segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Rubia


Fui adotada por um cachorro. Não, você não leu errado, nem eu me acometi de insanidade: eu fui adotada. 'Ela" me escolheu. Sim, uma fêmea, ou como dizem na terra onde vivo - uma 'cachórra', assim, mesmo com 'ó' bem aberto e até gritante. Uma fêmea me escolheu. Grudou em mim. Meu presente. Acompanha-me onde vou, anda ao meu lado e ao meu rítmo (nada fácil) , deita ao meus pés enquanto leio, pede carinho quando estou absorta. Dá-me o seu quando me vê com os olhos perdidos no nada - ou no tudo, tão incerto.
A relação já tem lá seus rituais. Quando não dorme na casa onde me encontro, chega cedo. Talvez pelo café da manhã, diriam. Mas não. Recusa o café até que esteja, enfim, satisfeita de carinho (ela ou eu?). Não sei se porque eu estou carente ou se a carência vem também dela. Ou de fêmeas, nós todas, que ficamos sempre perdidas na fila de carecer antes de vir ao mundo. Eu sou, não nego, e azar de quem não gosta ou não está acostumado/a. E nisso, até nisso, ela me entende. Aparece nas horas que mais preciso.  E até nas que nem imagino precisada. E some quando estou saturada até de mim. Parece me entender mais que eu a mim mesma. E muito, muito mais que muita gente que convive comigo, hoje e sempre.
Minha 'Rubia' ( assim a apelidei  - pela cor do pêlo, entre ruivo e amarelo, com rajadas de branco - e por ser esse o apelido que recebi de uma amiga muito querida) me diverte. Consola-me em tempos de pouco sentir - me amada. Tira-me de meus pensamentos mais obscuros e me traz de novo uma vida ensolarada feito sua cor. Pede colo e dou. Pede afago e dou. Quem sabe é um anjo  - sem asas, mas de patas muito ligeiras e saltitantes - enviado para acalmar meu coração? Meu presente não é mais em vão.
Já me chamaram de 'encantadora de cães'. Adorei e, sim, aceito a faixa. Essa me cabe, dentre tantas que já sonhei receber. Sou um imã desses pequenos - ou nem  tanto- peludos. Para o bem e para o mal. O meu cão "oficial" entra em depressão cada vez que viajo. E se entristece cada vez que estou triste. Já os meus "extra oficiais" me amam demais. E  -  rio -   aprontam algo para chamar minha atenção. Espertos, sabem bem o lado bom da vida: querem-me só para si. E, sim, amam meu colo - ou será eu que amo os deles? E, sim, amam meus carinhos - coisa que tenho de sobra, pelo menos para quem se faz merecer. Ou me aceita como sou. Sou um um poço deles.
Sou uma querida, dizem. E desse verbo, pego o que me cabe. Sou eu quem quero bem. E nem sempre a recíproca está a altura de meu esperar. Ou eu não sou a contento, pode ser. Talvez meu exagero de amar incomode - ou sufoque, vai saber. Mas ainda bem que existem anjos malhados  - e babantes -  que me fazem despertar. Arranham minhas pernas, enquanto afagam minha'lma. Fazem-me sentir viva e  especial. Outra. E única. Talvez através deles eu reaprenda a me gostar...
Só fico pensando aqui com meus botões  - de rosas -  porque as mulheres xingam seus parceiros nada legais de "cachorro" , se estes, os de quatro patas, são sempre tão fiéis. amigáveis e acolhedores. Sabem muito bem o que é amar. Soa, pelo menos, como insulto ao reino dos peludos...

"Os animais dividem conosco o privilégio de terem uma alma".
Phythagoras

Um comentário:

  1. Se me fosse dada a a oportunidade, faria o mesmo: seguiria você.

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