sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Prato cheio


A mensagem dizia: 'come teu desjejum sozinho, divide teu almoço com o outro e doa teu jantar'. A dica, aparentemente de um médico, me fez rir - coisa que não me é muito rara, e agradeço esse dom de ver  - ou tentar ver- sempre um lado A nas coisas.
Engraçado como dica pouca pode mexer com a gente. E não pensei em comida, não, já que com essa ainda tenho tido grandes discussões para ver quem domina quem. Pensei na vida. Do tipo 'pega para ti o todo do que te é bom, que te faz bem; divide com o outro o que não consegues carregar sozinha. E deixa para lá o que não te convém'. Nada modesta, acho até graça das ideias que me vêm do 'nada'. Ou seria do tudo?
Sou essencialmente uma mulher alegre e esperta ( nada modesta, já disse - risos). Atrai-me um belo sorriso, o bom humor, a piada inteligente e discretamente contada. Atrai-me, muito, a palavra bem colocada, a sabedoria bem usada. A frase bem dita (bendita!). O olhar que muito diz sem soltar mais nada. A música que me emociona, o filme que me diz muito. Claro que não sou assim o tempo toda porque não sou tola. Nem tão Polyana como pensam. E nem máquina. Tenho meus momentos de não me achar nada, os momentos de tristeza, o choro que vem sem se chamar. Mas se eu pudesse escolher, meu lado de sempre era outro. Meu lado  otimista. Meu lado que me põe para cima. Que me põe corajosa. Peituda. O que me faz calçar um tênis para deixar as tristezas pelo caminho - sem nem querer reencontrar restos depois. Tenho muitos - infinitos - defeitos. Sonho muito, mais até do que devia. E sei que esse sonhos me virão, de uma forma ou de outra. Apenas pelo jeito que sou, sem pressa. Eu sou o meu desjejum. Quero-me inteira.
Na divisão do que não posso ou do que não é só meu, divido. Meu almoço. Gosto de fazê-lo mais pelo outro do que por mim.  Quem me conhece sabe que é assim. Preocupo-me - aqui de uma forma sincera  e não dramática - com quem está ao meu lado. Sou boa companhia. Boa amiga. Boa mãe e conselheira. Boa companheira. Desde que me deixem ser e me queiram como tal. Sou solidária até no silêncio. Vou até onde o outro deixa - ou quer. Seguir mais seria dividir minha melhor refeição. Passaria fome. Fome do outro e fome de mim. E não sei viver de alface.
Mas o que eu tenho realmente que aprender é a doar meu jantar.  Doar o que não é meu - ou não deveria ser. O que não me cabe. Deixar de lado o que me faz mal e não tenho como resolver. E as tantas culpas erradas que carreguei na vida. Tantos pesos mortos que nem eram meus (ou nem são...). E tentar não querer ser a dona de todos os problemas do mundo, isso bem sei. Isso aprendi, aprendo. Estou. Dou o meu melhor, do meu silêncio ao meu conselho, do meu carinho ao meu amor: a vida que pegue, o que quiser e se quiser.
Acho que isso é amar. Não invadir, mas não largar. Apostar no outro e em mim. Cuidar do outro e de mim. Estar ao seu lado quando achar que precise - e não só quando me grite. Porque bem se sabe: quando se sente sede é porque já se está desidratada.

Um comentário:

  1. "Atrai-me um belo sorriso, o bom humor, a piada inteligente e discretamente contada. Atrai-me, muito, a palavra bem colocada, a sabedoria bem usada". Tenho a ousadia de fazer das tuas, minhas palavras, simples palavras. Texto incrível, realista e sincero, admiro muito teu modo de escrever, parabéns!

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