sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Respiro

    Palavras. Quem me conhece, sabe. Amo-as mais que tudo. As lidas, escritas, ouvidas ou faladas. Não passo um só momento sem elas, que estão até em meu silêncio, em meu sonho ou desvario. Alguém já falou que são facas afiadas, que podem salvar ou matar. Peças que devem ser domadas,  envolvidas, desenvolvidas. Resolvidas e abraçadas. Entendidas. Decifradas. Nunca livres, posto que podem ferir. A mesma que acaricia, bate. A que bate, cura. Como se tomassem corpo. Vida própria. Como se virassem a mesa. Basta estar lá. 
Necessito delas, mas admito: sou melhor nas palavras escritas, para mim, são mais fáceis de dominar. Tenho tempo de freiá-las, admiti-las ou demiti-las de mim. Revê-las. Repensá-las. Escondê-las em palavras indiretas.Explorá-las. Revestí-las de papel melhor. Expô-las - e expor-me - como, quando e se assim eu desejar. E ainda tem o outro, que faz dela o que quiser. Jogo de dois. Ela nunca volta como foi.
As pensadas? São minhas, sozinhas. Bando solitário. Voam largo, longe, destemidas e livres, muitas vezes onde nem eu posso alcançar. Ou nem gostar de onde pousam. Mas são íntimas, meu simples pensar. Talvez me delatem com meu próprio olhar, brilhante, desviado ou o destemido.Ou me entreguem na lágrima que cai - de tristeza ou de emoção, tanto faz. Tenho-as, todas, encerradas dentro de mim. O que não deixa de ser um alívio. Ou loucura minha...Castelos de areia, a  todo momento se pode moldar, mudar. 
Aprovar ou reprovar.
Ah, mas as ditas...Perigo à vista. A música já dizia que são o mal que sai pela boca. São flores ou flexa. São balas, as que adoçam  e as que ferem  - ou matam.Como se fossem marca, das que saem e das que ficam. Ferida , que se cura, ou tatoo. Reverberam. Excitam. Vibram. Pena que nem sempre para o lado bom. Nem sempre na boa direção, mesmo que envolta de boa intenção. E, uma vez proferidas, sem volta, a não ser ela revista na resposta. No tempo do diálogo, na contrapartida. Na conversa destemida. Tomam forma, tomam vida, ecoam por ai, mesmo que não se queira. 
Pipa sem fio. 
E  se as sabemos tão frágeis ou tão felinas,  tão difíceis de lidar, porque as largamos ao 'Deus dará'? Porque, sem nem pensar, deixamos que sejam perversas, más? Contrárias. Arbitrárias. Benção ou extremulsão. Santo ou diabo, dependendo do caso, da relação com o momento, ajustando-se ao gesto. E trazem juntas seus antônimos, suas antíteses. Bouquet de flores ou arma mortifera, tanto faz. Neutras, só quando o assunto é curricular. Dispensável. Corriqueiro. Sem valor. Palavras que já se diz sem nem pensar. Bom se tivéssemos o cuidado de domá-las a todo custo. Não a da emoção que diz um verso. Mas a da emoção que diz um tudo. Viver seria bem mais fácil sem elas...
"Uma coisa é por mil coisas no papel.
Outra coisa é lidar com gente de carne,
sangue, emoções e mil misérias". 
( Guimarães Rosa)

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