domingo, 30 de janeiro de 2011

Viva!




Li e reli. E guardei em mim, como vários textos que entram pelos meus olhos e  fazem morada em mim. 'O ato gratuito', crônica, mesmo que incerta de gênero como diz sua própria autora, Clarice Lispector. E apresentado por nada menos que Nilton Bonder, outro que aprendi a amar. Meus lados feminino e masculino de bem escrever.
Ato gratuito fala de uma escolha que vem do nada. Algo sem causa conhecida e de consequências imprevisíveis, conforme a autora. Um oásis de não cobrar em um mundo onde tudo se paga, onde tudo tem seu preço. Dai seu nome.
Eu designo de chamado. Quem sabe uma cortesia da vida. Um cansaço, diz ela. Eu falo em reparação - aqui , nos dois sentidos que lhe cabem, o de ver com bons olhos e profundos olhos; e o de reparar erros falhas. Preencher vazios, repor esquecimentos. O ato em si de Clarice  veio de uma inexplicável sede de liberdade. O meu vem de fome, dividida em muitas. Como se gozasse essa liberdade da qual ela fala aos poucos, degustando, apreendendo sabores. Matar a sede sem se afogar.Vem do caminhar pela noite dita perigosa  e ver nela bem mais que fantasmas: sentir seu ferscor, contar estrelas ( elas estão lá toda as noites...porque não as vemos?). Ouvir o sapo-martelo em sinfonia, a coruja defendendo território. Sentir a areia gelada nos pés descalços, pisando negros espaços. Passear por dentro da água gelada  do mar, ouvindo seu cantar ritmado de vem - e - vai de espumante. Tomar banho de lua. Ouvir com novos ouvidos, olhar com novos olhos - ou voltar a fazê-los feito menina que descobre o mundo.  E só. É incrível como a beira do mar, nesta hora, se faz silêncio, enquanto o gigante redesenha paisagens. Se faz amiga. Receptiva. Cúmplice. O mundo tendo muito o que falar e eu muito a escutar. Meu ato - ou tantos - gratuito.  
Clarice fala de ato gratuito. Tenho, muitos. Tomo-os para mim desde pouco, desde que reaprendi a viver. Desde que tento me reconhecer, recomeçar, voltar a ser o que sempre fui. Ela fala em preços. Ele, Milton, fala de um previsível onde vamos cheios - de expectativas, de esperanças -  e voltamos vazios. E de um imprevisível , onde vamos vazios e voltamos repletos. Assim sou. Sempre falei em felicidade como pílulas de imprevistos. Sei bem do que falo. Do passeio noturno e do telefonema inesperado, da palavra boa que me vem. Do tudo que virou nada e volta a ser tudo, mas aos poucos, e fortalecido. Da saudade que me faz sentir viva. Da mão que me apoia, amiga. Do meu presente tão temperado - e de um passado bem próximo que ainda reverbera em mim posto que está dentro. Aproveito-os todos, gratuitos ou não. Recebo de bom grado o que me vem. Rendo-me, sem medo. Pago , alto, para ver, quando acredito. Sei de seus valores. Muitos nem tem preço. Guardo-os, todos, em minha poupança de bem viver.

"Renda-se, como eu me rendi.
Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei.
Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento." (*)

E disso se faz a vida!




(*) Clarice Lispector

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