domingo, 16 de janeiro de 2011

Alta costura

      
"O amor romântico é como um traje, que, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e, em breve, sob a veste do ideal que formamos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em que o vestimos. O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o princípio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura, por eles vestida."
Fernando Pessoa

Bela lição essa, de Pessoa, sobre o amor. Lição de lucidez. De um amor maduro, sem os rompantes juvenis da paixão. Sem os ciúmes inseguramente infantis. Amor que não amarra, mas enlaça.Que abraça, não enforca. Tece manta que aquece, mas não sufoca, deixa respirar.
Tecer. Disso se faz o amor. Novo ponto a cada dia, reforma dos que se acham abertos. Novas escolhas, novos caminhos, que bem se sabe onde darão - se é que se sabe, dadas as surpresas dos dias. E, sim, concordo e  aprendo, muita leveza. Destreza. Estratégia. Técnica, até. Pontos sem nós definidos, a  não ser o da amizade - essa, nunca morre, porque não se alimenta de posses, não vive de mágoas guardadas, de esperanças infindas. Pontos que podem ser refeitos, reformados, revisados tantas e quantas vezes necessárias. E quanto mais se vive, mais amacia, feito algodão. Molda a trama. Junta aos nós as lembranças, as vivências, os momentos nada vãos.
E só se faz na verdade. No dia-a-dia. Do conviver e ver no que dá. No se usar. Amaciar. No ter de novo a mesma visão revisada, sob outro ponto de vista, afastada do irreal.  Se não convive, platônico. Fantasiado. Sonhado. Idealizado. Pura ilusão. Deixo-o para os filmes, literatura e  frases bem feitas, repetitivas. Deixo-o na gaveta do passado que só lembra a parte boa. Ou na do futuro, sempre intocável e  fácil. Acha-se amando, coisa de romance, final feliz. Acha-se ideal, sabendo que isso não existe. Pega-se só o que se vê de bom, e constrói-se de ilusão. Pura areia. Castelo que se vai na primeira maré. Sem lembrar que o amor é verdadeiro, real e palpável, necessitado de convívio, de medição, e que só na verdade se tem, sempre, os dois lados. O bem e o mal, a serem reajustados. Revistos. Redesenhados. Tecidos de bom grado e interesse para que não se desfaçam , de vez, os nós. Costura de rasgos. Colcha de retalhos. Bordado. Pathwork. Costura e reforma. Montagem. Um desenha e apaga sem parar. E nunca finalizado, pronto, perfeito, como assim é a vida. Sempre sai um desenho borrado, mas real. Um ponto a ser desmanchado e refeito. Não é perfeito, mas meu. Meu viver. Minha visão. Meu ponto nunca final.
Um amor destes nunca sai...tece a pele. Quintana tinha razão: ' o amor é quando um mora dentro do outro'.

2 comentários:

  1. "E nunca finalizado, pronto, perfeito, como assim é a vida".
    Bravo, bravíssimo!

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