sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Saber-me


Minha amiga tem razão: somos, todas, generalistas. Numa época que a especialidade faz a casa, não sabemos ser. Mulher nenhuma sabe. Não sabemos viver de plano A ou Plano B.
Temos todo um alfabeto a nosso favor, de A a Z.
Quer ver? descrevo-me em meu Orkut: sou mãemeninamãemulherarquitetajornalistaescritoradolaretudoomaisqueavidameder. Se não é isso, é quase isso. E se for parar para pensar, tenho mais mil coisas - qualidades e defeitos - para pôr ai. Mais ontem que hoje. Lista interminável e infinitamente incompleta.  Já fui boa - e  ainda devo ser - em massagem, organização, pintura. Já fui diretora de instituição, vice-presidente, presidente interina. Já coordenei grandes eventos. Já ganhei prêmio como poetiza e cronista - e um mais como fotógrafa. Já liderei pessoas, muitas vezes. Já fui vendedora ( e das boas!) - coisa que acho que todos somos, um pouco. Fui inovadora   - e sou - no meu setor, sempre. Já fiz muita coisa que macho nenhum faria. Já fiz programa na TV. Já fiz propaganda na TV. Adoro limpeza -e me daria bem com isso também - e organização de armários. Cozinho bem, não há de se reclamar. Sou bonita até onde se pode enxergar. Isso sem falar de outros atributos que, raros, conhecem. E me descubro outra, vez por outra. E me fiz melhor neste último ano. E sou outra, a cada dia. E tenho, ainda, muitos planos para mim - nem sei se o alfabeto chega! ...Se fosse um anúncio de jornal, destes a  procura de marido, acho que me dava bem. Ou deveria. Claro, se eu quisesse.
Nós, mulheres, somos assim, um pouco de tudo. Muitas vezes muito de pouco, coisa de especialista. E nem sempre, quase nunca, damo-nos o devido valor. Mas isso é histórico, incutido - talvez pelo  eterno medo que nos déssemos conta e batêssemos as asas. Que crescêssemos demais, sem possibilidade de poda. Pena não sabermos nos dar valor. Choramos as pitangas ( porque não outra fruta?)  por qualquer um que nos faça pouco caso, por um 'amor' que nos faz pouco, que nos ame nada. Que nos faça de nada. Deve ser porque somos, sempre, muito. Damos muito, mais até do que devíamos. Somos inteiras, completas e, por isso, complexas, o que deve assustar aos despreparados ou desprevenidos. Ou os solitários de coração, trancafiados em sua vidinha mansa. Ou quem sabe aos machos de plantão, que precisam se achar o máximo para que a dura realidade não os faça cair pelo chão. Pior aqueles que nos re-negam (negar mais de uma vez?) , fazem de nós invisíveis, nulas, mortas, quaisquer. Cegas. Sorte que achamos, vez por outra - ou uma única , e basta - o homem certo para amar. Para ser amada. Anjo ou demônio. Mas que nos faça únicas. Outras. Ou nós mesmos, tirando a casca da mesmice que nos assola. Tirando as vestes podres dos dias.
Ah, esqueci de dizer que sou romântica. Sensível. E gulosa - de comida e de vida. E meu maior defeito é ser otimista...

"Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhando ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria de: alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah, então é verdade que eu não me imaginei, eu existo."
Clarice Lispector, A descoberta do mundo

2 comentários:

  1. Um professor meu de psicologia, ainda disse um pouco mais, ninguem consegue ficar olhando para sua propria mão por mais de 30 minutos sem se surpreender ou se perguntar, essa é mesmo a minha mão???

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  2. Simples palavras, complexas emoções. Saber-se. Crisálida necessária. Bom saber que tuas férias dão asas às palavras,Joyce :)

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