quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Toda



Ontem foi um dia estranho. Atípico. Minha empregada não veio . Até ai tudo bem: ela tinha avisado e eu até gostei da novidade. Brinquei de casinha como quis e como pude. Fiz tudo tão rápido que até assustei. Depois, meu carro estragou, me deixou na rua enquanto chovia. Chamei o seguro, que mandou o guincho, e eu ali, na chuva. Voltei a pé, até curtindo minha boa sorte: meu filho já estava em casa, eu já havia adiantado o almoço, tudo certo. Senti-me abençoada. Nada de mal me acontecera que não pudesse ser contornado.
Mas a tarde trouxe chuvas - bem  mais fortes que a da manhã que já me encharcara. A espera por notícias, a conta do carro, as mudanças de planos numa semana que se faz curta, as tarefas se acumulando, notícias nem um pouco esperadas, desavenças, decepção comigo mesma -  essa a pior coisa a ser tratada. Eu que elogiara e fizera ponderações sobre meu anjo da guarda, senti-me fraca. Inútil. Porque somos assim? Porque sou assim, melhor dizer -  melhor não definir-me como todos, não seria justo com ninguém. Tempestade em copo d'água. Por vezes em pingos. Como se guardássemos os pingos represados e os soltássemos, todos, de uma só vez. E vai entender, quem vê de fora! E vai entender quem não tem nada a ver com nossas mágoas, estas que vêm à tona sem serem esperadas?
Sinto-me como uma represa. De um lado, calmo lago. De outro, uma profusão de energia, da boa ou nem tanto. No meio disso, eu, e essa minha "fantástica fábrica de emoções". Movendo dínamos que bem poderiam ser utilizados só para coisas boas. Vai-se represando, represando e quando a coisa aperta, quase transborda, corre-se para abrir as comportas, todas juntas, sem nem pensar na enchente que virá.
Sem nem prever os estragos pelo caminho.
Olho para os lados e vejo como nos descabelamos por coisas rasas. Como me descabelo, desculpem. Muitas vez só noto isso depois de magoar quem nem precisava. Ou a mim mesma, sem nem precisar. Sem nem merecer. É esse humor vacilante. Essa energia oscilante. Hora sou uma, hora sou outra, ora bolas. E nem me venha com esse papo de inferno astral. Nem de cansaço de final de ano. Nem de hormônios. Muito menos de TPM. Sou assim mesmo, imprevisível. Tempestade de verão.
Sou meio Clarice. Ou toda...

Sou como você me vê,
posso ser leve como uma brisa,
ou forte como uma ventania,
depende de quando,
e como você me vê passar.

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