terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Agora

  

Tenho pensado muito nisso, da coincidência do agora se chamar presente, esse momento tão tênue e frágil, que mal se pensou, passou: já é passado. E sendo usada a mesma palavra que utilizamos para falar de algo que recebemos sempre com sorriso nos lábios, coração palpitante e curiosidade à flor da pele. 
Presente é sempre bom. Dar e receber. Esperar. Não se sabe se rasga o papel se deixando levar pela pressa de saber, ou se abre bem devagar, olhando nos olhos de quem deu, momento em par. Sempre há aquele momento de expectativa, de adivinhação, de ansiedade a toda prova. Momento de emoção que, gostaríamos, durasse muito. Parasse o tempo. Congelasse a imagem. Receber - ou dar - e abrir por vezes me parece mais sensacional que ver.O recebimento, a visão do momento, o toque futurista de querer sabê-lo mesmo antes do rasgar da folha. O ver e entender - ou procurar entender - como a outra pessoa nos vê. O que somos para ela. O que representamos - que está representado ali.
Isso me faz voltar aos tempos de criança, quando os presentes tinham data certa - fora uma ou outra vó ou madrinha que me presenteava com algo, pensado ou assim de rompante. Os presentes dos namorados - de florzinha arrancada do chão a festas surpresas. Depois, já como mãe, 'qualquer' coisa servia de pretexto: desenho feito as pressas, pedrinha de rio, cartão da escola. E, de igual, só a emoção. Se dado com carinho e boa vontade, emociono-me. Imagino a pessoa me vendo nele, me procurando entre tantos. Lembrando de mim enquanto escolhe... Ponho em prática minha manteiga derretida. Minha menina-mulher, com brilho nos olhos de mar.
Mas esse outro presente, o agora - que daqui a pouco já passou - também faz as vezes de pacote. Pode passar invisível aos olhos e coração, um simples passar. Ou pode ficar, guardado em uma das gavetas de emoções - aquelas que digo que são perfumadas (basta abrir e todo momento me vem...). Se fortes, reviradouras, tocantes, podem ser guardadas em mim, pele e coração. Feito cicatriz, forma de se fazer lembrar a todo momento e todo lugar. Tatoo de um tempo e  espaço que não se quer esquecer jamais. 
E dentre tantas e tantas coisas que se quer esquecer, oásis. Como se o tempo parasse. Como se o relógio da vida fizesse pausa, tiquetaqueando no mesmo lugar. Esses, amo. Esses são meus. Ninguém há de roubar.

"E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero".
Passagem das horas, de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

Um comentário:

  1. Sua grandeza é tanta que você nem se dá conta!

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