terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Saldo


Ainda dentro do tema Felicidade. Ser feliz, melhor dizer. Até porque acho duas coisas bem diferentes. Felicidade, para mim, é bem mais complexa. E tem me parecido inatingível, apesar de ter virado lei.
Estar feliz é mais fácil. Pode - e geralmente vem - de um imprevisto. Pode ser uma sessão de cinema com filho. Um sorvete em hora não esperada. Um sabor. Um olhar. Um perfume que nos lembra alguém. Beijo na testa. Carinho do amado. Abraço apertado. Conversa animada. Troca de gentilezas. Palavras bem ditas e bem escutadas. Um bom livro - melhor ainda se muitos deles, ali, a nos esperar, feito amigos. Noite bem dormida. Namorar. Beijo não esperado. Sentir o sol na pele. O suor depois da caminhada. O saber do dever cumprido. Água na sede. O efeito do bem falado ou bem feito. Do bem entendido.
Amar e ser bem amado.
Já ser feliz é mais complicado. Vem das certezas de dentro da gente de ter feito - amado, falado, dado - o nosso melhor. Isso ninguém tira. Do que realmente somos, e não essa carapuça que colocamos, vez por outra, para nos proteger ou fugir de todo mal. Um somatório de coisas muitas vezes impossíveis, apesar de tão sonhadas - e nunca sonhadas sozinhas. Do ser amado, do amar, do se amar - assim, como se é, um poço de defeitos compreensíveis. Ser humano não é assim tão fácil. E não sabe se ser sozinho. Caixa de dúvidas, de incertezas. Na verdade, somos mais decepção que honra. Somos mais esperar que se adiantar. Receber que dar. Por isso amamos tanto os cães. Fiéis, apesar de nosso 'mal - tratos', físicos ou emocionais. Intuitivos, sabem quando é hora de silenciar e de agradar. Por vezes, acho que nos compreendem mais que nós a nós mesmos...
Ah, os cães, grandes mestres. Contentam-se com pouco. Basta uma dormida ao sol, uma caminhada na quadra, umas cheiradas por ai, uma aventura acolá. Uns goles dágua e um mínimo de ração. São felizes. Nós, não. Sempre queremos mais. Das pessoas, das coisas, de nós. A tal ambição, que por vezes nos afoga. Os sonhos que muitas vezes nos cegam. O não alcançado, que muitas vezes nos derruba. Por isso volto à minha teoria. Não seria melhor largar teorizações e desejos, tantos, e viver um ser mais simples? Que diferença faz uma sandália a mais? Basta olhar a leveza dos pescadores. Acordam com o sol  (ou será que são eles que o acordam?). Vão ao mar, não sem antes o contemplar. Não sem antes dialogar, filosofar. Ler nas entrelinhas das ondas, nuvens e vento. Entender. Aceitar. Silenciar. Saber esperar. Roupas de ontem, sandálias gastas, conversas de bar. Peixe com farinha, um pirão para variar. Limãozinho do terreno. Verdurinha da horta. Para que mais? Ser feliz pode até pedir mais. Mas eles não deixam de dormir. Não tomam remédios para relaxar. Não sentem inveja de ninguém. Não choram por outrem. Riem por qualquer coisa, porque sabem que faz bem. E tem sempre um sorriso largo e uma boa história para contar.
Às vezes - aliás, muitas - me 'vejo' em meio a eles. Casa simples, vista para o mar. Eles a pescar, eu a analisar. Escrever. Descrever. Desenhar. Mas nunca caraminholar. Fartura, só a de viver. Simples. Sem ter que. Sem tanto sofrer. Sem tanto a errar. Porque a vida tem me mostrado que somos sempre lembrados pelos erros e defeitos, nem sempre pelo que somos e pelos acertos, menos ainda pelas tentativas, quase sempre vãs. O saldo, no final das contas, sempre dá negativo. Por mais que se queira, tão somente, acertar.

Se meus joelhos
Não doessem mais
Diante de um bom motivo
Que me traga fé
Se por alguns
Segundos eu observar
E só observar
A isca e o anzol
Ainda assim estarei
Pronto pra comemorar
Se eu me tornar
Menos faminto
E curioso
Curioso...
O mar escuro
Trará o medo
Lado a lado
Com os corais
Mais coloridos...
Valeu a pena...
Sou pescador de ilusões...

Se eu ousar catar
Na superfície
De qualquer manhã
As palavras
De um livro
Sem final

Valeu a pena
Sou pescador de ilusões...

(Pescador de Ilusões, O Rappa)

































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