segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Espera




Segunda - feira é um dia estranho para mim. Pálido. Seco. Silencioso. De espera, sentada no banco da vida. É um dia sozinho - nem final de semana, nem dia normal. Não tenho o mesmo pique dos outros. Nem o deixa levar de ontem. É como se eu me preparasse para uma corrida, competição qualquer. É aquele momento de mentalização. Concentração. Olho fixo na pista. Fico distante, 'na minha', e tenho que me organizar ( eu e minhas listas...)  para não deixar me perder no passar das horas.
Já aprendi a conviver com mais isso e nem adianta lutar. Se o faço, vem um cansaço tremendo. Exaustão. Como se saísse de uma letargia, pesada, repouso da vez, para a plena disparada. Um mistura de sono de preguiça que ouso vencer como posso, como dá.

Aproveito e 'limpo as gavetas' do dia do que dá para limpar. Tiro  - ou tento, ao menos - os pensamentos velhos, os excessos carcomidos pela inércia, por não serem resolvíveis, ou por não querê-los até, e abro espaço para novos. Quem sabe assim cabem mais coisas boas? Que sabe o gato Garfield tinha razão? Dia de se jogar por ai e esperar a troca por outro. Quem sabe faço dele domingo? Ou feriado qualquer?

Bom se a vida deixasse a gente ser como é...Mas sei bem dos porquês. No final de semana me divido em muitas, mesmo não me tendo como inteira. Mesmo que não seja bem vista. Mesmo que não seja recompensada. Não sou eu a que vive. Como se eu não tivesse tempo para mim, e como se me sentisse culpada se o fizesse. Fujo com posso: demoro mais no banho para me conversar. Caminho para o passar das horas. Finjo dormir para que me esqueçam. Bom é saber que isso tudo é uma fase e vai passar. Mas não adianta: segunda nunca é só para mim. O trabalho me chama ( por mais que o ame, às vezes quero distância!), a geladeira vazia clama por mim, a empregada chega mal humorada. A casa está revirada, os bilhetes de 'mãe, compra isso' me aguardam em cima da mesa. A internet sempre um caos - ou eu sem paciência. Nem um bilhete de 'tenha um bom dia' ou 'seja feliz', nem flores na portaria...Ou um belo recado do amor...

Mas essa não sou eu, e isso me reconforta. Sei bem como bem viver meus dias. Há muita luz no final do dia. Ou , melhor dizer, há muito amar no fim dessa fase, que vai passar...
Se eu pudesse ser eu, amaria a segunda...e a terça, e a quarta e...

Hoje me faço Clarice.
"E se me achar esquisita,
respeite também.
até eu fui obrigada a me respeitar".

Clarice Lispector

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Domingo


Domingo. Dia morno, que aprendi a gostar com o amar.  Dia sem muita vontade a não ser se acarinhar. Foi o que fiz, dada a distância que teima em me separar do que mais quero para mim. Levantei cedo, dia de filho - caminhada boa, regada a risadas e conversa em dia. Leitura de um livro que se fez de necessário em encantador. Um almoço feito com carinho.Um filme desejado para alimentar a alma. Soneca. Preguiça. Escrita.
Domingo. Quando era pequena, eram todos longe de casa. Na praia, mesmo no inverno, banho gelado do mar. No sítio - quando ainda nos interessávamos por isso, muita colheita de feijão, muito arrancar de abacaxi, muita noitada de olho no fogo do fogão a lenha. De comum entre os dois lugares, só muita diversão, muita água  - de mar ou rio, e banho de bacia ( aquelas, de alumínio, quem viveu, sabe...). Ah, e minha intermináveis caminhadas sozinha, pensamento longe. Isso me segue desde pequena. Pés na areia ou pelo caminho de mata, descansa ou de bota. Essa sou eu, que sigo pelo caminho...
Voltei no tempo. Vejo-me brincando debaixo da escada de minha casa, isolada do mundo. Casinha montada com móveis achados nas mercearias de interior e outros montados com a ajuda de meus irmãos, tendo com matéria prima muita caixa de fósforo e muita criatividade. Casa completa, sempre. Uma irmã prendada fazia as roupinhas de bonecas e de camas. Um primor, como se dizia. E ali eu dava meus primeiros passos na compreensão do mundo, coisa que me ajuda até hoje. Conflitos de toda ordem, muitas vezes fortes para uma criança de tenra idade. Enfim...deve ter vindo dai minha veia de mãe, de amiga,  de eterna companheira de quem se abrir e merecer. E essa minha capacidade infinita de aceitação das coisas. Dramatizar o mundo ajuda a antecipar resoluções e entendimentos, penso. E faz crescer, mesmo que não pensem.
Casa, sim. Na praia desenhava na areia, a casa inteira, escala humana, muito bem mobiliada, em riscos feitos com galhos abandonados. E assumia nela muitos papéis. E ali ficava me vivendo da melhor forma. Brincava com outros -  pegar, esconder, armadilha, bicicleta -, mas era sozinha que me encontrava. Era sozinha que eu me via como era. Me entendia. Crescia. Talvez não na velocidade do mundo ao redor - coisa que nem hoje me acostumo. Mas veio dessa suposta solidão muito de mim. Muita poesia, muita verdade em mim, muito do que sou até hoje. Muito do que me escrevo. Do que me gosto.
Por exemplo: gosto de ter amigos. Adoro uma boa conversa. Mas é na conversa só, com o outro, que me acho. A visão dele se confundindo com a minha. A união possível das duas, dos dois. Não a tagarelice de muitos, ideias cruzadas, onde um só escuta um - o resto é fundo. Mesmo nos dias de hoje, a conversa escrita, onde não se tem a voz nem a visão, gosto. Nas palavras ali desenhadas, uma com outra, alinhadas, leio e me acho. Vejo o outro com olhos da imaginação e me vejo junto. E alimento pensamentos.
Ah, belas tardes de domingo que me perco escutando quem amo. Que me perco do tempo. O tempo pára. Conversas de mãe, histórias de pai, a infância resgatada. A vida de hoje, o que aconteceu na ausência, as ideias bem traçadas. Da vida a dois, do que se espera do amanhã, na cama e na vida. Fazem-me lembrar de coisa boa, doce deleite. Das conversas ao lado do fogão. Sentada na varanda a escutar 'os mais velhos'. Mesa do café posta, cheiro do recém passado. E eu, aninhada...fazendo da vida dos outros meus contos.
Ah, belas tardes de domingo...saudade do teu colo se fazendo de meu travesseiro...

"E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz,
e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem
e pestes se alastram e nós nem percebemos,
no umbigo do universo."


(Caio Fernando Abreu)

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Milagreiro




O amor tem feito coisas
Que até mesmo Deus duvida
Já curou desenganados
Já fechou tanta ferida

O amor junta os pedaços
Quando um coração se quebra
Mesmo que seja de aço
Mesmo que seja de pedra

Fica tão cicatrizado
Que ninguém diz que é colado
Foi assim que fez em mim
Foi assim que fez em nós
Esse amor iluminado...
Letra da música Iluminados, de Ivan Lins

Acordei inspirada, como podem ver. Despertei com o amor em mim, mais forte do que nunca. Beijei o amor com fervor, para ser bem sincera, antes mesmo de levantar e enfrentar o dia. Feliz.

Amar, sentimento, a  meu ver, essencialmente maduro.Ou somos, ou nos faz. Vejo adolescentes dizendo estar amando. Tatuando seu amor em letras garrafais no corpo. Desculpem, não acredito. Têm tantos humores ainda pela frente, tantas mudanças de clima, tantos temporais e vendavais. Imagino ser paixão, coisa de rompante que, conforme cientistas, dura dois anos. Empolgação das bravas. Apaixonite aguda, como se dizia tempos atrás. Mas amor, ah, sei lá. Pode até se transformar. É coisa de gente vivida. Calejada. Pede maturidade. Abertura. Entrega.Vivência. Convivência. Não exatamente com o ser amado, mas com a vida. Porque envolve um monte de outros sentimentos que até os mais maduros tem dificuldade em aceitar. Aceitação, sim, do outro como é. E de mim, amando. Dos deconfortos do dia-a-dia. Das diferenças, tristezas e alegrias. Pede desprendimento, já que o outro é uma pessoa e não coisa. Já que pede doação sem espera. Pede renúncia, coisa que levamos uma vida inteira para começar a aprender. Pede que sejamos inteiros, não metades de laranja como dizem por ai.

Porque só posso aceitar o outro se eu estiver inteiro. Forte no meu sentimento. Forte comigo mesmo. Sabendo o que eu quero para mim. Porque o amor pede muito, de nós e do outro. Pede confiança, coisa dificil de se ter até com a gente mesmo. E não se pede. Muito menos se impõe ou implora. Não vive de migalhas. Nem de esperas. Quando isso acontece é porque o amor próprio está em baixa. E se ele está arredio, se não me dá amor, nunca poderei amar alguém. Vira compensação. Vira procura insana. Espera doentia. Ou vira amizade, que não deixa de ser uma coisa muito boa, menos sofrida até, desde que não esperançosa. Ou um casamento que se deixa levar, tamanho medo do desconhecido.  

Mas tem um lado leve, não listado, não poetizado a contento. Altamente compensador e sempre pronto a acontecer. Do outro te fazer mais leve e tu a ele. Da vida ficar mais faceira, com direito a sorrisos estampados - ou simplesmente escapados, cantinho de boca. Ficar cheia de surpresas, presentes bons, pacotes enlaçados, com gosto e aroma. A bocas repleta de palavras boas, vibrantes. De se achar graça em coisas antes sem. De rir de nada e chorar por tudo, da falta ou da sobra, tamanha sensibilidade. Faz-se dos momentos simples , festa. Do namorar, encantamento. Do olho no olho, entrega. Do entrelaçar, saída de órbita, passagem de ida para outro mundo. Faz com que cuidemos mais de nós, por dentro e por fora. Que cuidemos mais do outro, nosso nós. Faz-nos melhores. Vivos. Firmes. Guerreiros.Ai, sim, vira tatuagem, nem que seja por dentro. Além de ser rejuvenescedor...Enfim, um santo milagreiro...

É...o amor tem feito coisas que até Deus duvida...















sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Poderes


Engraçado como a gente ler um texto ou livro para um assunto e vem de 'brinde'  um outro assunto, uma nova ideia, um pensamento  presenteado.
Lendo um livro - entre tantos - sobre marketing e vendas ( Marketing Cross-Cultural, de Hildefonso Grande) , deparei-me com a divisão das culturas em vários tipos , baseada em estudo de um antropólogo cultural holandâs, Gert Hofstede, datado de 1980. E como se comportam diante da vida - e , claro, diante do consumo. Como as sociedades com muito ou pouca aversão às incertezas, pequena ou grande distância do poder, individualistas  ou coletivistas, etc., conforme se mostram diante da nem sempre fácil escolha de produtos. Sempre em relação  à familia, educação, historia de vida, Estado, trabalho, e por ai vai. Inclusive em gênero, assim posso dizer, masculina ou feminina. E aqui me apeguei ,entendi, por poder comparar um tipo de pensamento do outro. E trouxe a lição para a vida. E para esse texto.

Na cultura predominante masculina, os valores a serem contemplados, digamos, por uma campanha, seriam a ambição, agressividade, desejo de alcançar status elevado. Na cultura feminina, são aqueles historicamente atribuídos à mulher cuidado, ternura, carinho, proteção. Pense numa propaganda de carro e numa de alimentos e dá para entender a diferença. E, fato histórico,  as culturas ditas femininas  se fixaram em países de  negociantes e  navegadores, caçadores e pescadores, onde  as mulheres  organizavam a  sociedade a seu modo enquanto os homens  ficavam ausentes por muito longos períodos. Interessante isso. Fez-me lembrar do livro ' A Casa das Sete Mulheres" e tantos filmes que já vi por ai.

E segue: espera-se que os homens sejam ambiciosos e as mulheres ternas. Que eles dominem a vida fora de casa e elas, nós, dentro. Que seus heróis sejam super dotados, violentos, 'rambos' da vida, e os delas simples humanos. Nas escolas das sociedades masculinas, ensina-se a competir - boas notas, rpemiso,  reconehcimento acadêmico. Nas femininas, que se aprenda, que se cuide do mundo.Els visam ganhos, lucors. Elas, qualidade de vida. O sucesso pessoal deles é medido pelo que têm, dinheiro que se ganha e o que ele compra. O delas, medido pelos amigos que se ganha. A igualdade e a solidariedade, nelas, são muito valorizadas,  pai e mãe tem os mesmos papéis, dentro e fora de  casa. Nelas, meninos e meninas podem fazer suas escolha e, e inclusive chorar.

No trabalho, eles competem entre sí, pensam em carreira pessoal. Elas? Procuram consultar, trabalhar em equipe, dividir tarefas, compromissar-se, negociar. Trabalha-se para viver e não o contrário. Quem de nós não jogou tudo para o alto para cuidar de um filho doente que atire a primeira pedra...Ah, e se importam, de verdade, com o meio ambiente...visão de futuro nisso. E sim vai o texto , discorrendo sobre os papéis da politica, nos projetos sociais, na forma que enfrentam os problemas da sociedade, na tolerância diante  dos fatos, irremediáveis ou não. Até o deus deles é masculino e não aceita mulheres como sua representante.
Enfim, o estudo vai longe e sempre comparando um e outro.  Sempre soube que somos mais abertas , mais tolerantes, mais ingênuas até. E quando não somos como o esperado, bate o preconceito."Essa não é mulher", "essa não é para casar". E assim segue a vida , nos rotulando, feito mercadoria. Deve ser uma forma de nos deixar aquém, medo de que tomemos conta do mundo.

Mas faço aqui minha ressalva: não são todos os homens assim, machistas. Nem as mulheres assim, tão delicadamente femininas. E é quando a gente acha um assim, meio termo, sem extremos, que nos vê além do rotulado, que nos vive como merecemos, como somos, um tanto complexas , guerreira, amiga e amante, espada numa mão, rosa na outra, é que a gente se apaixona - e se entrega , e ama ! - de verdade...

Paro e me pego pensando que temos, enfim, uma mulher no poder. Seria muito bom se ela deixasse aflorar seu lado mulher, seu lado mãe e avó, seu lado companheira, justa, amiga, conselheira, de visão ampla, mutifuncional como somos.  Que faça o que tem que ser feito. Que cobre o que tem que ser cobrado. Que lembre que educação é tudo, mas não esqueça da saúde, outro ponto fraco. E do valor das mães. E tudo isso sem perder o sorriso e a ternura, nossa marca registrada.
Podem rir, mas me veio a música do Pepeu Gomes , Masculino e Feminino, na cabeça...

"Vou assim todo o tempo
Vivendo e aprendendo
Que ser um homem feminino
Não fere o meu lado masculino
Se Deus é menina e menino
Sou Masculino e Feminino..."












quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Salve, Jorge!


Acordei de madrugada. Do nada. Tendo o silêncio como companhia. E na calada - minha e da noite -  fiquei pensando na vida. Coisa mais estranha e interessante é viver. Acorda-se todo dia, põe-se a materializar ideias e sonhos. Faz-se muitos planos, traçam-se estratégias. O que era nosso, dá certo; o que não, nem era. Bom se fosse assim, e é, e lutar, por vezes insanamente contra isso parece ser o nosso maior contrassenso (assim, tudo junto, conforme a nova ortografia). Viver não é um simples preencher de agendas, nem feito de meras e intermináveis listas. É cada dia um enfrentamento - ou muitos - para se vencer a guerra, mesmo que, como soldado, não se saiba bem pelo que se luta. Acorda-se e deita-se planejando. Passa-se o dia no campo de lutar. Vive-se o amanhã, empurrado pelo ontem. E do presente - belo nome para o que está se vivendo agora - pouco se aproveita. Que pena... Por vezes nem vemos o lindo pacote...

Viver é assim mesmo, um jogo. Melhor dizer, uma guerra, nem sempre fria, feita de tantas e tantas batalhas - as  mais difíceis contra nós mesmos. Os amigos são muitos, velhos e novos aliados;  e os inimigos também, mesmo que ao nosso lado. A diferença está no torcer, a favor ou contra. E assim segue a vida, um dia se perde, outro se ganha, um se avança, outro se recua. Por vezes é bom ficar a espreita esperando o mau tempo passar. Outras, sentar e olhar o céu. Ou a chuva providencial que cai. Esperar o temporal, mas admirando sua beleza, já sabendo que o sol virá ainda mais forte depois. O que não se pode fazer é virar as costas e fazer de conta que o mundo é só de paz...

Eu tenho muitas coisas a enfrentar - dentro e fora de mim. Mas não fujo. Enfrento  da forma que acho que deva enfrentar.  E sem perder "la ternura", que nunca é demais. 
Espada e rosa. Disso são feitas as batalhas nos campos dos dias. Avançar e recuar. Ferir e curar. Um 'morde assopra' sem fim. O que se precisa é de proteção. Escudo. Seja no peito, no cabeça ou numa oração.

"Jorge sentou praça na cavalaria
E eu estou feliz porque eu também
Sou da sua companhia
Eu estou vestida com as roupas
E as armas de jorge
Para que meus inimigos tenham pés
E não me alcancem
Para que meus inimigos tenham mãos
E não me toquem
Para que meus inimigos tenham olhos
E não me vejam
E nem mesmo um pensamento
Eles possam ter para me fazerem mal
Porque eu estou vestida com as roupas
E as armas de Jorge

Salve Jorge
Armas de fogo
O meu corpo não alcançarão
Facas e espadas se quebrem
Sem o meu corpo tocar
Cordas e correntes arrebentem
Sem o meu corpo amarrar
Porque eu estou vestida com as roupas
E as armas de Jorge

Perseverança, ganhou do sórdido fingimento
E disso tudo nasceu o amor"

Parte da letra de 'Jorge da Capadócia', de Jorge Ben Jor

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Caroço





Fiz Yoga muitos anos, mais de dez - e sempre com a mesma mestra, doçura em pessoa. Aprendi muito, muito mais do que as reconfortantes aulas, as posições nem sempre fáceis. Aprendi a tentar  - e tentar e tentar. Cair e levantar. A superar a mim mesma e principalmente meu cérebro que teimava em me dizer não dá, não consigo. Aprendi a trocar o não pelo sim. A vencer medos. A me aceitar assim do jeito que sou - mas melhorar o que dá para melhorar. Ultrapassar barreiras criadas a anos. E saber que o que sou  é resultado do que faço comigo, ação e reação. E me saber competente. E viva.

Aprendi muitas coisas, muitas que ainda levo em mim. A alimentação que, se atenta, doso. Que  o centro de todas as vontades - as reais, da força e não dos desejos - está no centro do corpo, o tal plexo solar.Um dínamo. Bem ali, na reta do estômago, pouco acima do umbigo. Nossa região abdominal, aquela, difícil de manter em dia, a da barriguinha tanquinho, tão sonhada. Traz força, para o corpo e para vida. Traz a firmeza da permanência. Traz fôlego. Não é à toa que desregula quando não estamos bem. E é tão complicado de manter em dia. Ou ninguém teve já enjôo de tão nervoso? Ou dor ? Ou comer por ansiedade?

Aprendi também a ser flexível. O corpo sendo, a cabeça vem. Flexivel em relação ao movimento da aula e da vida. Não um curvar-se medroso, e sim enfrentar as coisas aos poucos, como quem se alonga pela primeira vez. Devagar, soltando e educando o corpo, passo a passo. Ter uma meta como ponto de fuga. Ter atitude, formosura. E festejar cada milímetro a mais alcançado. Treino minha flexibilidade todo dia enquanto deixo a água do banho me fazer companhia, lavar a minha'lma. Ou  a qualquer  hora quando me sinto mais travada. Fico outra, feito nova. Agarrar os pés é uma forma de eu me dizer todo dia que sou capaz.

E a postura, claro. No espelho e no dia. A coluna ereta, a cabeça correta, a perna meio relaxada. A barriga para dentro para não forçar a lombar. Ombros firmes, mas sem forçar. Ohar para frente, sem empinar - nem humilde demais, nem sem bem enxergar. Braços em movimento, balanço certo, pés pisando por inteiro no chão. O corpo pé um só , feito de muitas peças. Cada coisa no seu lugar.

Ah, e tem a parte do silêncio, tanta coisa a escutar. Ver o que vem de dentro. O sábio silêncio da meditação - que vem também de um bom filme, de um bom livro ou da hora máxima do amar. Por um momento que seja, renova e deixa todo o resto para trás. Cura tudo, dizem. Afasta doenças físicas e mentais. Abre espaço no cérebro. E nos invade com uma calma enorme, nem dá para contar. E da respiração que pouco pega e muito devolve, pouco ar que entra e muito que sai, levando com ela nossas travas, receios e impaciência, a dona da casa. Ficamos mais tolerantes com o mundo. E com a gente. A lição começa nesse leva e traz. Quem se sente aliviado com um suspiro já sabe por onde começar.

Não faço mais Yoga, mas nunca mais fui a mesma. Sinto falta do incentivo em voz calma, e do relaxamento ao final das conquistas. Dos abraços amigos da despedida. Dos pensamentos circulando sem  tropeçar. De tentar coisas novas sem medo. Mas as melhores lições ficaram dentro de mim. Ainda me descobrindo. Amar o mundo. O meu e o teu.

"Quando eu disse ao caroço de laranja que dentro dele dormia um laranjal inteirinho,
ele me olhou estupidamente incrédulo..."

Prof. Hermógenes, grande professor e divulgador da Yoga no Brasil

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Rosa



Às vezes, a coisa demora a engrenar, a experiência e a intuição se juntarem e as fichas cairem ( quem inventou isso? Faz minha cabeça parecer jogo de azar...) .

Outro dia falava de meu ano na numerologia (some seu dia de nascimento com 2011...). O meu deu oito, esse número engraçado,  que me faz lembrar o infinito e tudo o mais que  já falei. Um ano voltado a materialização no campo profissional , ao colher o já tanto plantado - o que, obviamente não sentei para esperar e estou correndo atrás. Centrando. E pedia que eu usasse rosa para equilibrar, sábia mistura. Ou seja: meu lado profissinal de um lado e meu lado feminino no outro. Um lado me puxando para coisas práticas, outro me puxando para meus sonhos. Ou desejos, delicadezas, como queira. Um me dando força e garra, o outro doçura. Balança equilibrada, para fugir da corda bamba.

Poderia deixar passar em vão e dizer que é tudo besteira, mas voltei no tempo e fiz uma revisão. Em meados dos anos 1990 eu estava no auge de minha carreira como especialista em revestimentos - coisa que amo fazer até hoje e que, bem ou mal, me trouxe onde estou. Era a 'garota propaganda ' de uma das maiores empresas do país. A primeira arquiteta ' no pedaço', a primeira atendente de showroom, depois a primeira promotora, a primeira especificadora, a primeira de tudo. Meu auge me levou a comprar um apartamento - pequeno mas meu, grande sonho. E, não me perguntem porque, pintei -o todo de rosa. Todo. Um rosa tranquilo, agradável à alma e extremamente feminino. A mulher que caçava oportunidades curvando-se à mulher que eu, intimamente, sonhava em ser. Resultado disso? Perdi meu emprego e ganhei um filho. Assim, tudo junto e tudo misturado como só a vida sabe fazer. Quem quiser que engula. E tente aceitar.

Hoje revejo. Rosa. Flor ou cor. Contraditória na história. Já foi símbolo de paixão e segredo. Simbolo do amor, que continua sendo. E da pureza de Maria. Vem dai a palavra rosário, interiorização e renovação, espécie de meditação. Tetos eram pintados com desenho de rosas para manter segredos entre quatro paredes. E foi o orgulho da rosa que arruinou a tranquilidade do mundo do pequeno príncipe. Mas também quem o fez descobrir o segredo do que é realmente importante na vida. Descubro que a rosa , por si só, já é equilíbrio.

Rosa vibrante é sensualidade, sexualidade. Meu lado fêmea. Rosa claro é associado ao lado mais feminino, o lado delicado de todas nós.Meu lado mulher. Gosto dos dois, mas a hora pede meu lado tranquilo. Algo amoroso, carinhoso, terno, suave e ao mesmo tempo uma certa fragilidade e delicadeza. Está ainda associado à compaixão. Pedem para que use rosa e isso , à primeira vista, me dá medo. Traz o sempre calmo e dócil. O amor incondicional ( e tem outro jeito de amar?).

Volto um pouco menos no tempo e me vejo me reconhecendo como mulher. Usando vestido, salto alto, unha vermelha. Meu primeiro passo, de uma caminhada lenta que já dura muito, em me reconhecer duplamente. Ou inteira. Não só como mãe e profissional, mas como mais. Como sou. Quem sou. A procura - incessante e nada fácil, reconheço - de me ser por completo.
Rosa. Gosto da flor estampada no peito. Do rosa discreto e calmo da maturidade, detalhes em mim. Tenho uma pedra que bem sei onde está e preciso energizar. Delicadeza, meu lado suave de ver a vida. Sigo meu caminho, espada e rosa. Acho que eu deveria , mesmo, fazer uma tatoo. Quem sabe assim não esqueço da lição de me completar.
 E lembrar, sempre, a sabedoria de Clarice: "

"Todas as manhãs ela deixa os sonhos na cama, acorda e põe sua roupa de viver"...







segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Sim!



"Você disse que não sabe se não
Mas também não tem certeza que sim
Quer saber?
Quando é assim
Deixa vir do coração"
Se, composição de Djavan


Ontem antes de desligar o computador e desligar-me do dia -  que rendeu , diga- se de passagem - talvez pela hora a mais (risos), escutei essa música. Não queria uma trilha sonora triste, antes do fechar das cortinas, que desencadeasse uma fuga do sono em mim. Então, me veio essa, pacotinho rosa para fechar bem o dia. Achei graça da letra, retratando de forma risonha um dos delicados hits de nossa vida e que está conosco em todos, - sim, todos - os momentos o decidir-se. A boa -  ou nem tanto - escolha faz toda a diferença. Desde a forma que decido me levantar, de bem com a vida ou não. Como a forma que chamo meu filho, com beijo ou simples chamada da porta. Como faço seu café e sento para conversar, sem pressa. Como olho para ele, mescla de sono e sorriso, mas com brilho. E da forma carinhosa que ainda beijo a sua  testa antes que saia, coisa eu faço a quase 16 anos. Assim também será quando ele estiver pronto a sair. Melhor, creio. Leva na mochila minha alegria. Meu amor.
Sozinha, hei de me deparar com minhas coisas a fazer, a lista na agenda, da casa e do trabalho.Lembrar das coisas. E de mim.  A forma que me cumprimento frente ao espelho. Que me cuido, que me digo bonita ou feia. Que me valorizo ou desprezo. Me incentivo ou recrimino. Com saio do quarto pronta para o dia. Se decidida ou vacilante.
Meu começar bem o dia está no jeito que falo com a secretária que chega (temos uma vida juntas...15 anos). No bom dia bem dado e sincero, esperando mesmo que tenhamos. E até com o cachorro que,só com a chegada dela, se levanta. Sentada na frente ao computador, meu jeito de me relacionar com muitos, sei que o jeito que eu chegar será fatal para que as pessoas sorriam ou não. Que se sintam melhores ou não.
E assim vai passando o dia e eu escolhendo que Joyce o dia que vai ter. Como acordo o amor para dar meu bom dia. Se triste ou pura alegria. As próximas horas de me ser  decididas em uns minutos de atenção. Se decido que a vida é um presente, melhor então!
Já notei que o meu jeito de estar muda muito. Muda tudo. Faz a diferença. Meu filho sai de bom humor ou não, conforme o chamo e cuido. Minha fiel escudeira , relaxa, mesmo sendo segunda-feira, dia mundial do mal humor. Ou quebra tudo. Faz suas tarefas com interesse, com mais gosto, como eu. O que vai se retratar na forma que cuida da casa, das roupas e até do cão. Essa energia que joguei ao léu retorna para mim. Feito perfume no ar. Propagação do melhor. Eu, no como respondo as mensagens, como calculo o próximo passo. Como recebo o dia. Com amor ou não.

Vejo muito disso no sexo feminino. Esteio, centro, destino. Se ela balança, a casa vai junto. Se ela é firme, a casa vai em frente. Se carinhosa, as coisas fluem. Que poder é este que nos deram, querendo ou não, aceitando ou não? Parece um peso, e  será, se assim se fizer. Mas não há como escapar: a energia do dia, esse ser masculino, está na mulher!

E continua Djavan:

"Se é assim
Você tem que largar a mão do não
Soltar essa louca, arder de paixão
Não há como doer pra decidir
Só dizer sim ...ou não".





















domingo, 20 de fevereiro de 2011

Descoberta



Estava pesquisando sobre moda - não a delirante ou melhor dizer fulminate ? - que vai tão rápido quanto veio, tempestade de verão. Mas dos detalhes sutís, do que tem por trás de cada movimento, cada gesto, cada detalhe a mais. E isso vale para a moda fashion, a moda da decoração, arquitetura, literatura, quem sabe arte.
Se paramos para pensar, um contrapõe o outro. Há, por vezes, uma forma de adaptação, uma transição delicada, sutil, que nem se percebe. Mas logo depois uma de contraposição. Um minimalismo contra o barroco, o rococó da vida. Ou o contrário: muita coisa onde só tinha o mínimo. Nos acabamentos por exemplo. Vieram as cores vivas, fortes, por todos os lados. Laranjas e vermelhos, por vezes verdes vibrantes, estavam em todo lugar. Contra elas, o mar de escuro, os  marrons, os cinzas , os pretos. Na moda, do seco das linhas retas, ao que vimos no ano passado - e que ainda perdura - os balonês, os retrôs, os lacinhos por todos os lados, literalmente dos pés à cabeça.
E na minha caminhada de hoje, pesada e lenta por conta da cabeça cheia de coisas para pensar - ou esquecer, quem me dera -  pensava nisso. Do como sou assim no meu dia-a-dia. Faço da transição da moda coisa pouca. Minha SPFW é  imensa, rodamoinho de sentimentos.Tenho, por vezes, mil estações em mim em um só dia. Mil modas. Mil contradições. Não que eu seja assim, duvidosa, indecisa, não. Sei bem o que quero, talvez me falte noção de escolha. Na verdade, bela concusão, são fatos externos que tiram a minha paz, o meu sossego, o meu bem pensar de mim e de minha vida. Essa minha mania  - doentia, quem sabe  -  de deixar todo mundo bem, todo mundo na boa, nem que para isso me enterre, me reprima. Sofra atrás da porta. Sofra em silêncio, chore pelos cantos, me fazendo de forte - que é a pior forma de sofrer.  Isso me deixa aquém, muito aquém, de minhas possibilidades e sonhos. E, por não conseguí-los, nem os sonhos e nem deixar todo mundo feliz, encher-me de culpas e de desculpas. Tantas que nem caberiam num bom armário, destes, enormes, de revista. Nem no arquivo  nacional, eu diria.
E sigo assim, como a moda: um dia amorosa, outro seca; um dia risonha , outro chorosa; um dia batalhodora, outro medrosa. Um dia romântica, outro azeda.  Um dia sou pura esperança, outro descaso por mim mesma. Um dia me acho linda, outra um lixo. Deve ser pelas batalhas que  tive e travei por motivos não tão firmes. Não tão verdadeiros. Batalhas não compensadoras. As tantas batalhas fracas que enfrentamos no dia-a-dia como se fossem únicas, como se dependêssemos delas para sobreviver. Aprendo que não é. Aprendo que a única batalha que me merece inteira, completa e complexa, de corpo e alma, pulo no abismo, é me amar. E que sem isso não dá para viver.  Quem sabe assim alguém me ame como mereço.


"Quem é capaz de sofrer intensamente, também pode ser capaz de intensa alegria'.
Clarice Lispector


sábado, 19 de fevereiro de 2011

Uma



 O dia hoje tem uma hora a mais, a mesma que nos tiraram quando começou o horário de verão. Estão nos devolvendo, menos mal. Uma hora  a mais. Parece pouco. Mas pense em sessenta minutos. Trezentos e sessenta segundos. O que fazer com tanta coisa?

As ideias são muitas. Pegar um livro, tipo Clarice Lispector, e aprender mais sobre o amar. Ou, no meu caso, esquentando as turbinas para meu TCC, sobre a cidade em que vivo, saber mais de sua histórias e seus porquês. Um filme, quem sabe, aquele que estamos sempre adiando - mesmo que se tenha que roubar uns minutos da outra hora que vem. E nele , uma pipoca vai bem. Devorar um pote de sorvete vendo um filme qualquer. Agarrar o filho sem querer mais soltar. Caminhar para sentir o vento em mim. Repôr o sono atrasado, esse companheiro bom que me tem faltado. Ligar para o meu outro lado, sempre tão ocupado. Lembrar da amiga que faz aniversário, soprar as velas de um bolo imaginário. Ligar para a mãe com quem tem se falado pouco. Ligar para o pai para ver como está. Ou simplesmente deitar na cama e deixar a vida passar,assim, meio calma, meio zen. Será que a chuva vem?

O dia hoje começou com sol , que já se cobriu de nuvens, por enquanto ainda leves, em mim. Estou como está o dia: meio sol, meio sombra, meio quente, meio fria. Tenho uma hora a mais e não sei o que fazer. Fazer dele um dia rosa ou cinza. Mas cabe a mim decidir se será uma hora a mais para me gostar ou me odiar. De ganhar ou perder. Lembrar ou esquecer. De fazer o sol voltar ou deixar que as nuvens virem chuva. Minha alegria é saber que depois do temporal o céu vem mais limpo. O sol mais quente. Parece simples assim. Eu, pelo menos, vou tentar.

É, parece que Clarice, a Lispector, previa futuros, inclusive o meu:

"Eu sou o meu próprio espelho.
E vivo de achados e perdidos.
É o que me salva.
Estou metida numa guerra invisível entre perigos".

Pior eu, que nem sei quais são, verdadeiramente, os meus perigos. Quem me dera ter um pouco menos de sensibilidade, não me deixar levar pelos atropelos da vida....Ou , bem ao contrário, ser mais rosa, menos breu. Mais eu.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Fato



Está provado cientificamente: paixão dura dois anos. Como fizeram, não sei. Medir algo, a meu ver, ininteligível, imensúravel , inesquecível e outros tantos' ins'? Como se mede um sentimento? Talvez pela temperatura corporal, suor nas mãos, olhos brilhantes, emoção à flor da pele ou batimentos cardíacos acelerados dos participantes de uma pesquisa, quem sabe.Ou fizeram com os encarcerados ratos?

Bom frisar que falo de paixão por outra pessoa, outro sexo ou não. Não das tantas outras por sorvete, pote de açai, livros, cinema, filmes na madrugada. Liste ainda brincar com cães e crianças, dar colo ao filho adolescente, deixar o chocolate derreter na boca. Água gelada quando se está com sede. Fazer e sentir cócegas. Sair para colocar o papo em dia com amigas. Rir muito, e bem alto. Provar uma comida nova. Testar uma receita nova.Ver uma charge inteligente, ler um texto idem. Molhar os olhos por causa de uma foto bem tirada, um subtítulo fatal. Aliás, tirar fotos em geral. Uma boa aula, um ótimo palestrante. Uma conversa com alguém interessante. Um café quente quando se está com frio, pele ou coração. Cheiro de café passado, de pipoca de pipoqueiro. Gentileza gratuita. Recadinho bem dado. Beijo roubado que pode ser até do filho. Ah, são tantas, nem dá para listar. Ia faltar espaço...

E, bem ao contrário, tenho as aversões, para não usar palavra pior. Da falta de verdade. Da querência de controle. Da relação atravancada pela mágoa. Da trapaça bem pensada. Do ato mesquinho. Da falta de ética seja onde for. Da fofoca, mal do mundo. Da grosseria das palavras mal usadas, feito cuspe na cara. Da cara virada. Da posse egoísta do ter por ter. Do esperar que o outro, enfim, caia. Tudo isso me abala. Traz, também, os mesmos sintomas da paixão - calor, suor, batimento, arrepio. Só que numa versão contrária, nada indicada. Veneno, não sopro ou remédio. Mata, não traz a vida. Deve ser por isso que não vejo novela, caldeirão de tudo isso. Sinto-me mal. Enojada. Suja. Como se tivessem me contaminado.

A paixão, dizem, dura dois anos. Depois não se sabe seu rumo. Ou vira amor - que nada mais é que a paixão sem os rompantes de fôlego, a paixão sossegada, deitada na rede de amar - e nem sempre leva esse tempo todo. Ou vira amizade, que me parece um tipo de amor, desde que seja verdadeira, sem interesses escusos, nem vestígios de esperança.

Dizem, também, que devemos ficar com quem se gosta de conversar. Com quem se tem afinidades. Com quem nos faz rir - ou até chorar, mas de tanto rir , ou de emoção. Com quem gosta de nos cuidar, não pelo que estamos, mas pelo que somos. Com quem precisa de nós e nós dele. Com quem nos trata com gentileza. Com admiração. Porque um dia o fogo da paixão apaga, o corpo não ajuda, o amante vira amigo, e a gente quer mais é alguém que nos respeite como a gente é, que nos cubra no inverno, que nos compre um bom livro e que saiba fazer uma massagem nos pés . Ou uma boa sopa.

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

Cecília Meireles





quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Entregue



Tive uma noite tórrida de amor. Poucas horas que valeram um mundo. Coisa esperada, desejada a muito tempo por mim. Amor maduro. Sincero. Destes que a gente se entrega sem nem pensar. Destes de se abandonar a própria sorte e nem parar para pensar nas consequências. Demorei para aceitar, e só o fiz quando, enfim, entreguei as armas e me rendi. Fiz as pazes com o sono - que até ontem parecia estar de caso com a dona insônia, como já contei aqui para vocês. Minha entrega foi longe: perdi a hora. Não sei como isso aconteceu, foi tão rápido! Nem adiantou o despertador, nem o celular com hora marcada.
Nada me fez separar dele.
Logo vi que ele estava ontem me rondando desde cedo. Sedutor incorrigível quando quer. Paciente e persistente. Massageia o nosso ego, fala baixinho no ouvido, faz o tempo ficar frio. Enlaça com sua manha já bem conhecida. Arrepia a pele. Tenta nos beijar.
E eu, disfarçando, fugindo. Estava tentando fazer as pazes comigo mesma. Tinha perdido a confiança  em mim e  nos outros pouco antes, ducha de água fria que me manteve alerta. Relutei até onde pude, cansada de  relações onde perco o raciocínio. Onde fico com medo de me entregar. Fiz de conta que não notava o assédio desde cedo. Chegou de mansinho, sorrateiro, romântico que só. E eu tentando ler, tentando ser, tentando estudar,  mesmo com ele ali, na minha frente, me convencendo a largar tudo e compartilhar com ele belos momentos de prazer. Sei bem como é. Sabemos.
Tive uma noite tórrida de amor  e acordei num susto só. Nem sabia onde estava. Nem o despertador conseguiu me centrar. Água na cara, pasta na boca, filho a chamar. Correria. Mas acho que ele também gostou. Seria normal ele me abandonar logo cedo, sem eu nem vê-lo sair, pé ante pé, como fazem os machos. Mas não. Continua em mim. Entrou em mim para ficar. Quem sabe eu marco um encontro casual logo depois do almoço...Quem sabe convenço ele a ficar. Nem que seja por uns minutinhos.

"O que nos tranqüiliza no sono é a certeza de que dele retornamos.
E ele nos cura temporariamente da fadiga pelo mais radical dos processos, isto é, arranjando para que cessemos de existir durante algumas horas."

 Marguerite Yourcenar

Descubro que, na verdade, ele é um grande amigo. O que já está de bom tamanho.





quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Caso



Ontem insisti, tola, para que o sono viesse para cama comigo. Tentei seduzi-lo em vão. Fiz todas as práticas possíveis, desde o banho morno e cheiroso ao chá quente. Deitei, rolei, tentei várias posições - e ele nem notou. Desisti do ensaio às quatro horas -  que dizem ser da manhã, mas ainda era noite. Desisti dele, enfim, depois de muito brigar - uma briga silenciosa, eu e meus longínquos pensamentos. Tentei dar as costas, fazer-me de boba. Nada adiantou. Dei um cochilo de minutos enquanto ele sorria,
vitorioso em sua pequena trégua.
"Ok, você venceu. Batatas fritas", diria Mesquita. Levantei bem cedo ainda. Noite da manhã. Até os passarinhos ainda a dormir. Talvez a coruja esteja a espreita cuidando de seu ninho. Eu e ela, coruja estou. Somos, ela dos ovos, eu da vida. Paparico a minha até onde dá.
Nem sei que tanto a vida queria conversar hoje. Está certo que o dia ontem foi muito, mas por isso mesmo, reclamo,  eu merecia uma folga. Ficamos eu, a chuva, a música no rádio-relógio e o sono em silencioso papo. Mas chega um momento que o assunto falta. Desisto, me arrumo e desço. Eu e o sono que, pelo visto, vai me acompanhar o dia inteiro ( não quero me assustar, mas acho que ele anda apaixonado por mim...). Tentamos fazer o café, ele sem prática, eu bocechando, belo par. Café feito, cá estou a tentar me explicar, o sono ao lado. Entender. Tirar de mim tantos pensamentos vãos, enormes vãos, que mais parecem obra de Niemeyer. Pelo menos os sonhos do grande mestre ficam de pé. Eu com o meu, hoje, já não sei.
Mas, enfim, começa um novo dia. O presente da hora - ou de muitas. Vai demorar para clarear. Um dia que , suponho, vai passar mais devagar do que minha pressa de voltar para a cama. Um dia talvez como os outros. Um dia qualquer. Um passar de horas que caminham de mãos dadas com as coisas a fazer. E eu tentando levar as minhas tendo esse amante ao meu lado, grudado. Se diz discreto, mas está em meus olhos murchos e vermelhos; na boca que , querendo ou não, vai se abrir a bocejar.
Ontem levei o sono para a cama e ele me desprezou. Mas o dia está chegando, devo me recompor, recebê-lo bem. E nem ligo: a conversa, confesso, estava até boa, agora acompanhada de um bom café a dois. Na verdade, cá entre nós, acho que meu sono anda de caso com a dona insônia, e me usam para se encontrar...

"A vocês, eu deixo o sono.
O sonho, não!
Este eu mesmo carrego!"

Paulo Leminski




terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Pólen



Por vezes, muitas, basta uma imagem e vem um texto completo. Viajo nela e em toda a sua dimensão, a imensidão que ela me traz. Vejo longe. Vejo a flor, pétala rosa, minha cor do ano, e o suor do orvalho. Lembro do pólen. Levado pelos insetos, faz outra flor. E essa, expõe o seu, e esse é levado e fecunda outra, que vira flor,  e assim se faz um jardim. Muitos. Uma primavera em furta cor. E eles, os bichinhos, tão pequeninos e tão poderosos (pergunte isso a um produtor de maçãs...), nem se dão conta de sua grandeza, nem sabem seu importante papel.
Assim deveríamos ser diante da vida. Das coisas que nela se apresentam. Deixar que levem da gente só nosso pólen criador. Mais dele virá, e mais, e mais, numa entrega incondicional - palavra que tem em acompanhado muito. Dia após dia. Flor após flor. Levar conosco só o que dá vida. Frescor.
E veja que estranho: ela, a flor, vive pouco. E é pura doação. Quando bela, encanta e perfuma. Usa disso para atrair os polinizadores. E quando morre e vai ao solo, aduba. Se você parar para observar, um ciclo perfeito, que emociona. Eu, manteiga cheia de sal e bem derretida que sou, por vezes choro. Quem sabe está ai meu pólen, a emoção.
 A vida tem sido dura e me faz, por vezes,  perder o encanto - por mim e  por ela. Minhas pétalas nem sempre estão firmes, meu perfume nem sempre pronto. Meu pólen, às vezes, parece não bastar. Mas sei que é passageiro, como é a estação, como é a flor. Mesmo que não  fecunde outra , meu pólen está lá. Está na alegria que passo aos outros,  mesmo quando ela não está em mim.  Está no carinho que faço, mesmo sem nem tocar. Na preocupação de longe, no amar de perto, na risada forçada para que não desconfiem onde minha cabeça está. Minha cabeça anda em mim. No que fui e no que sou. No que quero ser. Refazendo meus passos, reconhecendo meus erros, tentando acertar. Desviando do que não é meu. E agarrando o que a vida me dá. Minha cabeça, linda e loira, está onde tem que estar. No que espero  para mim. Meu pólen criador. Meu jeito de amar o mundo. De me encorajar.

"A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem".
Alguém conhece o autor?
Já descobri: João Guimarães Rosa

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Pedido


Se me fosse concedido um único pedido - daqueles do gênio da lâmpada, nosso sonho de criança - eu já o tinha na ponta da língua, louco para saltar. Pediria, sem nem pestanejar, para ter o poder de esvaziar  minha cabeça, na hora que eu bem ou mal quisesse, de assuntos que não quero mais.
Minha cabeça mais parece  um armário abarrotado de coisas, destes que temos dificuldade de fechar a porta, empurrando com o corpo todo, rezando mil pais nossos para conseguir se livrar da sina. Seria bom poder dar um 'delete' - sim, essa é a palavra da vez, deletar - e com um simples toque do dedo, limpar  a gaveta abarrotada dos problemas sem solução. De pensamentos redundantes e teimosos. Dos causadores de dores, tristezas e enxaquecas. Já sei o que vão dizer: se não tem solução, solucionado está. Ai que está a questão. Belo dizer, mas não acreditamos ( e acreditar é tudo). Sabemos da não solução e mesmo assim esse grande 'lixo' fica ali ocupando espaço. Estorvando, ocupando espaço, feito roupa que não cabe mais. Deve ser aquela nossa velha mania de achar que  um dia a moda volta. Ou que, enfim, emagreceremos para, de novo, vestí-la.  Como a gente se engana na vida...amortece a queda. 
Por vezes penso que é lixo mesmo, destes que fede. Feito os restos da festa, esperando que o caminhão do lixeiro recolha. Ledo engano. Ele não vem. E o lixo será degustado por cães abandonados, revirado por catadores. E amanhecerá rasgado e esparramado pelo chão. E ai, das duas, uma: ou se limpa tudo e se começa todo o processo de novo, ou se vira as costas e deixa que as coisas se resolvam por si.
Mas por outras a gente quer, mesmo, é guardar. Não nos serve mais, não nos alimenta mais, nem é mais nosso. Mas traz boas lembranças. Misto de alegria e tristeza ao pegá-lo na mão. O coração dispara. Lembrança de um tempo bom. Leva-nos a um passado por vezes muito próximo. Ou aos tempos que ainda levávamos o filho até a porta da sala de aula pela mão. Cabendo ainda na gaveta da vida ou não. Desses a gente não se desfaz. Como se isso nos fizesse mais feliz. Ou nos desse chão. Estes, é melhor limpar a gaveta e voltá-los a guardar. Os outros, tantos, que se virem para caber em outro lugar.

"A vida é igual em toda a parte.
O que é necessário é a gente ser a gente".
Clarice Lispector




domingo, 13 de fevereiro de 2011

Descoberta



É na hora da briga, da discussão que sabemos realmente o que a outra pessoa pensa de nós, homem ou mulher. O despeito traz à tona sentimentos bem guardados no outro, que ele morre de medo que se descubra. E muitas vezes -  penso eu e tenho respaldo de gente grande no assunto -  que  o que ele  - ou ela - mais despreza nos outros é o que mais sente medo de ser, se já não é.
Se me dizem invisível, bem sei que é porque minha presença incomoda 'por demais da conta', como dizem por ai. Porque sou. Não é nada fácil me ser, mas sou. Se me desprezam,  é porque sabem meu real valor e tentam, assim, me rebaixar. Se me chamam de incompetente é exatamente por medo que eu ultrapasse meus  limites. Se chamam de mal amada é porque invejam esse amor que tenho em mim, e que me faz conquistar um mundo.Um amor, que aprendi, não pede nada em troca. O mundo a ser conquistado se eu quiser e quando eu quiser.  E, pensem, quem me chama disso ou daquilo deve estar fugindo feito louco de não o sê-lo. Simples assim. O ignorante vê no outro o seu espelho. O sábio também.
Vejamos o outro lado. Chateia, claro, sempre queremos ser bem vistos, benquistos. Amados. Perfeitos. Imaculados. E para isso damos o nosso melhor, somos o nosso melhor. Eu dou o meu melhor quando me dão abertura para tal. Não sou de dar "pérolas aos porcos", como alguém um dia brilhantemente definiu  o 'dar o tudo ao nada' (pobres porcos, pagaram o pato!) ( risos). E se isso incomoda alguém, esta pessoa deve ter lá os seus motivos. Geralmente mágoas, com a gente ou com outros - e nos usa de lixo. Depósito delas mesmas. No que não querem mais para si. Para elas, minha primeira arma é o silêncio. Afasto meu olhar  - ou calo minha boca - por simples receio que vejam em mim o que realmente penso delas. Não por medo de falar, mas por medo de ferir. As muitas balas de uma metralhadora são bem mais difíceis de controlar do que uma bala única. Só para as que amo, para as que me interessa realmente ver feliz, sento , olhos nos olhos e converso. Respiro fundo, reflito antes de falar. Penso muito. Falo devagar. Uso de palavras leves para não magoar - nem a  mim, nem ao outro. Porque não tem nada mais puro que a verdade. Nada mais necessário. Mas como já disse por aqui, a verdade nua a crua pode ferir e até matar. Não a pessoa, mas o que se teve ou o que se tem.  Nada melhor seria do que saber realmente o que o outro sente. Como ele nos vê. O que realmente quer de nós. Mas não se engane, as palavras nunca vem nuas.  Vêm sempre mascaradas, hora de mágoas, hora de interesse. Ou de segundas intenções, boas ou más. Ou ainda vestidas da leve lingerie do medo de nos perder. E se há esse medo, muita coisa tem por trás. Nem que seja o simples desejo.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Pitadas


Toda pessoa que gosta destas coisas sabe. No café, pitada de chocolate. Aguça o sabor. No chocolate, pitada de café. Gosto de capuccino. No doce, pitadinha de salgado. Até dizem que "o segredo do doce é o sal". Tira seu excesso melado. No salgado e ácido, pitadinha de doce. Deixa  o sabor descer mais leve, sem morder a língua. Pimenta o suficiente para se sentir quente, não para queimar o céu da boca. Um alho para se proteger de todo mal. Raspas de limão para aromatizar. E cheiro verde, esse sim, em abundância, que é só coisa boa, puro frescor, clorofila que purifica a vida.
É, a culinária nos dá boas lições...
Assim devíamos fazer em nossa vida, no passar das horas, com nossas coisas. Em nossa forma de pensar e agir. No meio da discussão, um freio, uma parada. Respirar. Quem sabe a gente cuida mais das palavras numa próxima vez. No meio do beijo desenfreado, ávido, parada para olhar nos olhos do outro e ver nele a certeza do iluminar. Ciúme, sim, mas só um pouco. Mostra que me importo. E logo temperá-lo com um uma pitada de confiança ( ou muita, nesse caso). E generosas colheradas de meu amor. Inveja pode, mas só aquela boa que não faz mal a ninguém, só ajuda a levantar estimas. Saudade, ah, essa sim, perfuma e faz a gente desejar. Essa não temo em exagerar.
Isso tudo me faz lembrar os orientais que ensinam que se deve deixar um pouco de comida no prato. Deixar o corpo com ares de quero mais. Não saturar, nem empanturrar. O corpo não estufa, a mente não pára de pensar. Vou tentar me policiar da próxima vez. Quem sabe nas palavras malditas. Quem sabe nas palavras escritas. Por vezes saem destemidas e podem muito bem machucar. Quem sabe nem termino meu pensar. Quem sabe vai ser bom. Cada um lê e termina seu  /meu texto como quiser...Quem sabe vale tentar.

" O que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua,
mas não o texto".
Fernando Pessoa



Vôo



Parece ser a minha lição do dia. Melhor dizer da semana, já que ontem mesmo escrevi sobre isso. Do quanto achamos que o outro nos entende. O quanto supomos que nossa falta rasa ou total de palavras certas, nosso silêncio genérico, será subentendido. Compreendido. Explicado em detalhes até. Então, lá estava ela para, a grande Clarice, como sempre, para salvar-me da fogueira de ser única, e, portanto,
louca ou bruxa:

"Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece".

Peguei carona no pensamento dela como quem vê um raio cair. Cometa passando no céu. Estrela cadente. É isso! Faço das pedras do caminho da vida muralha de proteção ou entulho incomodante. Intransponível, como ela diz. O que me dizes , entendo. Ou procuro. O que me mostras, demonstras, entendo mais ainda, ainda que do meu jeito torto de ser. Mas teu silêncio me dá asas, grandes asas que por vezes nem sei controlar. Aparecem feito mágica, difícil explicar. Asas brancas e lindas, nem que seja por um momento, que trazem sonhos, esperança. Ou negras e pesadas, das coisas que tento negar. Clareiam minha alma e meu dia,  fazem meu sol brilhar mesmo na chuva. Ou trazem cinzas e  um certo ar abafado de quem anuncia um terrível temporal. Teu silêncio, embora já conhecido,  beija ou bate.Não deixa por menos.
E, se eu fosse Clarice , a Lispector, e tivesse o dom das palavras poucas e certeiras, diria: o que não é dito às claras, faço dele castelo ou abismo. Depende do dia, dependa na hora, depende de como te vejo passar.



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Lista


Velhice. O que antes era um fim, hoje pode ser um recomeço. Meu pai discorda, mas chamam de Melhor Idade. Levo em consideração que reclamar sempre foi a marca registrada dele. E nessa reclamação toda, tanta perda de tempo, tanta cegueira inútil. Tanto deixar para depois, tanto deixar para amanhã.
Terceira idade. Estamos vivendo cada vez mais. Nestas horas lembro de minha vó que morreu 'velhinha, velhinha' aos 63 anos! E se tem uma coisa que admiro - e me emociono de verdade - é ver senhoras e senhores passando dos 80 'numa boa'. E o que vejo neles não sei se vou alcançar. Uma serenidade, uma paz difícil de se ver em qualquer lugar. A fala mansa, os atos sem pressa, um olhar que fica longe, como se defendendo de algo, dos alvos, das flexas erradas da vida. Das coisas que já sabem inúteis.   
Eis que recebi essa mensagem. Diz ser escrita por Regina B., 90 anos de idade,  colunista de um jornal nos EUA. " Para celebrar o meu envelhecimento", começa ela, " certo dia escrevi as 45 lições que a vida me ensinou. É a minha coluna mais solicitada. Meu hodômetro passou dos 90 em agosto, portanto aqui vai a lista mais uma vez'. E dá dicas, hora divertidas, hora nem tanto de como sobreviver a este mundo louco. .Em comum em todas a lucidez de quem já viveu muito e não se deixou levar pelos atropelos do mundo. E alegria, o que em move. E, claro, postei ao lado minhas não tão lúcidas colocações. Mas me dêem um crédito: estou na metade do caminho.

1. A vida não é justa, mas ainda é boa.
2. Quando estiver em dúvida, dê somente o próximo passo, bem pequeno.( Logo eu, que me jogo...)
3. A vida é muito curta para desperdiçá-la odiando alguém.
4. Seu trabalho não cuidará de você quando você ficar doente. Seus amigos e familiares cuidarão. Permaneça em contato. (Achei bárbaro isso)
5. Pague mensalmente seus cartões de crédito. (Ajuizada...)
6. Você não tem que ganhar todas as vezes. Concorde em discordar.
7. Chore com alguém. Cura melhor do que chorar sozinho. ( Não tenho coragem)
8. É bom ficar bravo com Deus. Ele pode suportar isso.
9. Economize para a aposentadoria começando com seu primeiro salário.(Ixi!)
10. Quanto a chocolate, é inútil resistir. (Adorei!E falta o sorvete!))
11. Faça as pazes com seu passado, assim ele não atrapalha o presente. (Grande lição...)
12. É bom deixar suas crianças verem que você chora. (Ou seja, seja verdadeiro)
13. Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem ideia do que é a jornada deles.
14. Se um relacionamento tiver que ser um segredo, você não deveria entrar nele.(Sério?)
15. Tudo pode mudar num piscar de olhos Mas não se preocupe: Deus nunca pisca.
16. Respire fundo. Isso acalma a mente. ( Tento, às vezes, para me sentir viva)
17. Livre-se de qualquer coisa que não seja útil, bonito ou alegre. (Energias ruins acumuladas)
18. Qualquer coisa que não o matar, o tornará realmente mais forte.
19. Nunca é muito tarde para ter uma infância feliz. Mas a segunda vez é por sua conta e ninguém mais.(Bem sei...)
20. Quando se trata do que você ama na vida, não aceite um não como resposta.(Combinado!)
21. Acenda as velas, use os lençóis bonitos, use roupa chic. Não guarde nada para uma ocasião especial. Hoje é especial. (Ok, estou aprendendo...)
22. Prepare-se mais do que o necessário, depois siga com o fluxo. (Preciso aprender)
23. Seja excêntrico agora. Não espere pela velhice para vestir roxo. (Já sou!)
24. O órgão sexual mais importante é o cérebro. (...risos)
25. Ninguém mais é responsável pela sua felicidade, somente você.
26. Enquadre todos os assim chamados "desastres" com estas palavras 'Em cinco anos, isto importará?'
27. Sempre escolha a vida. (Sempre escolho)
28. Perdoe tudo de todo mundo. (Inclusive de você...)
29. O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta. (Que bom!)
30. O tempo cura quase tudo. Dê tempo ao tempo. (Espero...)
31. Não importa quão boa ou ruim é uma situação, ela mudará. (Idem)
32. Não se leve muito a sério. Ninguém faz isso. (Grande verdade...)
33. Acredite em milagres.
34. Deus ama você porque ele é Deus, não por causa de qualquer coisa que você fez ou não fez.
35. Não faça auditoria na vida. Destaque-se e aproveite-a ao máximo agora.
36. Envelhecer ganha da alternativa -- morrer jovem.
37. Suas crianças têm apenas uma infância.( Depois vem a segunda infância, você prometeu!)
38. Tudo que verdadeiramente importa no final é que você amou. (Bem sei...)
39. Saia de casa todos os dias. Os milagres estão esperando em todos os lugares.
40. Se todos nós colocássemos nossos problemas em uma pilha e víssemos todos os outros como eles são, nós pegaríamos nossos mesmos problemas de volta. (Sério?)
41. A inveja é uma perda de tempo. Você já tem tudo o que precisa.
42. O melhor ainda está por vir. (Promete?)
43. Não importa como você se sente, levante-se, vista-se bem e apareça. (Ok, ok)
44. Produza! (Mais?)
45. A vida não está amarrada com um laço, mas ainda é um presente. ( Isso me digo todo dia...)

Leio. Releio. Respiro. Rio de uns, sinto o coração apertado com outros. Outros tantos estou a  descobrir em mim, eu, na minha meia-idade ( nunca é tarde...). Mas ela tem razão em muitas coisas. Não levar tudo tão a sério ( e me criticam tanto por isso...), o que parece nos envelhecer a galope. Ter esperança - e sou PHD nisso. Amar muito, sem esperar nada em troca ( estou aprendendo...).  E o mais importante: "a vida não está amarrada com um laço, mas ainda é um presente", diz ela. Sou teimosa. Ponho um laço na Vida todo dia. Acordo o Amor com fala mansa, beijo na testa. E tomo cuidado para que o laço não se feche em nó. Não sufoque ninguém, nem me sufoque, nem me amarre, nem me reprima. Porque de mãos atadas não dá nem para comer chocolate.Que dirá sorvete.














quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Muralha


Faz tempo que penso nisso e hoje lembrei de repensar. Rever meu conceito antes que vire preconceito
 ( ou seria bem o contrário?).
Temos, imagino que todos, a mania de achar que as pessoas lêem nosso pensamentos. A ideia está toda  em detalhes na nossa cabeça - instruções para a secretária, pedidos para a empregada, as vezes até para a manicure , uma atendente de loja, a costureira, ou seja lá quem for, em qualquer diálogo. No fundo achamos que a outra pessoa pensa como nós, vê as coisas como nós vemos. E se ela não atinge a este 'nivel' de compreensão, menosprezamos. Fazemos pouco. Fazemos do outro, pouco. Puro preconceito. Vejo isso todo dia, faço isso , sinto, e me policio, ou tento. Dou a mão - e a língua - à palmatória.
Discutimos tão somente com nossa prodigiosa mente e , feito o rescaldo - ou não - colocamos o suposto resolvido para fora. Fazemos isso com o companheiro, colega, sócio ou até professor e projetamos isso em nós. Tudo resolvido, alinhavado, entendido. Claro para nós, nem tanto para eles.  E ao tentarmos passar isso ao outro, voulá,  já vai a coisa pronta, estabelecida , decidida. Resumo de nosso pensar. O prato pronto, quando o outro, por vezes, nem sabe da refeição. Queremos que engula tudo sem nem saber o que come, ou porque come . E que goste, enfim, aceite de bom grado! E sem reclamar.
Dai vem muita desavença. Porque, como já alertou sabiamente Victor Hugo, " a palavra, como se sabe, é um ser vivo". Transforma-se  já ao vir do pensamento ao ato de falar. E transforma-se ao se dirigir ao outro. Que, por fim, recebe do seu jeito, entende do seu jeito, e aceita ou não. Entende ou não. Damos a sigla e ele que descubra todo o resto. Damos a  charada e o outro que descubra a saida, se tiver. Labirinto montado. Muralha que nos impede de chegar ao outro. E eu, particularmente, tenho ai dois problemas: sou péssima em charadas. Mas muito boa em fazer meu pensamento voar, fazer a viagem que eu quiser com a passagem recém entregue das palavras. Um único e simples tiquet e dou a volta ao mundo, sabe-se lá em quantos segundos.  
Prepotência nossa? Minha? Pode ser. Falta de humildade e de caridade, melhor dizer. Vemos o outro como igual e não é. Nem se fosse clone. Porque nem eu mesma sou a mesma de ontem. Ou de uns minutos atrás, antes de começar a me deixar aos poucos nesse texto. Nem você que me lê.

( Grande Muralha da China. Foto de Daniel Vergara, Santos, SP)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Revisão



Acho que não tem situação mais dificil de se levar do que uma separação. As nãos consensuais, claro. Como a própria palavra mostra, com senso, bom senso. Alguns poderiam dizer que a morte de alguém próximo, sim, ou doença. A diferença, penso, está em que nessa situação não há compaixão. Não há delicadeza como se tem em outras. Meio morte, meio doença. Cada um pensa por si e acha que tem toda a razão. Que só o outro erra. Cada um pensa separado uma coisa que até pouco tempo era  junto - ou pelo menos devia ser. O outro vira vilão. Eu sou vítima. Simples, ou nem tanto, assim.
Relacionamento de dois é tarefa difícil. Não diria soma, mas junção de dois, de duas formas de ser, de duas formas de pensar. E tendo com cola o amor - ou pelo menos o respeito, conforme for. E com o passar do tempo, o que é bom se perde pelo caminho, feito as migalhas de pão de João e Maria. O próprio tempo  - e os bichos da floresta  - se faz voraz. Olha-se para trás e nada se vê. Olha-se para frente e se vê a bruxa. Não se acha mais a volta ao que se teve de bom. Nem ao recanto seguro dos dias. Não se lembra nem os porquês. A convivência , parece, nos dá pilulas diárias de amnésia emocional. O que ajuda no início, conviver para conhecer, pode se transformar em uma massa pegajosa difícil de se limpar.
E ai é que mora o perigo. Do amor  - e/ou amizade - e respeito ao nada. Ou melhor dizer, ao tudo que há de pior. Na faxina final das coisas, no final da mudança, ficam só os restos, coisas que ninguém quer carregar. Sentimentos que ninguém quer revisar. Faz-me pensar nas enchentes. Como se o relacionamento fosse um córrego. E nele jogássemos apenas o que não queremos mais, dia após dia. Sem nos dar conta que , cedo ou tarde, o rio cobra seu espaço.Cobra respeito. Cobra cuidados, respostas bem dadas. Promessas esquecidas. Pede limpeza. Clareza. Não as mágoas que deixamos para trás e  que jogamos, enfim, todas juntas na mesa. Ele devolve as acusações, as palavras mal ditas. Tudo vêm à tona e transborda. E que belo estrago faz. 
O que pensar de tudo isso? Esperar que o riacho seja complacente. Que entenda que somos humanos. Que entenda que mágoas se formam ao longo do tempo e tem que ser despejadas em algum lugar, se não conseguirmos reciclar. E que nós não aprendemos com  a vida a limpar as coisas de forma mais assídua, cuidadosa, interessada, comprometida, não deixando tanto lixo acumular. 
Mas, se não há outra saída, que pelo menos tenhamos cuidado para não lacrar as portas. Às vezes pode-se precisar delas para entrar. Bom seria se todas as separações fossem bem recebidas. Bem resolvidas. Ainda mais quando se tem frutos. Entender que uma coisa nada tem a ver com a outra. Que posso não servir como companheiro, mas posso ser ainda um amigo. Um par em prol de algo. Um bom pai. Uma boa mãe. E desse título ninguém se 'livra'. Nisso, ninguém é 'ex'.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Centrada



Quantas e quantas vezes ouvimos uma música e ela não nos toca, não nos chama até ela. Escutamos, cantarolamos, gostamos até, mas não prestamos atenção real na letra. São só belas palavras bem escolhidas, bem colocadas, melodia que encaixa, mais nada. Mas é chegada a hora em que ela nos entra, momento certo de que precisávamos para que ela fizesse parte de nós. Momento certo, pode ser. Amanhã talvez seja outra a nos invadir. Mantra da vez.
Hoje eu a escolhi. Ou ela a mim. sei lá. Não peguei a letra toda, nem me cabia. Guardei em mim somente o que me era devido. Pedaços de mim nela. Entraram, fizeram ninho. Recebo, acolho, ouço e deixo que a vida me mostre os caminhos, os porquês. Até para que eu entenda o que se quer dizer. Até que eu me entenda.

Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar, e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora

É, mas tenho ainda muita coisa pra arrumar
Promessas que me fiz e que ainda não cumpri
Palavras que aguardam o tempo exato pra falar
Coisas minhas, talvez você nem queira ouvir


Deixo que me invada. Abro meu peito e recebo o presente do dia. Lições em cada frase. Escuto. Acato. Ponho fé. Faço delas, minhas. Deixo o rio da vida passar e me sento na margem dele, molhando tão somente os pés para me refrescar, vendo meu reflexo em suas águas calmas. Ou cautelosa, ouvindo de longe o barulho das águas revoltas. Lembro que o rio que passa não é mais o mesmo. Nem eu, que o olho. Sou outra. Somos. A única certeza  de que se tem é que ele vai para o mar.
E eu ainda nem sei onde vou parar.
Mas como diz a letra bem pensada, são 'momentos que são meus e que não abro mão'. Sigo solitária - e feliz - nessa busca sensata de me achar. E 'vou deixar a rua me levar'.
Quem sabe ela me mostra o bom caminho?

Trechos da letra da música 'Pra rua me levar', de Ana Carolina











Segredo

Tenho umas coisas em mim que muitos chamam de infantil. Talvez a delicadeza do romantismo, para os céticos , seja infantil, fraco. Assumo que sou, romântica e ingênua, mas não largo esse meu lado que me sustenta sempre com o coração batendo forte e um sorrisinho escapando nos lábios, mesmo que tristes. É uma rama de defesa para mim. Galho de arruda. Meu brasão de ser de bem com a  vida. Anestésico, às vezes. Impulsionante. Energético. E, roubando a frase já tatuada na mente do Amor,
 " paixão que move meu mundo".
E gosto de materializar. No amor gravado, no conteúdo imaginário. Um bom exemplo é um pingente dado por meu filho - destes tipo caixinha, que abre e se põe foto - onde tenho 'beijos'. Você leu bem: beijos. Fez isso ao me dar, anos atrás. Abriu  a caixa, beijou muito e fechou rapidamente, para que não fugissem. para que eu o levasse junto, sempre. Um belo estoque de seu amor. Minha Caixa de Pandora. E volta  e meia eu peço "recarga", o que ele faz de boa vontade, e cada vez mais forte - ao contrário que se podia imaginar dada a 'adolescentice', que ainda não se manifestou contrária. Estão lá. Alento em mim. Feito bateria. Ponho-os junto ao peito e meus batimentos voltam a me acordar, feito eletrochoque. Ressuscito.
Sou feita assim, de sonhos. De detalhes que me impulsionam. De exageros, talvez. Cabeça de vento. Doidivana. Chamem do que quiser. Mas sinto isso como uma fórmula mágica, vacina contra o desdenho. Contra a mesmice. Contra o passar pela vida por passar. Dela não quero nada. Só meus amores. Esse vão comigo em meus metais.
E me deixo levar pela letra da música Ruas de Outono, na voz forte de Ana Carolina ... "quero ter você bem mais que perto, com você eu sinto o céu aberto"...Abro as asas, me entrego. E vôo, sem parar.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Pesando as coisas



Perguntaram-me se perfeita. Longe disso. Perfeição freia, sei bem como é. Quem sou não sei, mas como pelo menos humana, e isso é fato, e como tal cheia de defeitos - uns de fábrica, outros adquiridos pelo tempo. Como trancas de porta que necessitam de um jeitinho para abrirem ou fecharem, talvez para que só o dono as use. Portanto, nada de perfeição em mim ,a não ser em momentos tais, quando me reconheço e me esmero. Nada balanceado feito eixo de carro. Bom se pudéssemos, bom se eu fosse. Entram na oficina da vida e se pôr em dia, metade para lá, metade para cá, tudo metodicamente dividido.
A vida nos dá manias. Sempre pendemos para um dos lados. Uma forma de não aceitar tudo o que nos vem, talvez. De nos diferenciarmos do todo. Sermos únicos, lembrados como tal. Bela tentativa, muitas vezes vã. Selos que nos põem e aceitamos. Um de namorador, outro de lento, o outro de desligado. Talvez de avarentos, CDFs, neuróticos. Sonhadores. Donos da razão. Linguarudos, quem sabe. Ou extremamente desconfiados. Fechados. Ou escancarados, tolos. Preguiçosos. Uns confiantes demais nos outros, os rotulados de ingênuos. Uma forma, por vezes torpe, de sermos lembrados - e nunca pelo lado bom. Somos carimbos datados.
Quem me conhece de verdade me diz a frente do tempo. Nem eu mesma creio nisso. Mas me dá um certo fôlego para não me pensar louca , ou totalmente desaparafusada - o que seria um descrédito de minha parte. Na verdade , sou anatagônica. Ou toda certinha ou toda louca. Um poço de dúvidas ( ou seriam certezas em que eu mesma tenho medo de acreditar, de tão 'futurísticas'?). Um peixe fora dágua tentando se ambientar. Até tento ' fazer sala', mas chega uma hora que não dá mais. Acho que é por isso que me tolho da vida. Que me vejo - e me mantenho - sempre aquém. Por isso sempre digo que vou ser uma velhinha doida. Feliz, espero, eu com minhas contrariedades sentadas a tomar chá. Bater papos comigo mesma. Eu mesma a me apoiar a continuar a ser como sou, como acredito que deva ser.
Como sonho ser, mesmo que sonhando sozinha.
Uma mulher frente ao tempo, disseram. Que, como muitas, não pode ser como quer. Como é. Deve ser por isso que crio amarras para mim mesma, feito o elefante e seu pequeno toco. Não sabemos, eu e ele, a força que temos. Nem muscular, nem de vontade. Deve ser por isso que nos fazemos tão pesados.
E brincando com a letra da música 'A sua', de Marisa Monte, eu diria

 " me quero livre também,
como o tempo vai e o vento vem"


domingo, 6 de fevereiro de 2011

Cheia



Ontem falei de bocada, quando refletia o quanto meu filho teria aproveitado de sua longa estadia longe de casa e de seu mundinho certinho de ser. Hoje falo de prato cheio. Recebido o abraço apertado que tocou meu coração no dele, sinto-me plena e feliz. Certa dessa ligação que, como diz o Amor - e o deve tatuar em si para toda  a vida -  " move meu mundo". Agora compreendo melhor essa frase, esse total desprendimento. Esse porque. Quem sabe eu mesma não o marque em mim?
A experiência lhe fez muito bem  - fora os tantos quilos a menos, preocupantes aos olhos sempre cuidadosos de mãe.  Voltou mais centrado, certo do que quer, medindo mais as palavras ( talvez com o mesmo zelo com que dobrou as camisas na mala). Sendo mais servil e  disposto - mais até do que sempre já tinha sido.  Resolvendo as coisas, tomando as frentes. Sendo delicado, lembrando das pessoas que o cercam e que esperavam um carinho. Espero que não seja só um rompante de pós aventuras. Que essa garra e verdadeiro interesse pela vida não se esgote  pela serventia da vida. Que o simples passar por caminhos seculares tenha mostrado o real valor das coisas - do passado e  do presente.
Soube aproveitar bem. Dividiu bem seu tempo em se divertir e viver o mundo ao seu redor. Repensou melhor o tempo - da história, do mundo e dele. Fez boas ligações e consolidou outras, algumas gastas pelo dia-a-dia que nos tira muitos interesses que se perdem no passar ralé das horas. Vivenciou o que é estar em outro lugar onde não se conhece ninguém, e ver nisso a força da uma amizade, nova ou velha. Do zelo pelo outro, do interesse desprendido pelo do lado.
À mim me surpreendeu também pelos agrados. Lápis de todas as cores e museus, marcando seus passos por lá, feito diário. Coleciono. Vejo nisso meu lado retrô.  E, atendendo a um pedido de mãe que espera sempre estar nos olhos de um filho - e , assim, ver a vida como ele vê - trouxe pedrinhas catadas pelos caminhos de aventuras,  Ávila, Segovia, Salamanca, Madrid, tantas outras. Pedaços de chão pisados por ele e por tantos outros. Pedaços de  sua história. Nelas, a certeza de que eu estava lá com ele. Era eu em seu olhar atento e seu pisar cuidadoso.
Meu filho voltou e tudo recomeça, tentando voltar ao normal. Mas bem sei que ele não é mais o mesmo que foi, nem eu a que fiquei. Somos outros, e outros seremos juntos. E, espero, neste presente, melhores.