segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Tecendo


 
Quem quiser plantar saudade, trate de escaldar a semente.
Plante no solo bem duro, onde o Sol seja mais quente.
Pois se plantar no molhado, ela cresce e mata a gente...
Maomé

Ri ao ler esse texto. Engraçado, e ao mesmo tempo verdadeiro. Meu filho está longe - e faz tempo - e ainda vai demorar. Que alegria ao receber um bilhete ( coisa pouca, mas significado muito!), um recado mandado, um telefonema rápido.  Melhor ainda é ler o que está escrito. Saudade, muita, minha e dele. E amor, muito, que , parece, vem se fortalecendo  - 
ou sendo reconhecido - com a distância.
Lição boa. Protejo-me o quanto dá.  Mais vale pensar que a experiência da distância nos fará bem. Por vezes, o dia-a-dia torna as coisas menos valorosas. A presença constante, acomodada,  se faz quase invisível, insignificante, fraca. Imperceptível , afogada no cotidiano das horas. Silenciosa de palavras e gestos que fariam toda  a diferença. Como se não nos restasse dúvidas com o amor ali, ao alcance. Como se não se precisasse regar a cada instante qualquer tipo de relação - das que se aposta, é claro. 
Ledo engano. Somos plantas frágeis, vivemos relações frágeis, necessitadas do simples regar diário - para não dizer de momento a momento. Basta um olhar, um sorriso, a resposta bem dada, a atenção desejada.  O carinho silencioso. A presença que dá apoio. Não custa nada, nós é que complicamos. Cobramos. Desconfiamos. Talvez porque o amor nos torne - errôneamente - egoístas. Talvez porque nos deixe à deriva. Talvez porque temos medo de perder o ser amado. Ou sermos, enfim, substituídos. Ou até porque temos medo de nos perder. Porque amar é dar-se -  e isso assusta. Ao afastar, não nos sabemos mais juntos. Ao se estar longe, temos um simples fio que pode se arrebentar tão logo a vida queira. Por isso essa necessidade de se ajustar a malha, reforçar os nós, tecer mais forte - se se quiser uma mesa farta. Rede furada, fraca, não dá frutos. Ou peixes, melhor dizer. Não nos contenta.
Quando se quer, a distância - grande ou pequena-, ajuda, fortalece. Quando não, afasta. Serve como prova. E isso vale para amores maternais, amores fraternais, amores de mulher. Talvez  nessas distâncias esteja a prova do que somos, sentimos e queremos. Para o que não é fraco, força. Para quem não quer nada passageiro, querer. Ou partidas sem volta, se o amor vier desprovido de intenções. Se for passageiro, não condutor. Viagem perdida.
Pena sermos assim tão volúveis. Pena termos medo de realmente amar.Deve ser por força de tantas vitrines, tantas opções. E tão apostadores de tantos jogos -  febre louca de nada perder, nada, nunca. E tão incertos do que realmente queremos. De quem queremos. Do que o outro é para nós. Na certeza, nosso fortalecimento. E nossa entrega. Na dúvida, dor e receio de se ser por inteiro. Seremos sempre metade. Incompletos. Ou nada.
Meu filho mandou notícias e se diz saudoso. E que me ama. Tudo muito. Bom sinal. Valeu a pena. De qualquer forma, melhor deixar a semente da saudade no sol do meio-dia...

Um comentário:

  1. Não sei se é um bom caminho, e com certeza não é o seu. Tudo o que vem de você parece sempre semeado com carinho, doçura, intensidade, vontade de viver.

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