente são, mais bonitos. Feito aqueles que traspassam lindas plantações a perder de vista,quem sabe de lavanda.Ou o dourado trigo.
Enfim, saindo de Portugal e voltando ao meu mundinho cão (chiuaua, mas cão), a frase fez em mim morada. Feito poesias, que cismo e mando sem nem esperar respostas da pessoa amada. Ou músicas que ficam cantarolando dentro de mim em minhas longas e silenciosas caminhadas comigo mesma.
Celebrar. Palavra nobre, bonita, festiva. vem de tornar célebre - famoso, ilustre, importante. Que se destingue.Torna um momento importante. Ninguém pensa em coisa ruim quando ouve essa palavra. Celebrar. Desde que tenha um sentido, desde que não seja ela por ela mesmo, celebrar por celebrar. Desde que seja consciente e não dopada pela bebida - coisa que, sabiamnete, não faço faz tempo, por pura escolha de não me fazer incentivadora da vida dos que bebem por beber, dos que bebem para escamotear e não viver. Desde que se tenha um motivo para se orgulhar - aqui no sentido bom da palavra, de se sentir útil, inteiro. Celebrar os erros, inclusive, desde que nos ensinem algo ( e qual não ensina?). Celebrar os acertos, bem diz o texto, é fácil. Celebrar o conquistado e o quase, desde que se tenha a plena certeza de se ter feito o melhor. Ter se entregue por inteiro. Que se tenha amado a contento. E se tenha pelo menos suspeitado em sê-lo. Vivido com vontade. Feito por que se quis e não porque nos disseram para fazer.
Celebrar é palavra forte. Não é um mero comemorar ou 'bebemorar', como dizem por ai. Não um mero contentar-se com o que veio sem se merecer. Não um cumprir de datas nem de dias festivos. Um mero cumprir de tarefas enfadonhas e empurradas.
Fico curiosa e procuro seu significado. A famosa Jabulani significa " celebrar " na língua Bantu isiZulu.E vou além: "celebração é algo que tem muito mais a ver com o coração do que com a razão ", " que não porque, nem data marcada", "podem ocorrer a qualquer momento, em qualquer lugar, por qualquer motivo", " as comemorações agradam ao ego; as celebrações agradam ao espírito". Vindas de um psicólogo, nada mal. Para outros , e mais no sentido religioso, " celebrar significa tornar célebre um determinado momento ou acontecimento da vida. O ato de celebrar faz parte da vida humana, é uma ruptura da rotina cotidiana. O liturgista italiano, Romano Guardini, fala da celebração como dimensão lúdica da vida que extrapola o tempo e o espaço".
Dimensão lúdica. Que tem a ver com o coração. Tornar célebre um momento da vida. Isso é celebrar. Mas que não seja por ser, que seja leal, real, fiel a mim mesma. A tudo que acredito. Amo. E sonho.
Procuro uma imagem para o post - parte melhor e pior do processo -  e acho um blog, uma imagem e uma frase que me diverte por uma irreverência que eu queria ter:

'E se antes um pedaço
Hoje
Quero a fruta inteira'
(michelematta.blospot.com)


Estou rindo. Menos mal.



domingo, 19 de dezembro de 2010

Festas?


Quase verão, quase Natal, quase fim de ano. Quase um 'novo' ano todinho pela frente. E o recomeçar de tudo de novo. O que terá ele de novo?
Essa época não me traz boas lembranças, desculpem-me. Quando pequena - e ainda acreditando em Papai Noel - meu pai se recolhia na noite de Natal. Ficava triste ou fazia-se de. Dizia que não tinha tido bons natais. E nos ensinou isso, apesar da boa vontade de minha mãe a enfeitar a casa, montar o presépio, omprar e esconder os presentes. O antes da dta era muito mais divertido -e  misterioso - que o dia, tentando descobrir os pacotes e o que tinha dentro deles. Minha memória pula, então, para uma noite interminável, suando debaixo de um edredon por puro medo. 'Sentia' o  barbudo entrando no quarto, 'andando' pela casa. E eu, ali, dura. Petrificada. Em contraste com a  manhã do dia 25 e com a nossa alegria ao achar os presentes, fossem eles o que fosse.
E ver que, sim!, o 'bom velhinho' tinha comido todo o lanche.
Já do dia 31, o 'da virada', pouca lembrança a não ser os fatos 'raros':  meu cachorro sumindo por causa dos fogos ( achei-o dias depois sob o forro do telhado da casa de praia); uma tempestade que quase levou o telhado da casa (só não o fez porque os 'machos da casa', incluindo eu , seguramos, literalmente); os fogos caindo sobre o capô de meu primeiro carro ( e eu, desesperada, tentando apagá-los). Minha alegria vinha do tradicional porre, quando ainda se acha alguma graça em se entorpecer.
Com a chegada de meu filho - e da tão esperada por muitos formação de familia - tentei agradar. Enfeitei pinheiros, montei presépio (o da minha mãe, 'emprestado'), mantive a tradição do "presente só no outro dia", mesmo com a outra avó dando tudo na noite anterior. Fiz o que deu até onde deu. E colhi bons frutos - e boas lágrimas. Hoje ele nem quer mais que eu enfeite a casa. Eu gosto, mas tem que ter um porquê. Quem sabe quando eu for avó, penso. Quem sabe até lá eu me refaço desse cansaço.
No ano novo , sempre a mesma coisa. Como se fosse tudo obrigado. Ensaiado. Tirando os fogos, que amo, nada mais nessa data me deixa encantada. Nem  o pular das sete ondas, nem o comer de lentilhas,
nem os presentes à Yemanjá.  
O fato é que a gente se entorpece nestas datas, ritualiza sem nem pensar - apesar de ter passado o dia todo em função disso, estar morta de cansada e disfarçando com um sorriso colado. Apesar de ter tido momentos não muito agradáveis durante o ano, quem sabe durante o próprio dia.
Mas sorrindo, sempre, apesar dos pesares.
Essa semana chega o verão e o Natal. Mas meu pensamento está só na viagem de meu filho. Tanto faz se a casa terá guirlanda - que ainda nem montei. Tanto faz se terá ceia ou não. Meu Natal será estar ao lado dele. No ano novo ele vai estar longe, vivendo seu sonho. E eu ? Sei que esse ano eu tenho o que comemorar. Concordem as pessoas ou não, cresci. Não voei como esperava. Mas dei passos que merecem ser lembrados. Mesmo sem nem saber bem para onde ir. Ainda.
Se eu encontrasse paz já estava de bom tamanho...

sábado, 18 de dezembro de 2010

Dá-lhe!



Mais de uma semana sem escrever. Os motivos foram muitos. Uma internet nada acessível, a falta de um silêncio exterior compreensivo e a sobra de um silêncio interior que me oprimiu e me deixou quieta. Milagre, diria quem me ama. Eu, quieta, é porque a coisa realmente não está bem. E para completar, eu, sim, eu mesma, sem apetite. Caso de internação? Foi como se meu inferno astral tivesse se agravado. Mas não era para terminar no dia do aniversário, para muitos o verdadeiro ano novo de cada um? Quando isso acaba, meu Deus? Ai me vêm aquelas ideias um tanto inválidas para os um tanto céticos: banho de sal grosso, benzedura, benção. Passe. Rezadeira.
Será? Isso em fez lembrar algo, se muito, engraçado. Ganhei um colar de minha irmã, belíssimo, cheio de medalhinhas de Espírito Santo (escrevo em maiúsculas, sei não se do contrário não seria falta de respeito...), uma de cada cor. Na rua, só dava ele. Cansei de cruzar com fusilantes olhares invejosos. Não tive dúvida: entrei na Matriz e abençoei-o, eu mesma, com água benta. Pedi proteção. Não adiantou. Mal encontrei com conhecidas - ou nem tanto - e lá se foi a  mãozinha sujinha delas nas medalhas. Deu vontade de gritar: "brasileiras de plantão, olhai com os olhos!". Senti como se a força dada pela benção tivesse se esvaído. Medo ou superstição?
Fim de ano se aproxima e minha mente não pára. Passaram-se dois anos do que pensei ser o crescer de mim mesma, e nada aconteceu. Pior, piorou, e muito. Sinto- me fraca. Inútil. Usada. Cá estou eu, de volta ao "lar", e a cada minuto a coisa aperta.  Os valores mudam, mesmo aqueles que lutei para conseguir. Uma luta injusta. A indiferença, a ofensa, a invisibilidade de sempre. O pouco valor. Não há sossego, penso. Não aqui. Não vejo nenhuma ilha no meio deste mar revolto, a não ser meu porto. Espero ter folego para poder chegar ao meu cais...
Então, relembro as palavras vinda de uma conversa colhida do acaso: "só me fizeram - e fazem - o que me deixo fazer". Tapa na cara. Aceito. Mereço. E me sinto um pouco melhor por ter materializado tudo isso nesse postal.







sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

10/12


Fazer aniversário é uma coisa estranha. Quando pequenos, ainda sonhamos alto, com festinhas surpresas, presentes não esperados. Como se o dia fosse uma porta aberta para o inesperado, como se a partir dele fosse  uma nova vida. Feitos o último dia do ano, quando temos pela frente outros tantos e estamos cheios de esperança.Os anos passam, e a graça se perde, dissolvida pelo mero passar dos dias.Acho que eu, na minha infância presa à pele, ainda espero a sala cheia de balões.
Mas o que dizer do dia de hoje? Puxando minha mãe  - e todo sarcasmo existente no signo dela, escorpião, e no meu - sagitário - vem como comédia , um ri-se de si mesmo - faço lembrar que hoje, dez de dezembro , é o dia do palhaço. Sim, isso existe e acho de belíssima causa. Existem tantos dias disso e daquilo, tanta coisa inútil - como dia da sogra (brincadeirinha ...) . Porque não o dia do palhaço? Esse ser que vem ao mundo - ou pelo menos ao picadeiro - para nos fazer rir, mesmo com seu choro? E eu que era fã incondicional do Carequinha - com direito a disco rodando na vitrola e tudo - acho a maior graça. Encantam-me até hoje. Há neles um que de despojamento, de fascínio, de mistério, como se lessem nossa mente e tirassem dela qualquer sofrimento, mesmo que momentâneo.
Dez de dezembro de 2010. Dia qualquer, de coisas boas e também ruins. Faz 62 anos que a humanidade criou num certo 10 de dezembro a Declaração Universal dos Direitos Humanos (pela ONU). E implanta-se o serviço militar obrigatório no Brasil (1916). E Dez de Dezembro é um álbum da já falecida Cassia Eller. E anúncio do primeiro Prêmio Nobel (1901), em homenagem a morte de seu inventor, Alfred Nobel, cinco anos antes. Em 1930, descobrem-se os tipos sanguíneos, que viraram assunto até de dieta. E 23 anos depois, sai a primeira revista Playboy.
Eu? Eu nasci nos ditos anos 1960. E na primeira fase, dita inocente. Nasci no meio do sonho do rock de garagem e da vanguarda brasileira. Dos Beatles em sua fase doce do "I want to hold your hand" . Da figura emblemática de Jacqueline (adivinhem meu segundo nome, assim mesmo, com 'c' antes do 'q, coisa que pronuncio há mais de 40 anos...) Kennedy, mudando os rumos do papel da mulher e de seu guarda-roupa. E também do governo trabalhista de João Goulart. A contracultura, o feminismo, os discursos a favor de negros e homossexuais, o movimento hippie, a revolução cubana, vieram depois, quando eu 'já' brincava de bonecas. 
Ah, e algo da qual me orgulho - e me entendo. O nascimento de Clarice Lispector, em dez de dezembro de 1920  (isso explica tanta coisa...). Um gênio, para o bem e para o mal. Como se vê , um dia que não é pouca m... E, assim, de extremos, como já era de se esperar, como sou. Por isso, escrevo, para ver se me acho mais pelas beiradas dos caminhos. Ou pelo menos entendo algo. Ou tento. Mas como já disse a grande dama, lá pelas tantas de uma vida toda entregue às palavras:
"  Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro."
Como eu...

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Ok!



Ouvi no rádio do carro, enquanto andava "pra cima e pra baixo" na correria do dia: a expressão OK é a mais usada no mundo. Segundo o linguista Allan Metcalf, autor do livro “OK”, ela é a invenção mais sensacional da língua inglesa, e é difícil explicar por que é tão bem sucedida.
E continua:  “Oquei”, a palavra “mais falada e digitada do planeta”, surgiu como uma piada. Foi como uma brincadeira que um jornal de Boston criou, em 1839, a expressão “O.k.”, que designava “tudo certo” e que se propagou a ponto de ser reconhecida hoje em qualquer parte do mundo.
Seu sucesso, segundo ele, vem da facilidade de pronúncia e do próprio som, fáceis, na maioria das linguas faladas na terra.  Ah, e da  equilibrada mistura de uma letra redonda com uma pontiaguda.
Eu já ouvi falar em "Orders off the King", que não teria outra conotação a não ser impor algo. Ou até "zero kill", ou seja, zero de baixas numa guerra, durante a Guerra de Secessão, nos Estados Unidos. O que seria muito bom. De um ou de outro, resta, pelo menos a mim, a sensação da língua de fora dentro de nós. Uso pouco, não em parece intima o bastante. Como tantas e tantas que nos vemos quase que obrigados
a falar em nosso dia-a-dia. E que nos deixa , por vezes, pedante.
Metcalf fala da mania de um jornal de Boston, que usava no sentido de " all correct". E de nada menos de que 18 dessas versões, tanto nos Estados Unidos quanto em outros idiomas, até uma variação de “okeh”, um termo indígena usado pela tribo choctaw como "está certo", no fim das frases. E vai mais longe, muito mais:  diz que ela é “a resposta americana a Shakespeare. É uma filosofia inteira expressa em duas letras”. Pobre Shakespeare ter que ouvir isso...Liga, não, mestre. Americano tem essa mania de tomar tudo para si - mas só as glórias! 
Não sei se a coisa vai assim tão longe, ou se é mais um exemplo de que qualquer assunto pode virar um livro  de autoajuda (sim,esse se intitula como tal), o que para mim só ajuda a ele mesmo, autor, como tantos e tantos outros, a encher os seus bolsos de dinheiro. Talvez fosse, pois, independente de onde vem, o ok me parece bem positivo. Ou pode vir no sentido de que sempre abreviamos as coisas, como se estas duas simples letras, juntas, desenvolvessem um texto complexo. Um tema a ser tratado. Um tratado. Tese de doutorado. Um livro. Quem sabe um best-seller? Vai saber. Já se tem tanta inutilidade por ai...
Ok, ok, só estou no meu inferno astral...





quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Regressiva



Quarta, 8 de dezembro, exatas 23:29h, marca em meu inseparável relógio laranja. Mais um dia de correria, como se cada dia fosse o último. Porque somos - sou - assim?
Não, não posso reclamar. Consegui muito do meu dia. Caminhei, e  na nada breve caminhada, achei uma amiga que vai me ajudar em meu TCC.  Levei uma torradinha básica por causa do sol. Bom, penso eu, perco essa cara desbotada. Dei atenção ao filho de férias - e prestes a fazer a viagem dos sonhos. levei-o ao médico. Ao lanche. Segurei-me diante da vitrine de doces. Sentei com ele a ver televisão, brincar com o cachorro, nosso "namoro" diário. E estou, mais uma vez aqui, trabalhando em prol das minhas coisas, as que acredito, e já "pré-ocupada" com o dia de amanhã. Literalmente, não daqueles devaneios futuristicos incertos. O dia de amanhã promete. Sei que tudo vai dar certo, mas não confio na memória e faço uma de minhas quase diárias listas. Delas, meu gosto e sossego na hora de riscar cada ítem, cada um como um prêmio, um alívio.
Ando cansada, físico, mental e espiritualmente falando. Difícil passar por um inferno astral nessa época que já é um inferno. Difícil fazer aniversário em mês tumultuado. Devia ser proibido. Uma porque se ganha só um presente na infância. Ou um menor, bem menor, pelo aniversário, na promessa, lenta, de se ganhar mais um, quem sabe melhor, no Natal. E festinha, nem pensar. As aulas da escola já acabaram, como as chances de receber muitos abraços. Deve ter sido assim, nem me lembro. Bom,  pior que o meu dia, só o da Aline, menina querida, que nasceu adiantada e caiu do céu bem no dia 24. E lá fui eu e uma amiga  terminar o quarto da apressadinha que chegou adiantada. Sempre brinco que deveria ter se chamado Natália, mas ai  consagrava de vez a "sacanagem" do dia.
Mas, relembro, amanhã é quinta-feira. Sim, o dia vai ser corrido. Mas logo chega a noite, eu embarco em meu ônibus de sempre, no horário de sempre e chego ao meu Porto. Uma rotina que, ao contrário de muitas, não me oprime. Muito pelo contrário: liberta. Deixa-me leve. Então, respiro fundo e  me digo por dentro: coragem! Nessa altura do dia, nem pensar em falar isso olhando o espelho...
Amanhã é quinta, depois vem sexta, meu dia. Dia estranho. Aí é outra coisa. Aí quem sabe me sobra tempo para me viver.
Dizem que o ano da gente começa no aniversário...

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Dubia



Estou sem escrever fazem alguns dias. Não por falta de assunto, não, muito pelo contrário. A cabeça borbulhante demais não me deixou escolher os temas dos dias. Até os momentos vulcânicos, onde as palavras vieram para queimar as minhas entranhas, serviram-me, e muito.  No choro não contido,
mais que desabafo, lava de ideias.
Parei mais uma vez para pensar, feito criança ou adolescente, o que quero ser quando crescer. Quando o papel de mãe não se fizer mais tão necessário - alivio de quem sabe que fez a coisa certa. Quando eu puder, enfim, escolher meu caminho, ou o de falsas flores que escondem espinhos, ou o de espinhos que escondem verdadeiras flores. Arquitetura ou jornalismo? Quem sabe professora?  Ou, bem antes disso,
interessada estudante? (Isso sou, de tudo e de nada).
Refiz mentalmente meus passos, desde o dia que escolhi, por conta e risco próprios, fazer arquitetura. Meu sonho era desenho industrial, e na cidade onde hoje sonho em morar, atracar de vez meu barco aventureiro. Fui parar em outra que se fez meu paraíso por anos.  E desde os primeiros trabalhos entregues, muita criatividade...e muita lábia. Penso que já existiam em mim a Joyce das formas e a Joyce das palavras.
É, reconheço, arquitetura me encanta, feito poesia concreta. Seus detalhes, retrato do bem feito, do bem pensado, do antes sonhado. Mas não essa parca, copiosa, retrato de mesmice reinante, não. Falo da grande arquitetura, a que fica, a que nunca vai morrer. Dos gaudis aos niemeyers. Melhor dizer do Gaudí ao Niemeyer, porque esses não serão nunca copiados a contento. E tantos e tantos outros, poetas do espaço, que nem ouso começar a citar. Talvez esteja ai, na minha forma de ver uma a razão da outra. Talvez seja a verdadeira arquitetura meu templo de crítica e leitura. Talvez tenha vindo dai minha  forma de expressão maior, a que me faz tão bem: palavras. Entender o mundo, o porque das coisas, esse caminho sem volta em que me meti, agora, de vez.
O que quero ser quando crescer? O que me vier. E que me venha de bom grado...

(Teto da St. Mary's Church, Pirna, Germany, 1502-46, do álbum da designer Beatriz Sempere)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Pedido



Quinta, final de tarde. Semana sim, semana não, meu ritual é o mesmo. Café da tarde com o filho, depois banho demorado, arrumação final da mala - com a  dúvida de sempre: será que vai estar frio ou calor?. Depois, novelinha com filho e cachorro,  revisões das coisas, despedidas, táxi, rodoviária. Ónibus, ajeitar-se e esperar as horas passarem. No caminho - pelo menos no início, enquanto o sono não chega para acalentar - vou revisando meus planos do dia seguinte. A chegada - que nunca se sabe a hora - a cidade que aprendi a amar, o dia passado meio sonâmbulo, rever os colegas, assistir a aula.
Ritual do ano, esse. Estou nesse vai e volta desde abril, quando, enfim, abriu a turma de branding. Nos primeiros momentos  a tensão de ser bem aceita. E a cada bloco,a  cada novo professor e assunto, frio na barriga. Dizem até os mais sabidos que é assim mesmo.
Comigo sempre foi, com tudo que me é novo. Adoro coisas novas. Adoro novidades. Adoro viajar. Conhecer pessoas, fazê-las imprescindíveis. É como se eu trocasse de país. A cidade grande que parece pequena me recebe sempre muito bem. Sempre alegre, esperançosa, calorosa - eu e ela - mesmo sob forte chuva. E sim, a cada fim de semana lá aproveito para conhecê-la, desvendá-la. Desnudá-la. Ou seria o contrário? Vou ao seu centro, caminho por suas ruas novas ou antigas, namoro seus prédios  e vistas. Ouço seu sotaque, já caseiro para mim. Já bati namorei o rio. Já comi salada de fruta no mercado. Já vi o pôr do sol "mais lindo do mundo", de um camarote perfeito, o terraço da Casa da Cultura - melhor dizer "casa de Mário Quintana" - onde ainda vou fazer aula de dança. Já me apaixonei pela Feira do Livro e seus 56 anos de experiência. Já conversei com Quintana e Drummond.Já tomei café no 'cofre' (ah, isso é uma longa história) . Já comi "cacetinho" ( outra longa história...). Já pedi a benção a minha Mãe Oxum.
Falta, ainda, muita coisa, ainda bem. Falta, bem sei, comprar uma 'alpargatas' (quem é gaúcho, sabe). E tomar um "chima", apelido do tão famoso chimarrão, quem sabe na praia de Ipanema (sim, estou em "Porto" ainda, não se espantem). Falta conhecer o Tristeza, bairro super alegre, como já me disseram. Falta falar "mas, bah, tchê", mas isso já tem me escapado, diz meu filho.
 Ah, e comer um churrasco, disso não vou escapar.
Mas, calma,  tenho tenho tempo. Falta ainda um ano de curso. Um ano de vai e vem, de partidas e chegadas. De belas recebidas. De renovadoras estadas. De doídas partidas.  Esperta, tenho me deixado aos poucos por lá. Meu jeito, meu cheiro, meu sorriso. Meu carinho benquisto. Nas ruas por onde passo, nos contatos que faço, nas amizades que fiz  e outras tantas  a fazer. Meu time eu já escolhi. Quem sabe me chamam  de guria? Quem sabe a cidade me vê assim, apaixonada,  e me pede para ficar..
Só me resta esperar...

Deu pra ti
Baixo astral
Vou pra Porto Alegre
Tchau!

Quando eu ando assim meio down
Vou pra Porto e bah! Tri legal
Coisas de magia, sei lá
Paralelo 30

Alô tchurma do Bonfim
As gurias tão tri afim
Garopaba ou Bar João
Bela dona e chimarrão

Que saudade da Redenção
Do Fogaça e do Falcão
Cobertor de orelha pro frio
E a galera do Beira-Rio
(Deu pra ti, Kleiton e Kledir)


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Toda



Ontem foi um dia estranho. Atípico. Minha empregada não veio . Até ai tudo bem: ela tinha avisado e eu até gostei da novidade. Brinquei de casinha como quis e como pude. Fiz tudo tão rápido que até assustei. Depois, meu carro estragou, me deixou na rua enquanto chovia. Chamei o seguro, que mandou o guincho, e eu ali, na chuva. Voltei a pé, até curtindo minha boa sorte: meu filho já estava em casa, eu já havia adiantado o almoço, tudo certo. Senti-me abençoada. Nada de mal me acontecera que não pudesse ser contornado.
Mas a tarde trouxe chuvas - bem  mais fortes que a da manhã que já me encharcara. A espera por notícias, a conta do carro, as mudanças de planos numa semana que se faz curta, as tarefas se acumulando, notícias nem um pouco esperadas, desavenças, decepção comigo mesma -  essa a pior coisa a ser tratada. Eu que elogiara e fizera ponderações sobre meu anjo da guarda, senti-me fraca. Inútil. Porque somos assim? Porque sou assim, melhor dizer -  melhor não definir-me como todos, não seria justo com ninguém. Tempestade em copo d'água. Por vezes em pingos. Como se guardássemos os pingos represados e os soltássemos, todos, de uma só vez. E vai entender, quem vê de fora! E vai entender quem não tem nada a ver com nossas mágoas, estas que vêm à tona sem serem esperadas?
Sinto-me como uma represa. De um lado, calmo lago. De outro, uma profusão de energia, da boa ou nem tanto. No meio disso, eu, e essa minha "fantástica fábrica de emoções". Movendo dínamos que bem poderiam ser utilizados só para coisas boas. Vai-se represando, represando e quando a coisa aperta, quase transborda, corre-se para abrir as comportas, todas juntas, sem nem pensar na enchente que virá.
Sem nem prever os estragos pelo caminho.
Olho para os lados e vejo como nos descabelamos por coisas rasas. Como me descabelo, desculpem. Muitas vez só noto isso depois de magoar quem nem precisava. Ou a mim mesma, sem nem precisar. Sem nem merecer. É esse humor vacilante. Essa energia oscilante. Hora sou uma, hora sou outra, ora bolas. E nem me venha com esse papo de inferno astral. Nem de cansaço de final de ano. Nem de hormônios. Muito menos de TPM. Sou assim mesmo, imprevisível. Tempestade de verão.
Sou meio Clarice. Ou toda...

Sou como você me vê,
posso ser leve como uma brisa,
ou forte como uma ventania,
depende de quando,
e como você me vê passar.