sábado, 5 de fevereiro de 2011

Bocada



Hoje meu filho volta, depois de tantos dias fora de casa, fora do país, fora de sua vidinha de sempre. Foram 50 e poucos dias longe de tudo a que está acostumado, inclusive as diárias massagens nos pés - e no ego. Sempre fomos muito ligados. Talvez pelas circunstâncias que o trouxeram ao mundo. Pela forma que me veio, assim, sem avisar, e  em época tão difícil para mim.  E tenho, a cada dia mais, a  sensação do amor incondicional em mim. Do amor que não pede nada em troca. Que se dá o nosso melhor e pronto, basta. Mas estou na expectativa - que sempre tive - que algo mude. Que dê um clique - apesar de já sabê-lo maduro a contento. Queria, apenas, que se tivessesem soltado as amarras que o deixam tão a mercê do mundo, um mundinho pequeno que só. Tão preocupado - como toda a sua geração - com os outros, com o que pensam, com o que vestem. Preocupado em ser mais um, um igual. De se deixar levar pela vida, esse redemoinho de ideias seguidas sem nem pensar. Amo, e por isso, bem por isso,quero mais dele, muito mais. E tão ainda desligado de mundos que eu penso serem um bom caminho para se ser a gente mesmo, como os livros. Como os filmes. Como fui. Como sou. Ser mais crítico, menos aceitador, mais questionador. Menos disperso nessa roda viva da vida. Ser ele mesmo, único, autêntico, o tanto quanto puder ser.
Ok, temos tempo. Mas o tempo passa rápido, eu bem sei. Os dias andam, mas os anos voam. Parece que foi ontem , garota ingênua ainda, que peguei minha malinha e fui morar em outro lugar, longe de tudo e de todos. Sai do nada para o tudo. Parece que foi ontem que aprendi, sozinha, a enfrentar um mundo totalmente desconhecido. Parece que foi ontem que aprendi a me defender  de tudo - e talvez venha dai esse orgulho que tanto criticam. Parece que foi ontem que me levantei em plena assembléia lotada da facuildade, na primeira semana, para apoiar a greve por melhorias. Que empunhei cartazes pela avenida. Que decidi como ia me portar, como ia me vestir, quem eu seria. Que  tive que aprender na prática o que é confiar e ser confiante. Respeitar e ser. E tudo veio junto, redemoinho de sentimentos: amor, ódio, vergonha e a perda total dela. Medo. Coragem. Timidez. Peito. Garra. Busca. Loucura e pé no chão. De menina a mulher feito um arrastão. Marcas que ficaram em mim e vêm à tona quando eu me deixo ser.
Meu filho volta hoje e estou ansiosa. Minha saudade virou mais amor. Quero saborear esse momento, sem pressa, como se fosse a primeira bocada de muitas. Quero ver se cresceu. Se engordou, se emagreceu. Se comeu, se gripou, essass coisas tabeladas de mãe. Mas a Joyce amiga está mesmo é a fim de saber sobre a experiência de se ser sozinho - aqui de mãe e pai, pelo menos. De tomar decisões sozinho, por menos que sejam. De escolher caminhos, nem que seja uma rua nova. De saber-se dono do nariz , nem que seja por uns instantes. Se foi - e é - feliz. Viajar, assim, amadurece. E torna doce a fruta. Espero que ele tenha aproveitado bem a deixa. Terei outros 300 e poucos dias para constatar.

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