sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

10/12


Fazer aniversário é uma coisa estranha. Quando pequenos, ainda sonhamos alto, com festinhas surpresas, presentes não esperados. Como se o dia fosse uma porta aberta para o inesperado, como se a partir dele fosse  uma nova vida. Feitos o último dia do ano, quando temos pela frente outros tantos e estamos cheios de esperança.Os anos passam, e a graça se perde, dissolvida pelo mero passar dos dias.Acho que eu, na minha infância presa à pele, ainda espero a sala cheia de balões.
Mas o que dizer do dia de hoje? Puxando minha mãe  - e todo sarcasmo existente no signo dela, escorpião, e no meu - sagitário - vem como comédia , um ri-se de si mesmo - faço lembrar que hoje, dez de dezembro , é o dia do palhaço. Sim, isso existe e acho de belíssima causa. Existem tantos dias disso e daquilo, tanta coisa inútil - como dia da sogra (brincadeirinha ...) . Porque não o dia do palhaço? Esse ser que vem ao mundo - ou pelo menos ao picadeiro - para nos fazer rir, mesmo com seu choro? E eu que era fã incondicional do Carequinha - com direito a disco rodando na vitrola e tudo - acho a maior graça. Encantam-me até hoje. Há neles um que de despojamento, de fascínio, de mistério, como se lessem nossa mente e tirassem dela qualquer sofrimento, mesmo que momentâneo.
Dez de dezembro de 2010. Dia qualquer, de coisas boas e também ruins. Faz 62 anos que a humanidade criou num certo 10 de dezembro a Declaração Universal dos Direitos Humanos (pela ONU). E implanta-se o serviço militar obrigatório no Brasil (1916). E Dez de Dezembro é um álbum da já falecida Cassia Eller. E anúncio do primeiro Prêmio Nobel (1901), em homenagem a morte de seu inventor, Alfred Nobel, cinco anos antes. Em 1930, descobrem-se os tipos sanguíneos, que viraram assunto até de dieta. E 23 anos depois, sai a primeira revista Playboy.
Eu? Eu nasci nos ditos anos 1960. E na primeira fase, dita inocente. Nasci no meio do sonho do rock de garagem e da vanguarda brasileira. Dos Beatles em sua fase doce do "I want to hold your hand" . Da figura emblemática de Jacqueline (adivinhem meu segundo nome, assim mesmo, com 'c' antes do 'q, coisa que pronuncio há mais de 40 anos...) Kennedy, mudando os rumos do papel da mulher e de seu guarda-roupa. E também do governo trabalhista de João Goulart. A contracultura, o feminismo, os discursos a favor de negros e homossexuais, o movimento hippie, a revolução cubana, vieram depois, quando eu 'já' brincava de bonecas. 
Ah, e algo da qual me orgulho - e me entendo. O nascimento de Clarice Lispector, em dez de dezembro de 1920  (isso explica tanta coisa...). Um gênio, para o bem e para o mal. Como se vê , um dia que não é pouca m... E, assim, de extremos, como já era de se esperar, como sou. Por isso, escrevo, para ver se me acho mais pelas beiradas dos caminhos. Ou pelo menos entendo algo. Ou tento. Mas como já disse a grande dama, lá pelas tantas de uma vida toda entregue às palavras:
"  Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro."
Como eu...

Um comentário:

  1. Feliz Aniversario de todos os modos que isso puder ser, virtualmente ou realmente.
    Voce merece!
    Bjs
    Maria Alice

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