terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Varredura



Faxinas. Para muitas uma forma chata, aborrecedora repetitiva e desprezível de manter a vida em dia. Para mim, necessária. Não falo aqui só da faxina da casa, cheia de sujeiras dos dias. Essa eu a faço com vontade, não tenho medo de vassoura e balde. Falo da faxina de coisas, de ideias, de pensamentos. E até de sonhos. Como se eu esvaziasse, sem pressa, cada gaveta de minha  vida. Abrir, tirar tudo de dentro, limpar, perfumar se merecer, rever seu conteúdo antes de enchê-la de novo. E repensar cada coisa antes de recolocar no lugar. Se me servem. Se são necessárias. Se preciso delas. Se não são apenas entulhos do caminho. Se não o faço, é como se a gaveta voltasse a estar suja, lotada. Talvez apenas arrumada, fachada. Um descuido e está , de novo, repleta de coisas inúteis e sujas. Desvalorizada.
Longe de nova, refeita, revisada.
Sempre fiz isso no aproximar dos últimos dias do ano. Por vezes antecipava para meu aniversário, dias antes. E sei bem como funciona. Começa com uma limpeza e revisão material. De roupas, louças, papéis - ah, esses , tão difíceis de se livrar!- o que é útil e nem tanto, o que é completamente inútil, o que não saiu do lugar nem para espiar o ano passar. O que pode ser revisto, reformado, repassado. Nada vai para debaixo do tapete. Lixo só para o que não tem mais conserto ou serventia, nem para mim, nem para ninguém. Depois faço o mesmo com problemas facilmente resolvíveis - aqueles que sabemos e podemos resolver com força e fé, mas a preguiça ou conforto - quem sabe negação - nos impede. Nossas bolas de ferro, das quais reclamamos, mas carregamos de bom ou mal grado, sem nem ver o inchaço no final da vez.
Sem nem ver o quanto crescem...
Aí, sim, sinto-me limpa -  e leve, poderia dizer -  para resolver as coisas realmente necessárias, imprescindíveis para que eu saia, enfim, do lugar. Para que meus passos sejam outros. As que, fatalmente ( e aqui não no sentido de simples morte, e sim renascimento), vão mudar meu rumo. As que farão parte da minha história, da minha breve passagem por esse mundo ainda estranho para mim, que não sou de viver por viver. As marcas que deixarei pelo caminho até que a 'grande onda' alise a areia da praia.
Muito se fala sobre essas energias. Se paradas, estagnação, freio. Precisam ser soltas, precisam de espaço para se renovar, locomover, revisar. Trocar. Caminhar. Seguir. Fluir.
 Minha mãe, quando estávamos naqueles momentos travados da vida, falava para irmos 'chorar na cama que é lugar quente'. Eu falo que a melhor solução pode ser limpar muito bem um banheiro...

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