quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Laço

 
Todo dia minha mente altamente ativa tem uma frase que a define. Como se a tal frase, a escolhida, achada ou entregue de bandeja, ficasse reverberando em mim. Às vezes por minutos. Outras vezes um dia inteiro. Ou vários. Quem sabe uma vida. Um tema. Uma lição a ser entendida e apreendida. Um batismo de fogo. Entendimento de mim. Quem sabe uma meta?
Minha frase do dia de ontem era " nó aperta, laço enfeita". Nem sei de onde tirei. Juntei os cacos com o livro que, enfim, finalizei - Comprometida, de Elizabeth Gilbert - e fiz um mosaico. Meio tosco, mas um mosaico. Do como levo (levamos?) a vida. Dos exageros que esperamos dela. Os nós que apertamos de tal jeito que nem dá para soltar mais. Os nós da perfeição. Uma perfeição idealista e irreal (ou surreal). De não ver no outro - ou no problema - apenas o que ele é. Esperamos muito, de nós e do todo. E esse muito nunca vem, o que nos deixa num caminho descoberto, por vezes - muitas! -  fraco e frágil. Tênue. Deixa-nos frágeis. Esperando. Cobradores. Descontentes conosco e com o redor. Sem foco no que realmente importa. Sem ver - e sentir - o que realmente importa. Vemos o todo, paisagem, mas não vemos o que 'é'.
A verdade - pelo menos a minha - é que julgamos demais. Julgamos e somos julgados 24 horas por dia, sete dias por semana. E pelos erros, não acertos. E para que? Porque (nos) cobramos tanto? Porque nunca é o bastante, nem  o todo do pote de sorvete? Nem todo amor que sentimos, nem todo amor que nos ama? Cobramos - e  esperamos pagamento, recibo e troco - coisas que não fazemos, tarefas que não cumprimos, atitude que não temos. Pedimos as contas de carinhos que não damos, amores que não sentimos. Porque nunca somos nada na sua totalidade. Nunca realmente mergulhamos em nada. Não nos jogamos de cabeça -  porque isso dói. Nem nos cabe. O resultado é só in-satisfação. E mágoa. Ou, no mínimo, eterno aguardar.
Sempre falo que dou o meu melhor. Sem nem saber se isso é verdade  - ou já sabendo. Sem nem saber o que é. Meu melhor. De onde tiro esse conceito? O meu melhor - e o de tantos - seria o fato de se colocar no lugar do outro. Um bom exercício, nada fácil de ser cumprido. Se o que faço me bastaria. Se o que faço ou falo me deixaria melhor ou me feriria a alma. Se meus atos - e falas, essas grandes inimigas-  me acrescentariam algo ou me retirariam o meu pouco. Se é relevante ou apenas um preencher momentos. Se fará alguma diferença ou não. Se fará do outro - ou do momento - algo melhor. Se fará do momento, laço.
Não deixa de ser um bom exercício...
Vejo-me vivendo - ou tentando - como se o mundo fosse acabar amanhã (2012? Avisem, por favor, para eu ir freiando). Como se o mundo fosse acabar. Como se as peças do mosaico fossem, enfim, encaixar. Como se o pote fosse o último. Como se o amor fosse aquele ( quem saberá... ). Vivo como se tivesse uma bola de cristal. Como se fosse uma vidente (ou melhor dizer apostadora insana?). Como se eu pudesse, enfim, saber. Ou ser acabada, e bem. Sou quadro, admito, destes que se pendura, mas nunca era o melhor momento. Nunca era a hora. O artista passará a vida toda olhando e pensando que 'dava para melhorar'...
"Mas não sou completa, não. Completa lembra realizada.
Realizada é acabada. Acabada é o que não se renova a cada instante da vida e do mundo.
Eu vivo me completando... mas falta um bocado."
(Clarice Lispector )

Um comentário:

  1. Só de pensar assim já é perfeição. E isso, de pensar pelo outro, já faz parte de você desde sempre...A sua compreensão da vida e do amor são tesouros guardados, a serem descobertos apenas por quem os merecer!

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