domingo, 30 de janeiro de 2011

Viva!




Li e reli. E guardei em mim, como vários textos que entram pelos meus olhos e  fazem morada em mim. 'O ato gratuito', crônica, mesmo que incerta de gênero como diz sua própria autora, Clarice Lispector. E apresentado por nada menos que Nilton Bonder, outro que aprendi a amar. Meus lados feminino e masculino de bem escrever.
Ato gratuito fala de uma escolha que vem do nada. Algo sem causa conhecida e de consequências imprevisíveis, conforme a autora. Um oásis de não cobrar em um mundo onde tudo se paga, onde tudo tem seu preço. Dai seu nome.
Eu designo de chamado. Quem sabe uma cortesia da vida. Um cansaço, diz ela. Eu falo em reparação - aqui , nos dois sentidos que lhe cabem, o de ver com bons olhos e profundos olhos; e o de reparar erros falhas. Preencher vazios, repor esquecimentos. O ato em si de Clarice  veio de uma inexplicável sede de liberdade. O meu vem de fome, dividida em muitas. Como se gozasse essa liberdade da qual ela fala aos poucos, degustando, apreendendo sabores. Matar a sede sem se afogar.Vem do caminhar pela noite dita perigosa  e ver nela bem mais que fantasmas: sentir seu ferscor, contar estrelas ( elas estão lá toda as noites...porque não as vemos?). Ouvir o sapo-martelo em sinfonia, a coruja defendendo território. Sentir a areia gelada nos pés descalços, pisando negros espaços. Passear por dentro da água gelada  do mar, ouvindo seu cantar ritmado de vem - e - vai de espumante. Tomar banho de lua. Ouvir com novos ouvidos, olhar com novos olhos - ou voltar a fazê-los feito menina que descobre o mundo.  E só. É incrível como a beira do mar, nesta hora, se faz silêncio, enquanto o gigante redesenha paisagens. Se faz amiga. Receptiva. Cúmplice. O mundo tendo muito o que falar e eu muito a escutar. Meu ato - ou tantos - gratuito.  
Clarice fala de ato gratuito. Tenho, muitos. Tomo-os para mim desde pouco, desde que reaprendi a viver. Desde que tento me reconhecer, recomeçar, voltar a ser o que sempre fui. Ela fala em preços. Ele, Milton, fala de um previsível onde vamos cheios - de expectativas, de esperanças -  e voltamos vazios. E de um imprevisível , onde vamos vazios e voltamos repletos. Assim sou. Sempre falei em felicidade como pílulas de imprevistos. Sei bem do que falo. Do passeio noturno e do telefonema inesperado, da palavra boa que me vem. Do tudo que virou nada e volta a ser tudo, mas aos poucos, e fortalecido. Da saudade que me faz sentir viva. Da mão que me apoia, amiga. Do meu presente tão temperado - e de um passado bem próximo que ainda reverbera em mim posto que está dentro. Aproveito-os todos, gratuitos ou não. Recebo de bom grado o que me vem. Rendo-me, sem medo. Pago , alto, para ver, quando acredito. Sei de seus valores. Muitos nem tem preço. Guardo-os, todos, em minha poupança de bem viver.

"Renda-se, como eu me rendi.
Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei.
Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento." (*)

E disso se faz a vida!




(*) Clarice Lispector

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Persona


Impressionante o livro que estou lendo, com crônicas de Clarice Lispector e apresentação de 'ilustres" convidados: Clarice na cabeceira. Não o levo para cama. Não combina com Clarice: ela tira o sono. A cada página, uma surpresa, uma dúvida, um tapa na cara, seja da escritora que se faz minha predileta da hora, seja dos que ousam comentá-la - ou analisá-la.
O texto estudado falava de máscaras. E, entrego-me: tenho - uso, muitas. Minha vida é um carnaval de Veneza. Acho que só quem tem coragem de assumir deveria usá-las, mas todos temos. A verdade nesse palco maluco não se faz necessária. 
Tenho a máscara de boa filha, que me impede de dizer tudo o que penso e faço. A de boa mãe, que me impede de mostrar a vida  como ela é, na real, e de mim como sou, na real - porque a verdade nem sempre ajuda ou resolve. A de companheira que deixei de usar já faz um bom tempo e nem assim posso jogar fora, pois serve para me lembrar do que não quero mais ser - ou quem sabe na espera de uma nova a ser , de novo, experimentada como mereço. Como quero. Como vou encontrar.
Minha gaveta está cheia até a boca. Todos as cores e desenhos, da bela e da fera.Tenho a máscara de boa profissional , a que queria mais de mim - e tão pouco dos outros. E nesse campo já são tantas... A de interessada estudante, calando-me diante do medo de errar e tentando entender o que me vem. A de eterna estudiosa, na ânsia de achar respostas nos tantos textos e autores que faço de conta que entendo. A de boa amiga, que tenta compreender tudo, aberta que sou ao mundo,  e precisa aprender a escutar mais- e esperar menos. A de amar, essa que estou montando ainda , colorindo aos poucos  ( por não sabê-la ou por medo de errar) e que me ainda me atrapalho - porque mostra, ainda, muito do que sou. Talvez mais do que devia. E nem sempre, em matéria de amor - ou de tudo- o que vale é a grande verdade, a nua e crua: o gosto pode ser amargo... Acho que preciso aprender  a temperar...
São tantas as máscaras que já me acostumei. Lido bem com elas. Sou muitas e elas me acompanham. Visto-as sem pudor. Escondo-me de bom grado. É mais fácil. Uso-as, todas, uma de cada vez ou muitas juntas,  com maestria,  na peça da vida, meu palco, seja qual for a plateia. Erudita ou plebeia. A única que não tiro é a de me ser. A única que me mostra como eu realmente sou, por dentro e só para mim,  no escuro de meu avesso, poço de defeitos contra tantas tentativas de acerto. A peça é entraves e levantes. Muito mais comédia que drama. E nem espero mais aplausos: nem sempre são de verdade. Os espectadores também usam máscaras...
E será assim , esse troca-troca, até que a morte nos separe. Até que a vida me tire o que sou. E que me enterrem nua. Crua. Pó de me ser. Cara limpa, sem me esconder.

" Sei que a mudez, se não diz nada, pelo menos não mente,
enquanto as palavras dizem o que não quero dizer."
Clarice Lispector, em 'Persona'. 

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Soltando


Meus textos me acordaram para conversar. Eram recém quatro da manhã, nem o sol teria tal coragem. Entraram com a brisa do mar, ainda revolto pela tempestade. Madrugadores infames! Notívagos doentes! Infelizes! Que texto mereceria tal urgência? Que grande ideia mereceria tal atenção? Trouxeram-me , de presente, uma insônia tagarela que só. Um murmurinho de ideias, um leva e traz sem parar, mar de mágoas e de ilusões- estas, nem sempre eficientes. Uma viagem louca ao passado e ao presente,  as culpas do que fiz ou deixei de fazer.
Dado ao assunto - ou assuntos - repetitivos, tentei ver as coisas de outro ângulo. Quem sabe uma nova visão. Distanciar-me, de mim e do outro. Ver de outro jeito. Aos olhos e ao coração parece que assim, vista de longe, a visão é outra. Menos emocional. Mais completa, mais complexa. Nem por isso mais fácil. Vê-se coisas que assustam, nossa cegueira ali, escancarada.
Engraçado (?) como levo a vida. Não sei ser morna - o que todo mundo já está careca de  saber. Sou opostos - talvez porque tenha sede - e fome , juntas! - de viver.  Sou gelo ou fogo - e ambos queimam.  O gelo queima de forma disfarçada, mas até mata se os deixarmos ficar. O fogo, regente de meu signo pode até avisar , mas eu, distraída, vivo me queimando. Jogo-me com a  mesma força, imensa, com que recuo. Até me cuido para que meus extremos não me levem. Podo-me a cada dia. Redesenho cada passo antes de fincar o pé. Talvez porque já tenha queimado tanto. Ou me deixado queimar. Mas não importa, não quero mudar. Não me agrada a ideia de não ser. Já tenho feito muito disso, e sempre em prol de algo maior - que nem sei se reconhecerá o que eu fiz, o que eu quero, o que eu digo.  
Ou, respirando um pouco e me pondo a pensar, sou vento. Clarice tinha razão. Refresco. E sei bem como fazê-lo a quem merecer possa. Amenizo o calor, derreto-me em fresco carinho, acaricio o amor. Tiro a dor do machucado. Seco o corpo cansado. Levo as melhores sementes a transplantar bem longe daqui, em outro tempo, em outro lugar. Faço nascer, faço crescer, faço suavizar.
Ou passo, simplesmente passo, sem nem olhar para trás. Num rompante, como deve ser. Sem aviso. Sem nem esperar.
Marco, como podem ver. Dessa ou de outra forma. Não sou morna. Nem ei de ficar...
Minha insônia - meu vendaval - tem nome e sobrenome. Eu, como vento, posso empinar lindas pipas ou arrastá-las por ai ao deus dará...

"Sou como você me vê.
Depende de quando e como você me vê passar."
Clarice Lispector

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Rubia


Fui adotada por um cachorro. Não, você não leu errado, nem eu me acometi de insanidade: eu fui adotada. 'Ela" me escolheu. Sim, uma fêmea, ou como dizem na terra onde vivo - uma 'cachórra', assim, mesmo com 'ó' bem aberto e até gritante. Uma fêmea me escolheu. Grudou em mim. Meu presente. Acompanha-me onde vou, anda ao meu lado e ao meu rítmo (nada fácil) , deita ao meus pés enquanto leio, pede carinho quando estou absorta. Dá-me o seu quando me vê com os olhos perdidos no nada - ou no tudo, tão incerto.
A relação já tem lá seus rituais. Quando não dorme na casa onde me encontro, chega cedo. Talvez pelo café da manhã, diriam. Mas não. Recusa o café até que esteja, enfim, satisfeita de carinho (ela ou eu?). Não sei se porque eu estou carente ou se a carência vem também dela. Ou de fêmeas, nós todas, que ficamos sempre perdidas na fila de carecer antes de vir ao mundo. Eu sou, não nego, e azar de quem não gosta ou não está acostumado/a. E nisso, até nisso, ela me entende. Aparece nas horas que mais preciso.  E até nas que nem imagino precisada. E some quando estou saturada até de mim. Parece me entender mais que eu a mim mesma. E muito, muito mais que muita gente que convive comigo, hoje e sempre.
Minha 'Rubia' ( assim a apelidei  - pela cor do pêlo, entre ruivo e amarelo, com rajadas de branco - e por ser esse o apelido que recebi de uma amiga muito querida) me diverte. Consola-me em tempos de pouco sentir - me amada. Tira-me de meus pensamentos mais obscuros e me traz de novo uma vida ensolarada feito sua cor. Pede colo e dou. Pede afago e dou. Quem sabe é um anjo  - sem asas, mas de patas muito ligeiras e saltitantes - enviado para acalmar meu coração? Meu presente não é mais em vão.
Já me chamaram de 'encantadora de cães'. Adorei e, sim, aceito a faixa. Essa me cabe, dentre tantas que já sonhei receber. Sou um imã desses pequenos - ou nem  tanto- peludos. Para o bem e para o mal. O meu cão "oficial" entra em depressão cada vez que viajo. E se entristece cada vez que estou triste. Já os meus "extra oficiais" me amam demais. E  -  rio -   aprontam algo para chamar minha atenção. Espertos, sabem bem o lado bom da vida: querem-me só para si. E, sim, amam meu colo - ou será eu que amo os deles? E, sim, amam meus carinhos - coisa que tenho de sobra, pelo menos para quem se faz merecer. Ou me aceita como sou. Sou um um poço deles.
Sou uma querida, dizem. E desse verbo, pego o que me cabe. Sou eu quem quero bem. E nem sempre a recíproca está a altura de meu esperar. Ou eu não sou a contento, pode ser. Talvez meu exagero de amar incomode - ou sufoque, vai saber. Mas ainda bem que existem anjos malhados  - e babantes -  que me fazem despertar. Arranham minhas pernas, enquanto afagam minha'lma. Fazem-me sentir viva e  especial. Outra. E única. Talvez através deles eu reaprenda a me gostar...
Só fico pensando aqui com meus botões  - de rosas -  porque as mulheres xingam seus parceiros nada legais de "cachorro" , se estes, os de quatro patas, são sempre tão fiéis. amigáveis e acolhedores. Sabem muito bem o que é amar. Soa, pelo menos, como insulto ao reino dos peludos...

"Os animais dividem conosco o privilégio de terem uma alma".
Phythagoras

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Saber-me


Minha amiga tem razão: somos, todas, generalistas. Numa época que a especialidade faz a casa, não sabemos ser. Mulher nenhuma sabe. Não sabemos viver de plano A ou Plano B.
Temos todo um alfabeto a nosso favor, de A a Z.
Quer ver? descrevo-me em meu Orkut: sou mãemeninamãemulherarquitetajornalistaescritoradolaretudoomaisqueavidameder. Se não é isso, é quase isso. E se for parar para pensar, tenho mais mil coisas - qualidades e defeitos - para pôr ai. Mais ontem que hoje. Lista interminável e infinitamente incompleta.  Já fui boa - e  ainda devo ser - em massagem, organização, pintura. Já fui diretora de instituição, vice-presidente, presidente interina. Já coordenei grandes eventos. Já ganhei prêmio como poetiza e cronista - e um mais como fotógrafa. Já liderei pessoas, muitas vezes. Já fui vendedora ( e das boas!) - coisa que acho que todos somos, um pouco. Fui inovadora   - e sou - no meu setor, sempre. Já fiz muita coisa que macho nenhum faria. Já fiz programa na TV. Já fiz propaganda na TV. Adoro limpeza -e me daria bem com isso também - e organização de armários. Cozinho bem, não há de se reclamar. Sou bonita até onde se pode enxergar. Isso sem falar de outros atributos que, raros, conhecem. E me descubro outra, vez por outra. E me fiz melhor neste último ano. E sou outra, a cada dia. E tenho, ainda, muitos planos para mim - nem sei se o alfabeto chega! ...Se fosse um anúncio de jornal, destes a  procura de marido, acho que me dava bem. Ou deveria. Claro, se eu quisesse.
Nós, mulheres, somos assim, um pouco de tudo. Muitas vezes muito de pouco, coisa de especialista. E nem sempre, quase nunca, damo-nos o devido valor. Mas isso é histórico, incutido - talvez pelo  eterno medo que nos déssemos conta e batêssemos as asas. Que crescêssemos demais, sem possibilidade de poda. Pena não sabermos nos dar valor. Choramos as pitangas ( porque não outra fruta?)  por qualquer um que nos faça pouco caso, por um 'amor' que nos faz pouco, que nos ame nada. Que nos faça de nada. Deve ser porque somos, sempre, muito. Damos muito, mais até do que devíamos. Somos inteiras, completas e, por isso, complexas, o que deve assustar aos despreparados ou desprevenidos. Ou os solitários de coração, trancafiados em sua vidinha mansa. Ou quem sabe aos machos de plantão, que precisam se achar o máximo para que a dura realidade não os faça cair pelo chão. Pior aqueles que nos re-negam (negar mais de uma vez?) , fazem de nós invisíveis, nulas, mortas, quaisquer. Cegas. Sorte que achamos, vez por outra - ou uma única , e basta - o homem certo para amar. Para ser amada. Anjo ou demônio. Mas que nos faça únicas. Outras. Ou nós mesmos, tirando a casca da mesmice que nos assola. Tirando as vestes podres dos dias.
Ah, esqueci de dizer que sou romântica. Sensível. E gulosa - de comida e de vida. E meu maior defeito é ser otimista...

"Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhando ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria de: alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah, então é verdade que eu não me imaginei, eu existo."
Clarice Lispector, A descoberta do mundo

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

DesCaminho


Em plenas férias 'forçadas', aproveito. Tenho dado minhas caminhadas com os pés na areia morna e a cabeça no céu ( não na lua, ainda...). Tenho o sol como companheiro: ele e meus pensamentos fazem boa dupla, um balanceando o efeito do outro. E me levam longe...
Recebo um convite de amizade no Facebook. E, como sempre faço num primerio momento, leio apenas 'por cima', sem preconceito ou credo. Chama-me a atenção o livro indicado - 'O DesCaminho de Santiago' (de Silvio Pires). Nem vou fundo - nem para admirar, nem para me decepcionar. Antes , e como sempre faço, viajo nas palavras usadas. Delicio-me com meu vagar por elas. Assim, sem pré-caminhos. Sem pré-julgamentos. Levada somente pelo vento da minha imaginação, entre morno e fresco. Descaminhos. Ou Santiago, o que me chama mais? O que me prende?
Penso que estou num deles. No meu caminho de Santiago - ou melhor dizer de Joyce? Ficava até bom: Descaminhos de Joy. Melhor dizer 'Caminho de Joy'. Todos nós temos o nosso, cada um o seu, á sua hpra  e vez, volta e meia cruzados com alguém - nem que seja pelas letras onde você me lê.
Ontem caminhei na névoa do final de tarde, após o temporal que trouxe muitas árvores à beira mar. Fui contaminada pela visão de fim de mundo, galhos feito árvores nascendo do chão, tendo como música de fundo o mar sujo e revolto, meu mantra da vez. Fui longe, bem mais do que as raízes arrancadas de algum lugar. Fui fundo, perdendo até a noção do tempo, até que anoiteceu e a a lua veio me chamar. Meus pés doíam, mas eu não queria voltar...
Hoje meu caminho do dia foi com o sol quente na cabeça, água gelada nos pés. Meu pensamento? Longe. Cantava. Música que conheço, despropositadamente plantada em mim. Engraçado, no desvario e no sonho as línguas saem fácil...A melodia em espanhol me acompanhou por todo o tempo - e ainda está em mim. Meu caminho está em mim. Meu caminho sou eu, a cada passo que dou. A cada pensamento que me vem. A cada suspense, a cada surpresa, a cada revelação que a vida me faz. Meus presentes. Meus embrulhos. Ou revelações.
Nosso caminho é único. E não se precisa atravessar o mar. Nem sair do país. Nem andar por muitos dias. Basta entrar em si mesmo. Basta encontrar um silêncio amigo e revelador. Rever o passado, viver o presente, sonhar o futuro. Feito protagonista de uma vida que é, enfim, minha. Um enredo que só eu posso escrever. Mudar. Arrumar. Aceitar ou não. Um conto, crônica. Frase. Um livro, talvez.  Minha cena da vez. Hoje estou bela. Hoje sou mais que ontem. Não sei se pela pele de bronze. Ou o ar de satisfação. Ou por me saber mais. Pela mente abastecida de mim. Por estar me sendo, e só. Bom se um Anjo Negro viesse  me fazer companhia no coração...
O livro eu ainda não li, mas agradeço a  inspiração...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Out!

Saindo do ar. Fui me achar. Ou me perder.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Alta costura

      
"O amor romântico é como um traje, que, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e, em breve, sob a veste do ideal que formamos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em que o vestimos. O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o princípio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura, por eles vestida."
Fernando Pessoa

Bela lição essa, de Pessoa, sobre o amor. Lição de lucidez. De um amor maduro, sem os rompantes juvenis da paixão. Sem os ciúmes inseguramente infantis. Amor que não amarra, mas enlaça.Que abraça, não enforca. Tece manta que aquece, mas não sufoca, deixa respirar.
Tecer. Disso se faz o amor. Novo ponto a cada dia, reforma dos que se acham abertos. Novas escolhas, novos caminhos, que bem se sabe onde darão - se é que se sabe, dadas as surpresas dos dias. E, sim, concordo e  aprendo, muita leveza. Destreza. Estratégia. Técnica, até. Pontos sem nós definidos, a  não ser o da amizade - essa, nunca morre, porque não se alimenta de posses, não vive de mágoas guardadas, de esperanças infindas. Pontos que podem ser refeitos, reformados, revisados tantas e quantas vezes necessárias. E quanto mais se vive, mais amacia, feito algodão. Molda a trama. Junta aos nós as lembranças, as vivências, os momentos nada vãos.
E só se faz na verdade. No dia-a-dia. Do conviver e ver no que dá. No se usar. Amaciar. No ter de novo a mesma visão revisada, sob outro ponto de vista, afastada do irreal.  Se não convive, platônico. Fantasiado. Sonhado. Idealizado. Pura ilusão. Deixo-o para os filmes, literatura e  frases bem feitas, repetitivas. Deixo-o na gaveta do passado que só lembra a parte boa. Ou na do futuro, sempre intocável e  fácil. Acha-se amando, coisa de romance, final feliz. Acha-se ideal, sabendo que isso não existe. Pega-se só o que se vê de bom, e constrói-se de ilusão. Pura areia. Castelo que se vai na primeira maré. Sem lembrar que o amor é verdadeiro, real e palpável, necessitado de convívio, de medição, e que só na verdade se tem, sempre, os dois lados. O bem e o mal, a serem reajustados. Revistos. Redesenhados. Tecidos de bom grado e interesse para que não se desfaçam , de vez, os nós. Costura de rasgos. Colcha de retalhos. Bordado. Pathwork. Costura e reforma. Montagem. Um desenha e apaga sem parar. E nunca finalizado, pronto, perfeito, como assim é a vida. Sempre sai um desenho borrado, mas real. Um ponto a ser desmanchado e refeito. Não é perfeito, mas meu. Meu viver. Minha visão. Meu ponto nunca final.
Um amor destes nunca sai...tece a pele. Quintana tinha razão: ' o amor é quando um mora dentro do outro'.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Que tal?


Que tal abrir a porta do dia,dia
Entrar sem pedir licença
Sem parar pra pensar,
Pensar em nada…
Legal ficar sorrindo à toa,toa
Sorrir pra qualquer pessoa
Andar sem rumo na rua
Pra viver e pra ver
Não é preciso muito
Atenção, a lição
Está em cada gesto
Tá no mar, tá no ar
No brilho dos seus olhos
Eu não quero tudo de uma vez
Eu só tenho um simples desejo
Hoje eu só quero que o dia termine bem
Hoje eu só quero que o dia termine muito bem (*)

Essa música acordou comigo hoje. Suave, como um bom conselho . E me fez leve. Não tive dúvida: disse à vida que a amava, calcei meu tênis e fui cumprimentar o dia. A cidade parecia outra -  ou a mesma, mas com outro brilho. As árvores pareciam mais verdes, o vento mais fresco, os pássaros mais alegres. Os cachorros mais simpáticos, as pessoas mais simpáticas - presumi, dado aos sonoros 'bom dia' que recebi pelo caminho. Até os carros me pareciam mais lentos, como se a pressa tivesse sido deixada em casa.
Posso pensar que isso tudo vem de mim. Das resoluções que tomei e me fizeram mais leve. Dos sonhos que tenho me permitido sonhar. Do meu olhar , talvez, mais atento  - ou mais ameno pela alegria de mais uma vez saber-me como sou. De me achar entre as horas do dia. Como se as tristezas e conflitos tivessem ficado de cama, derrotados tamanho meu otimismo. Talvez eu tenha aberto a gaveta de ser feliz e visto quanta coisa ainda cabe nela. Quanta coisa ainda me cabe. Um jeito aqui, um acerto ali e tudo se encaixa. Tudo me cabe se eu assim quiser. Cabe tudo que eu quiser. Basta escolher. E tirar do caminho as coisas que não quero. São poucas, muito poucas, perto das que pretendo ter - ou melhor dizer ser?
De nada adianta fazer tempestade em copo d'agua. Ele mesmo pode estar meio cheio ou mesmo vazio, como dizem por ai os analistas de plantão. Bom seria agir sempre com muita calma. Sem egoísmos bobos, sem falsos acertos, sem querer mais do que se precisa. Sem querer mais do que se merece. Sem forçar o outro a nada. Sem nos forçar a nada . A vida já é bem complicada com seus compromissos e deveres. Já é bem pesada. Sobrecarregá-la ainda mais pode deixar a coisa impossível de se levar. Tirar todo e qualquer peso inútil já ajuda.
Para completar a manhã que já me seduziu tanto, recebi uma ligação, direto de um castelo da Segóvia. Descreveram-me a paisagem e do como combinava comigo. Hoje estou feliz. Hoje vou ser feliz. Hoje eu só quero que o dia termine bem. Hoje eu só quero que o dia termine muito bem.

(*) Letra da música Simples Desejo, com composição de Daniel Carlomagno e Jair Oliveira, belíssimamente cantada pela voz macia de Luciana Mello. 



sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Prato cheio


A mensagem dizia: 'come teu desjejum sozinho, divide teu almoço com o outro e doa teu jantar'. A dica, aparentemente de um médico, me fez rir - coisa que não me é muito rara, e agradeço esse dom de ver  - ou tentar ver- sempre um lado A nas coisas.
Engraçado como dica pouca pode mexer com a gente. E não pensei em comida, não, já que com essa ainda tenho tido grandes discussões para ver quem domina quem. Pensei na vida. Do tipo 'pega para ti o todo do que te é bom, que te faz bem; divide com o outro o que não consegues carregar sozinha. E deixa para lá o que não te convém'. Nada modesta, acho até graça das ideias que me vêm do 'nada'. Ou seria do tudo?
Sou essencialmente uma mulher alegre e esperta ( nada modesta, já disse - risos). Atrai-me um belo sorriso, o bom humor, a piada inteligente e discretamente contada. Atrai-me, muito, a palavra bem colocada, a sabedoria bem usada. A frase bem dita (bendita!). O olhar que muito diz sem soltar mais nada. A música que me emociona, o filme que me diz muito. Claro que não sou assim o tempo toda porque não sou tola. Nem tão Polyana como pensam. E nem máquina. Tenho meus momentos de não me achar nada, os momentos de tristeza, o choro que vem sem se chamar. Mas se eu pudesse escolher, meu lado de sempre era outro. Meu lado  otimista. Meu lado que me põe para cima. Que me põe corajosa. Peituda. O que me faz calçar um tênis para deixar as tristezas pelo caminho - sem nem querer reencontrar restos depois. Tenho muitos - infinitos - defeitos. Sonho muito, mais até do que devia. E sei que esse sonhos me virão, de uma forma ou de outra. Apenas pelo jeito que sou, sem pressa. Eu sou o meu desjejum. Quero-me inteira.
Na divisão do que não posso ou do que não é só meu, divido. Meu almoço. Gosto de fazê-lo mais pelo outro do que por mim.  Quem me conhece sabe que é assim. Preocupo-me - aqui de uma forma sincera  e não dramática - com quem está ao meu lado. Sou boa companhia. Boa amiga. Boa mãe e conselheira. Boa companheira. Desde que me deixem ser e me queiram como tal. Sou solidária até no silêncio. Vou até onde o outro deixa - ou quer. Seguir mais seria dividir minha melhor refeição. Passaria fome. Fome do outro e fome de mim. E não sei viver de alface.
Mas o que eu tenho realmente que aprender é a doar meu jantar.  Doar o que não é meu - ou não deveria ser. O que não me cabe. Deixar de lado o que me faz mal e não tenho como resolver. E as tantas culpas erradas que carreguei na vida. Tantos pesos mortos que nem eram meus (ou nem são...). E tentar não querer ser a dona de todos os problemas do mundo, isso bem sei. Isso aprendi, aprendo. Estou. Dou o meu melhor, do meu silêncio ao meu conselho, do meu carinho ao meu amor: a vida que pegue, o que quiser e se quiser.
Acho que isso é amar. Não invadir, mas não largar. Apostar no outro e em mim. Cuidar do outro e de mim. Estar ao seu lado quando achar que precise - e não só quando me grite. Porque bem se sabe: quando se sente sede é porque já se está desidratada.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Sinceramente


 Sempre que repassamos algumas das ditas qualidades desejáveis, lá está ela: sinceridade. Enche-se a boca para dizer: sou sincero/a. Mas hoje repenso sua validade. Ponho na balança seu peso - ou melhor dizer que sinto-a nas costas? E sei bem dos meus porques.
Não falo aqui da verdade da História, que se faz obrigatória para que se conheça o mundo como ele foi, o mundo como ele é. Nem defendo a omissão, alimento dos erros,  veneno que tomamos morno, que mata aos poucos sem nem se saber. Tão veneno quanto a falsa verdade - aquela, plantada  e cultivada por tantos anos. Aqui a  verdade se faz necessária, sempre. Pede correções ao longo do tempo, que se reveja e se refaça os passos. Essa verdade ensina. Essa verdade dá vida, mesmo aos já mortos por ela.
Minha verdade é pouca se comparada às tantas verdades da vida. Mas tanta se for voltada para um. Ser sincero de menos, assusta: não sabemos em que terreno estamos pisando. Mas dá para se caminhar, a passos lentos, pé ante pé, procurando aqui e acolá o melhor lugar - até que as máscaras caiam e vejamos , pelo menos aos poucos, a realidade como ela é. A vida como ela é. A pessoa como ela é. E teríamos, bem ou mal, um tempo para pensar. De refletir. De calcular melhor os passos.
Vendo por esse ponto de vista, sinceridade demais pareceria um bom porto. Saberíamos aonde estamos pisando. Cuidados redobrados a cada passo. A verdade ali, escancarada e nua, não esconderia as tantas armadilhas. Tão crua quanto pudéssemos engolir - ou não, ruminando na boca horas - dias, anos! - a fio -
até cuspir. 
Mas não é. Sei bem disso. Tive  - tenho - ao meu lado por essa vida toda uma pessoa extremamente sincera - pelo menos com os outros. Não gozava - goza - do meio termo. Ou era ou não era. A frase 'doa a quem doer' se encaixa bem - desde que não doa em quem o é. A sinceridade extrema faz das frases objeto cortante. Faca afiada. Dilacerante. Rasga o peito e se instala sem nem avisar. Feito bala. Ao primeiro contato, assusta, freia o que se tem de melhor. Entra quente. Ao se receber- se aceitar - fere, humilha e nos torna muito frágeis. E, por vezes, vestimos o chapéu sem nem pensar, ajudados por uma estima não muito fácil de aceitar. Nesse ponto, vale quem o fez. Quanto mais confiamos ao outro o que somos, mais dói. Quanto mais o outro faz parte do nós, mais entra. E fica. Fixa-se, indigesta. Até que a digestão, enfim, se faça. Ou não.
O que mais me incomoda no sincero é que ele 'é', mas não quer que sejamos. Alimenta as mágoas, já tantas, em nós. Talvez por alimentar. Talvez por prazer de o ser. Sabe-se lá...
Ah, se fôssemos absolutamente sinceros, as guerras seriam outras. E muitas...


"Pouca sinceridade é uma coisa perigosa, e muita sinceridade é absolutamente fatal."  
Oscar Wilde

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Devaneio


Admirável mundo novo e bom esse. Falo com meu filho que está longe como se ele estivesse no quarto ao lado - ou melhor, sem a inteferência das chatices do dia-a-dia.
Estou maravilhada pela conquista dele. Cinquenta dias fora de casa e fora do país. Crescendo.
Já estive com ele ano passado em uma viagem a dois. Mostrei a ele o verdadeiro sentido de lá se estar: conhecer. Reconhecer. Se entregar. Fazer parte do que lá está. Viver como eles. Esquecer quem somos. Como se morássemos, por mais breve que seja o tempo, lá. Como se mudássemos de todo. Transplantar.
Sempre digo isso a ele. Nada ensina mais que uma viagem - para a cidade ao lado ou outro país. Nada, nem os livros,maravilhosos companheiros da passagem pela vida, que chegam perto dessa tentativa. Andar pelas ruas desconhecidas, escutar novas palavras nunca ouvidas, tentar entendê-las através dos gestos. Tentar entender pessoas e costumes. Provar novos sabores, descobrir novos caminhos. Saborear um novo viver. Ver coisas , anotar ideias, abrir a mente para um todo novinho em folha, feito caderno de escola. Tocar paredes, ouvir músicas. Sentir cheiros. Abrir-se a novas descobertas. Escancarar-se diante do todo. Ou do detalhe. 
Sinto isso por onde ando. Provo um novo sabor a cada instante. Experimento caminhos novos, outros, sempre que dá. Fixo novas vistas, descubro novos passos, mesmo estando no mesmo lugar. Como em outros horários, durmo quando dá. Vejo vitrines, enxergo pessoas e suas vestes. Sinto seu caminhar. Noto como se conduzem pelo caminho só seu. Noto os olhares. Eu curiosa deles, eles de mim. Abro-me para receber tudo que há de novo, como se isso me bastasse. 
Tinha um adesivo em meu primeiro carro (faz tempo) que dizia: quem lê, viaja. E eu completo: quem viaja, lê. Como se fosse o novo meu livro. Crônica. Poema. Obra completa. Livro de memórias, para nunca mais se esquecer. 
E concordo com o poeta: a rua é um país! Quiçá um mundo!

"A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo..
." 
Mário Quintana

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Agora

  

Tenho pensado muito nisso, da coincidência do agora se chamar presente, esse momento tão tênue e frágil, que mal se pensou, passou: já é passado. E sendo usada a mesma palavra que utilizamos para falar de algo que recebemos sempre com sorriso nos lábios, coração palpitante e curiosidade à flor da pele. 
Presente é sempre bom. Dar e receber. Esperar. Não se sabe se rasga o papel se deixando levar pela pressa de saber, ou se abre bem devagar, olhando nos olhos de quem deu, momento em par. Sempre há aquele momento de expectativa, de adivinhação, de ansiedade a toda prova. Momento de emoção que, gostaríamos, durasse muito. Parasse o tempo. Congelasse a imagem. Receber - ou dar - e abrir por vezes me parece mais sensacional que ver.O recebimento, a visão do momento, o toque futurista de querer sabê-lo mesmo antes do rasgar da folha. O ver e entender - ou procurar entender - como a outra pessoa nos vê. O que somos para ela. O que representamos - que está representado ali.
Isso me faz voltar aos tempos de criança, quando os presentes tinham data certa - fora uma ou outra vó ou madrinha que me presenteava com algo, pensado ou assim de rompante. Os presentes dos namorados - de florzinha arrancada do chão a festas surpresas. Depois, já como mãe, 'qualquer' coisa servia de pretexto: desenho feito as pressas, pedrinha de rio, cartão da escola. E, de igual, só a emoção. Se dado com carinho e boa vontade, emociono-me. Imagino a pessoa me vendo nele, me procurando entre tantos. Lembrando de mim enquanto escolhe... Ponho em prática minha manteiga derretida. Minha menina-mulher, com brilho nos olhos de mar.
Mas esse outro presente, o agora - que daqui a pouco já passou - também faz as vezes de pacote. Pode passar invisível aos olhos e coração, um simples passar. Ou pode ficar, guardado em uma das gavetas de emoções - aquelas que digo que são perfumadas (basta abrir e todo momento me vem...). Se fortes, reviradouras, tocantes, podem ser guardadas em mim, pele e coração. Feito cicatriz, forma de se fazer lembrar a todo momento e todo lugar. Tatoo de um tempo e  espaço que não se quer esquecer jamais. 
E dentre tantas e tantas coisas que se quer esquecer, oásis. Como se o tempo parasse. Como se o relógio da vida fizesse pausa, tiquetaqueando no mesmo lugar. Esses, amo. Esses são meus. Ninguém há de roubar.

"E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero".
Passagem das horas, de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Tecendo


 
Quem quiser plantar saudade, trate de escaldar a semente.
Plante no solo bem duro, onde o Sol seja mais quente.
Pois se plantar no molhado, ela cresce e mata a gente...
Maomé

Ri ao ler esse texto. Engraçado, e ao mesmo tempo verdadeiro. Meu filho está longe - e faz tempo - e ainda vai demorar. Que alegria ao receber um bilhete ( coisa pouca, mas significado muito!), um recado mandado, um telefonema rápido.  Melhor ainda é ler o que está escrito. Saudade, muita, minha e dele. E amor, muito, que , parece, vem se fortalecendo  - 
ou sendo reconhecido - com a distância.
Lição boa. Protejo-me o quanto dá.  Mais vale pensar que a experiência da distância nos fará bem. Por vezes, o dia-a-dia torna as coisas menos valorosas. A presença constante, acomodada,  se faz quase invisível, insignificante, fraca. Imperceptível , afogada no cotidiano das horas. Silenciosa de palavras e gestos que fariam toda  a diferença. Como se não nos restasse dúvidas com o amor ali, ao alcance. Como se não se precisasse regar a cada instante qualquer tipo de relação - das que se aposta, é claro. 
Ledo engano. Somos plantas frágeis, vivemos relações frágeis, necessitadas do simples regar diário - para não dizer de momento a momento. Basta um olhar, um sorriso, a resposta bem dada, a atenção desejada.  O carinho silencioso. A presença que dá apoio. Não custa nada, nós é que complicamos. Cobramos. Desconfiamos. Talvez porque o amor nos torne - errôneamente - egoístas. Talvez porque nos deixe à deriva. Talvez porque temos medo de perder o ser amado. Ou sermos, enfim, substituídos. Ou até porque temos medo de nos perder. Porque amar é dar-se -  e isso assusta. Ao afastar, não nos sabemos mais juntos. Ao se estar longe, temos um simples fio que pode se arrebentar tão logo a vida queira. Por isso essa necessidade de se ajustar a malha, reforçar os nós, tecer mais forte - se se quiser uma mesa farta. Rede furada, fraca, não dá frutos. Ou peixes, melhor dizer. Não nos contenta.
Quando se quer, a distância - grande ou pequena-, ajuda, fortalece. Quando não, afasta. Serve como prova. E isso vale para amores maternais, amores fraternais, amores de mulher. Talvez  nessas distâncias esteja a prova do que somos, sentimos e queremos. Para o que não é fraco, força. Para quem não quer nada passageiro, querer. Ou partidas sem volta, se o amor vier desprovido de intenções. Se for passageiro, não condutor. Viagem perdida.
Pena sermos assim tão volúveis. Pena termos medo de realmente amar.Deve ser por força de tantas vitrines, tantas opções. E tão apostadores de tantos jogos -  febre louca de nada perder, nada, nunca. E tão incertos do que realmente queremos. De quem queremos. Do que o outro é para nós. Na certeza, nosso fortalecimento. E nossa entrega. Na dúvida, dor e receio de se ser por inteiro. Seremos sempre metade. Incompletos. Ou nada.
Meu filho mandou notícias e se diz saudoso. E que me ama. Tudo muito. Bom sinal. Valeu a pena. De qualquer forma, melhor deixar a semente da saudade no sol do meio-dia...

domingo, 9 de janeiro de 2011

Aprendendo


 
 
Gosto de filmes ou livros que se vê/lê por acaso, das frases que me caem nas mãos ( ou melhor dizer   no pensamento?) e me fazem dar uma parada para respirar. Para me respirar. Para me enxergar - não como sou, verdadeiramente,  mas como estou sendo. Como uma boa conversa de onde saio melhor, mesmo aquelas comigo mesma. Como se eu levitasse e me visse de longe - sempre a melhor visão, a do todo e seu contexto. Uma visão afastada e privilegiada, sem pânicos da rapidez de resposta.
Os filmes  e textos - e a Vida -  falavam , cada um na sua linguagem, que ninguém gosta de quem  está por baixo - aqui não no sentido real e sim imaginário. Do fazer-se. Do rebaixar-se. De esquecer o que sou - somos - e ficar batendo na mesma tecla - já cansada de nós. Ficar andando em círculo, andar sem sair do lugar. Sendo metades. de nós, nunca inteiros.
Na real, somos assim mesmo. Previsíveis. Mas não no sentido bom da coisa. Não no nosso melhor sentido. Não no nosso melhor. Somos muito, e deixamos que coisas pequenas, inúteis, nos tirem do caminho, do trilho de nosso ser.  Mesquinhos de nos ser. Pobres. Agarrados a coisas que não nos pertencem, amarrados ao que verdadeiramente não somos. Prisioneiros do momento. E de nosso pouco pensar.
Vemos - e vivemos - o momento muito de perto, o que destoa. Ninguém enxerga bem se olha de muito perto. Os olhos turvam, a visão fica dupla, sem nitidez. Vivemos feito bombeiros, apagando fogos que nós mesmos atiçamos. Ou vândalos, tocando fogo no lugar e hora errada. Perdemos a calma quando ela é mais necesssária. E o raciocínio na hora que mais precisamos pensar. Somos belos sabotadores de nós mesmos, de nossos sonhos e do que queremos. E pior: do que podemos ser. Porque? Não sei. Talvez  seja essa mania que temos de nos autoflagelarmos, autopunirmos ( e ai deixo as novas regras para trás). Pendemos sempre para o nosso lado B. O lado comum e obscuro, raso até. O das respostas rápidas e insensatas, dos atos ligeiros e incorretos. Dos impulsos, de empurrões, levando a vida no tranco, sem nem nos preocuparmos se estamos à beira do abismo ou na planície deserta. Se é suicídio ou simples tropeço. Levamos a sério o que não é, e rimos do que é. Acho que nem sabemos mais viver - se é que algum dia soubemos.
A vida é festa, sim, mas não orgia desmedida. Nem sessão de gala, firia, cheia de pompa e circunstância. Nem um simples passar de horas. Nem um ringue de luta. Foi feita para ser vivída, e bem vivída. Leve, sempre que possivel, mas nem por isso vazia. Essa é a melhor lição de casa.


Se existir guerra que seja de travesseiro. 
Se existir fome, que seja de amor. 
Se for para esquentar, que seja o sol. 
Se for para enganar, que seja o estômago. 
Se for para chorar, que seja de alegria. 
Se for para mentir, que seja a idade. 
Se for para roubar, que seja um beijo. 
Se for para perder, que seja o medo. 
Se for para cair, que seja na gandaia.
Se for para ser feliz, que seja o tempo todo. 
Dizem que é do Mário Quintana. Seja de quem for, estava certo.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Bem-me-quero


 De onde vem a felicidade? De um longo caminhar em caminhos antes desconhecidos. Ver em cada passada algo novo, colírio aos olhos e alimento da'lma. Vem de um bom filme que me veio do nada e me trouxe presentes. Da água gelada. Da fruta na mesa. Do bom livro que leio. Do texto em que me exponho. Dos amigos que tenho - poucos-, mas que me divertem, me inspiram e me animam com belas palavras. Dos amores vividos. Da boa conversa que me nutre, mesmo que doída. Do filho que está longe, mas mesmo assim me alimenta. Do que vivi  - e vivo - e me prepara. Do alimento que tiro do que quero para mim. Do alimento que tiro de meus tantos sonhos. De mim, assim, como sou: imprevisível!
De onde vem a (in)felicidade? Do que me vem e não aceito. Do que me vem e não acato. Do que não entendo. Do que quero para mim e ainda não veio (mas virá). Do passar dos anos a procura de algo que não tive. Das cismas. Das esperas inúteis. Do esperar-me, principalmente. Da procura  de mim - talvez no lugar errado; talvez da forma errada, quem sabe hora.
Qual o saldo?  Depende do peso que damos a cada coisa. E pelo meu ponto de vista - hora de menina, hora de mulher - sempre dá positivo. Coisa minha, do meu jeito de ser. Posso ter meus momentos de recaída, meus baques. Mas nem me preocupo: sei que cedo ou tarde a Joyce que há em mim se sobressai. Tira proveito e até rio da situação. Basta que eu queira. Simples assim.

"Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. 
Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece".





sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Respiro

    Palavras. Quem me conhece, sabe. Amo-as mais que tudo. As lidas, escritas, ouvidas ou faladas. Não passo um só momento sem elas, que estão até em meu silêncio, em meu sonho ou desvario. Alguém já falou que são facas afiadas, que podem salvar ou matar. Peças que devem ser domadas,  envolvidas, desenvolvidas. Resolvidas e abraçadas. Entendidas. Decifradas. Nunca livres, posto que podem ferir. A mesma que acaricia, bate. A que bate, cura. Como se tomassem corpo. Vida própria. Como se virassem a mesa. Basta estar lá. 
Necessito delas, mas admito: sou melhor nas palavras escritas, para mim, são mais fáceis de dominar. Tenho tempo de freiá-las, admiti-las ou demiti-las de mim. Revê-las. Repensá-las. Escondê-las em palavras indiretas.Explorá-las. Revestí-las de papel melhor. Expô-las - e expor-me - como, quando e se assim eu desejar. E ainda tem o outro, que faz dela o que quiser. Jogo de dois. Ela nunca volta como foi.
As pensadas? São minhas, sozinhas. Bando solitário. Voam largo, longe, destemidas e livres, muitas vezes onde nem eu posso alcançar. Ou nem gostar de onde pousam. Mas são íntimas, meu simples pensar. Talvez me delatem com meu próprio olhar, brilhante, desviado ou o destemido.Ou me entreguem na lágrima que cai - de tristeza ou de emoção, tanto faz. Tenho-as, todas, encerradas dentro de mim. O que não deixa de ser um alívio. Ou loucura minha...Castelos de areia, a  todo momento se pode moldar, mudar. 
Aprovar ou reprovar.
Ah, mas as ditas...Perigo à vista. A música já dizia que são o mal que sai pela boca. São flores ou flexa. São balas, as que adoçam  e as que ferem  - ou matam.Como se fossem marca, das que saem e das que ficam. Ferida , que se cura, ou tatoo. Reverberam. Excitam. Vibram. Pena que nem sempre para o lado bom. Nem sempre na boa direção, mesmo que envolta de boa intenção. E, uma vez proferidas, sem volta, a não ser ela revista na resposta. No tempo do diálogo, na contrapartida. Na conversa destemida. Tomam forma, tomam vida, ecoam por ai, mesmo que não se queira. 
Pipa sem fio. 
E  se as sabemos tão frágeis ou tão felinas,  tão difíceis de lidar, porque as largamos ao 'Deus dará'? Porque, sem nem pensar, deixamos que sejam perversas, más? Contrárias. Arbitrárias. Benção ou extremulsão. Santo ou diabo, dependendo do caso, da relação com o momento, ajustando-se ao gesto. E trazem juntas seus antônimos, suas antíteses. Bouquet de flores ou arma mortifera, tanto faz. Neutras, só quando o assunto é curricular. Dispensável. Corriqueiro. Sem valor. Palavras que já se diz sem nem pensar. Bom se tivéssemos o cuidado de domá-las a todo custo. Não a da emoção que diz um verso. Mas a da emoção que diz um tudo. Viver seria bem mais fácil sem elas...
"Uma coisa é por mil coisas no papel.
Outra coisa é lidar com gente de carne,
sangue, emoções e mil misérias". 
( Guimarães Rosa)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Começou




 Promessas. Essa época- ou um pouco antes dela, quando esperamos, impacientes, o 'novo ano' prometido - é a época delas. Uns fazem listas intermináveis, que muitas vezes nem cabem num ano só. Outros, promessas que são impossiveis de serem cumpridas, a não ser que fossemos super-heróis. Outras entram na lista do 'de sempre'. As promessas previsíveis, quase coletivas:  parar de fumar, de roer unhas, comer menos e melhor, fazer mais atividades físicas. Ter mais tempo para o filho. Levar o cachorro para caminhar. Gastar menos. Ver menos televisão. Ler mais. São o que acabo de chamar de promessas cabíveis, palpáveis: toco-as com as mãos. São promessas contáveis, de resultados visíveis. Mas nem por isso fáceis. Poderia dizer que contemplam nossas preguiças.Tentar limpá-los, tarefa árdua. Haja milho sob o joelho. Haja degrau a escalar. Haja vontade!
Mas há, também, uma lista interminável de promessas internas que acho bem mais difíceis de 'pagar'.  Nunca fazemos promessas que realmente fariam diferença em nós como pessoas. Mudanças para sempre. Internas. Olhar atento em quem nos fala. Escutar mais, falar menos. Escutar-se atentamente. Pensar muito antes de falar. Amar sem esperar nada em troca. Perdoar como gostaríamos que fôssemos - na real, não no desejo bíblico de ser. Não fazer de uma gota d'agua tsunami. Abraçar mais. Beijar mais. Carinhar mais. Dar-se, mesmo a nós mesmos, sem esperar que nos recebam de braços abertos. Ser mais simples de atos e mais intensos de pensamentos. Aceitar mais o outro como ele é, aindas mais se esse outro somos nós mesmos.
O caminho é árduo, reconheço. Cheio de mágoas a serem recicladas, de desejos que não serão atendidos, apostas que não darão em nada. De revisões dolorosas do que realmente somos e do que realmente queremos, sem medo de soltar as amarras. Sem medo de crescer. Sem medo de ser  - ou pelo menos tentar ser  - mais feliz.
Ontem me chamaram de corajosa. Já é um passo. E já coloquei mais essa meta na minha lista pouca e precisa para me ser por completo. Suspiro em saber que tenho , ainda, muitos dias pela frente...
E se o ditado popular  "promessa é dívida", tem muita gente começando o ano endividado até o próximo século...

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Laço

 
Todo dia minha mente altamente ativa tem uma frase que a define. Como se a tal frase, a escolhida, achada ou entregue de bandeja, ficasse reverberando em mim. Às vezes por minutos. Outras vezes um dia inteiro. Ou vários. Quem sabe uma vida. Um tema. Uma lição a ser entendida e apreendida. Um batismo de fogo. Entendimento de mim. Quem sabe uma meta?
Minha frase do dia de ontem era " nó aperta, laço enfeita". Nem sei de onde tirei. Juntei os cacos com o livro que, enfim, finalizei - Comprometida, de Elizabeth Gilbert - e fiz um mosaico. Meio tosco, mas um mosaico. Do como levo (levamos?) a vida. Dos exageros que esperamos dela. Os nós que apertamos de tal jeito que nem dá para soltar mais. Os nós da perfeição. Uma perfeição idealista e irreal (ou surreal). De não ver no outro - ou no problema - apenas o que ele é. Esperamos muito, de nós e do todo. E esse muito nunca vem, o que nos deixa num caminho descoberto, por vezes - muitas! -  fraco e frágil. Tênue. Deixa-nos frágeis. Esperando. Cobradores. Descontentes conosco e com o redor. Sem foco no que realmente importa. Sem ver - e sentir - o que realmente importa. Vemos o todo, paisagem, mas não vemos o que 'é'.
A verdade - pelo menos a minha - é que julgamos demais. Julgamos e somos julgados 24 horas por dia, sete dias por semana. E pelos erros, não acertos. E para que? Porque (nos) cobramos tanto? Porque nunca é o bastante, nem  o todo do pote de sorvete? Nem todo amor que sentimos, nem todo amor que nos ama? Cobramos - e  esperamos pagamento, recibo e troco - coisas que não fazemos, tarefas que não cumprimos, atitude que não temos. Pedimos as contas de carinhos que não damos, amores que não sentimos. Porque nunca somos nada na sua totalidade. Nunca realmente mergulhamos em nada. Não nos jogamos de cabeça -  porque isso dói. Nem nos cabe. O resultado é só in-satisfação. E mágoa. Ou, no mínimo, eterno aguardar.
Sempre falo que dou o meu melhor. Sem nem saber se isso é verdade  - ou já sabendo. Sem nem saber o que é. Meu melhor. De onde tiro esse conceito? O meu melhor - e o de tantos - seria o fato de se colocar no lugar do outro. Um bom exercício, nada fácil de ser cumprido. Se o que faço me bastaria. Se o que faço ou falo me deixaria melhor ou me feriria a alma. Se meus atos - e falas, essas grandes inimigas-  me acrescentariam algo ou me retirariam o meu pouco. Se é relevante ou apenas um preencher momentos. Se fará alguma diferença ou não. Se fará do outro - ou do momento - algo melhor. Se fará do momento, laço.
Não deixa de ser um bom exercício...
Vejo-me vivendo - ou tentando - como se o mundo fosse acabar amanhã (2012? Avisem, por favor, para eu ir freiando). Como se o mundo fosse acabar. Como se as peças do mosaico fossem, enfim, encaixar. Como se o pote fosse o último. Como se o amor fosse aquele ( quem saberá... ). Vivo como se tivesse uma bola de cristal. Como se fosse uma vidente (ou melhor dizer apostadora insana?). Como se eu pudesse, enfim, saber. Ou ser acabada, e bem. Sou quadro, admito, destes que se pendura, mas nunca era o melhor momento. Nunca era a hora. O artista passará a vida toda olhando e pensando que 'dava para melhorar'...
"Mas não sou completa, não. Completa lembra realizada.
Realizada é acabada. Acabada é o que não se renova a cada instante da vida e do mundo.
Eu vivo me completando... mas falta um bocado."
(Clarice Lispector )

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Varredura



Faxinas. Para muitas uma forma chata, aborrecedora repetitiva e desprezível de manter a vida em dia. Para mim, necessária. Não falo aqui só da faxina da casa, cheia de sujeiras dos dias. Essa eu a faço com vontade, não tenho medo de vassoura e balde. Falo da faxina de coisas, de ideias, de pensamentos. E até de sonhos. Como se eu esvaziasse, sem pressa, cada gaveta de minha  vida. Abrir, tirar tudo de dentro, limpar, perfumar se merecer, rever seu conteúdo antes de enchê-la de novo. E repensar cada coisa antes de recolocar no lugar. Se me servem. Se são necessárias. Se preciso delas. Se não são apenas entulhos do caminho. Se não o faço, é como se a gaveta voltasse a estar suja, lotada. Talvez apenas arrumada, fachada. Um descuido e está , de novo, repleta de coisas inúteis e sujas. Desvalorizada.
Longe de nova, refeita, revisada.
Sempre fiz isso no aproximar dos últimos dias do ano. Por vezes antecipava para meu aniversário, dias antes. E sei bem como funciona. Começa com uma limpeza e revisão material. De roupas, louças, papéis - ah, esses , tão difíceis de se livrar!- o que é útil e nem tanto, o que é completamente inútil, o que não saiu do lugar nem para espiar o ano passar. O que pode ser revisto, reformado, repassado. Nada vai para debaixo do tapete. Lixo só para o que não tem mais conserto ou serventia, nem para mim, nem para ninguém. Depois faço o mesmo com problemas facilmente resolvíveis - aqueles que sabemos e podemos resolver com força e fé, mas a preguiça ou conforto - quem sabe negação - nos impede. Nossas bolas de ferro, das quais reclamamos, mas carregamos de bom ou mal grado, sem nem ver o inchaço no final da vez.
Sem nem ver o quanto crescem...
Aí, sim, sinto-me limpa -  e leve, poderia dizer -  para resolver as coisas realmente necessárias, imprescindíveis para que eu saia, enfim, do lugar. Para que meus passos sejam outros. As que, fatalmente ( e aqui não no sentido de simples morte, e sim renascimento), vão mudar meu rumo. As que farão parte da minha história, da minha breve passagem por esse mundo ainda estranho para mim, que não sou de viver por viver. As marcas que deixarei pelo caminho até que a 'grande onda' alise a areia da praia.
Muito se fala sobre essas energias. Se paradas, estagnação, freio. Precisam ser soltas, precisam de espaço para se renovar, locomover, revisar. Trocar. Caminhar. Seguir. Fluir.
 Minha mãe, quando estávamos naqueles momentos travados da vida, falava para irmos 'chorar na cama que é lugar quente'. Eu falo que a melhor solução pode ser limpar muito bem um banheiro...

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Vivendo



Férias...tinha esquecido o real significado dessa palavra. Não é a da correria de final de ano. Nem das visitas marcadas, dos sorrisos comprometidos, um entra e sai sem parar. Nem mesmo de descansar de hora marcada.
Descubro que nunca tive férias, mesmo nos dias nominados como tal. Era um tal de viajar para agradar um, ir para praia agradar outro. Natal numa família, Ano Novo na outra, e para isso meio Brasil. Filho para dar comida, cachorro para dar um volta. Malas para fazer e desfazer. Comer na hora sempre estabelecida, dormir cedo para 'aproveitar ' a vida.  Acordar cedo para dar conta de um novo dia.
Férias. Sinto na pele, enfim, o que são. 'Vida de cão'. Dormir quando se tem sono, comer quando se tem fome, beber quando se tem sede. Fazer do dia  que se quer. Fazer o que se quer da gente. Desligar-se do tempo, guiando-se pelo relógio interno, muitas vezes esquecido. E não pelo tic-tac dos compromissos. Dos agrados de toda hora. Banho só para relaxar e sentir-se bem. Roupa pouca. Comida mínima. Janela aberta para sentir o vento. Cortina aberta para namorar a lua. Água geladinha suficiente para refrescar a mente. Água na cara para refrescar a pele. Suor da caminhada intensa, alegria da caminhada lenta.
Ah, férias...Ler porque se quer. E largar o livro para sonecar. Ver um filme sem se preocupar. E dormir se o sono vier.  Escutar músicas novas. Abrir a mente para coisas novas. Abrir a mente para nós mesmos. Abir-se plenamente. Deixar rolar. Planejar sem papel nem caneta. Escrever de cabeça. Relembrar o que se foi. Sonhar com o que virá. Celular desligado. Computador desligado. Desligar-se do todo. Mas com o coração ligado. No barulho de chuva. No frescor do vento. No amor que está no ar. No doce na boca. No simples. Namorar. Café na hora. Sorvete na cama. Carinho. Abraçar.
Férias é viver em slow motion. É se vivenciar. Viver o que se é para melhorar o que se será.
Agora, dá licença que eu vou relaxar...