quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Ócio



Dia inútil. Todo presente que deveria ser comprado já está guardado ou entregue. Toda compra a ser feita, já encerrada. Todo trabalho que deveria ser feito, já o foi. O armário já foi revisado. A mala, pronta. Toda  a lista de tarefas riscada. Não sei se por minha sensatez de não entrar no parafuso confuso de todos. Ou porque me organizei de tal forma que tudo me coube a tempo. Sinto-me inútil nessa espera insensata. A espera insensata e chata para cumprir as ordens do dia. Ou dos dias, das datas tão imaculadas. Tantos abraços e beijos, tanto desejos decorados. Todas as frases já ditas e escutadas. Repetição da repetição. Um sair automático.
Sento na frente do computador porque sei que algo me entala. Algo me pesa. Espero que, escrevendo, isso me saia. Quero estar leve para esperar o que me vem de novo. O que me espera não é pouco. O que eu espero, infinito. Pode ser a decisão de uma vida. Ou da vida que quero para mim. Chamam isso de esperança - que me lembra a palavra esperar, o que me dá calafrios. Já esperei muito, já esperei demais.
O que mais estou esperando?
Viram? A palavra esperar tem destes percalços. Pode ser coisa boa ou ruim. O esperar alegre de quem se ama. O esperar aflito de quem espera uma notícia. O esperar ansioso de quem espera um neném. O esperar de melhoras do doente. O eterno esperar de que as coisas aconteçam como a gente imagina. Que os sonhos - ou pelo menos alguns deles - se realizem, como diz a música de final de ano. O esperar ser correspondido no que se sente. O esperar que esperem pela gente. O esperar ser reconhecido pelos outros. Esperar ter escolhido o caminho certo - ou pelo menos um bom caminho. Esperar que a chuva passe - ou fique, se for época de seca - que o temporal fique para traz, que o sol reapareça e se estabeleça, enfim. E nisso, nossas chuvas, nossas tempestades - muitas em parcos copos d'agua . Esperar que nosso sol interno brilhe.
Que nos aqueça a alma.
Esperar. A palavra da época - ou só do dia? Palavra que freia, palavra parada, estática ( de movimento, mas não de pensar!) que pede paciência, muita. Pede tranquilidade. Pede abnegação. Pede confiança, toda. Pede força. Plenitude. Positividade. Não é só um repassar de horas. Um tiquetaquear no ouvido. Não. Esperar é ter esperança, palavra que rima com criança. Seria esperar feito criança? Melhor sair do casulo voando feito borboleta...
Enfim... isso posto... só foi mesmo mais um dos tantos desabafar...uma passada pelas letras...

"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa.
Não altera em nada...
Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas.
A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."
(Clarice Lispector)

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