domingo, 27 de fevereiro de 2011

Domingo


Domingo. Dia morno, que aprendi a gostar com o amar.  Dia sem muita vontade a não ser se acarinhar. Foi o que fiz, dada a distância que teima em me separar do que mais quero para mim. Levantei cedo, dia de filho - caminhada boa, regada a risadas e conversa em dia. Leitura de um livro que se fez de necessário em encantador. Um almoço feito com carinho.Um filme desejado para alimentar a alma. Soneca. Preguiça. Escrita.
Domingo. Quando era pequena, eram todos longe de casa. Na praia, mesmo no inverno, banho gelado do mar. No sítio - quando ainda nos interessávamos por isso, muita colheita de feijão, muito arrancar de abacaxi, muita noitada de olho no fogo do fogão a lenha. De comum entre os dois lugares, só muita diversão, muita água  - de mar ou rio, e banho de bacia ( aquelas, de alumínio, quem viveu, sabe...). Ah, e minha intermináveis caminhadas sozinha, pensamento longe. Isso me segue desde pequena. Pés na areia ou pelo caminho de mata, descansa ou de bota. Essa sou eu, que sigo pelo caminho...
Voltei no tempo. Vejo-me brincando debaixo da escada de minha casa, isolada do mundo. Casinha montada com móveis achados nas mercearias de interior e outros montados com a ajuda de meus irmãos, tendo com matéria prima muita caixa de fósforo e muita criatividade. Casa completa, sempre. Uma irmã prendada fazia as roupinhas de bonecas e de camas. Um primor, como se dizia. E ali eu dava meus primeiros passos na compreensão do mundo, coisa que me ajuda até hoje. Conflitos de toda ordem, muitas vezes fortes para uma criança de tenra idade. Enfim...deve ter vindo dai minha veia de mãe, de amiga,  de eterna companheira de quem se abrir e merecer. E essa minha capacidade infinita de aceitação das coisas. Dramatizar o mundo ajuda a antecipar resoluções e entendimentos, penso. E faz crescer, mesmo que não pensem.
Casa, sim. Na praia desenhava na areia, a casa inteira, escala humana, muito bem mobiliada, em riscos feitos com galhos abandonados. E assumia nela muitos papéis. E ali ficava me vivendo da melhor forma. Brincava com outros -  pegar, esconder, armadilha, bicicleta -, mas era sozinha que me encontrava. Era sozinha que eu me via como era. Me entendia. Crescia. Talvez não na velocidade do mundo ao redor - coisa que nem hoje me acostumo. Mas veio dessa suposta solidão muito de mim. Muita poesia, muita verdade em mim, muito do que sou até hoje. Muito do que me escrevo. Do que me gosto.
Por exemplo: gosto de ter amigos. Adoro uma boa conversa. Mas é na conversa só, com o outro, que me acho. A visão dele se confundindo com a minha. A união possível das duas, dos dois. Não a tagarelice de muitos, ideias cruzadas, onde um só escuta um - o resto é fundo. Mesmo nos dias de hoje, a conversa escrita, onde não se tem a voz nem a visão, gosto. Nas palavras ali desenhadas, uma com outra, alinhadas, leio e me acho. Vejo o outro com olhos da imaginação e me vejo junto. E alimento pensamentos.
Ah, belas tardes de domingo que me perco escutando quem amo. Que me perco do tempo. O tempo pára. Conversas de mãe, histórias de pai, a infância resgatada. A vida de hoje, o que aconteceu na ausência, as ideias bem traçadas. Da vida a dois, do que se espera do amanhã, na cama e na vida. Fazem-me lembrar de coisa boa, doce deleite. Das conversas ao lado do fogão. Sentada na varanda a escutar 'os mais velhos'. Mesa do café posta, cheiro do recém passado. E eu, aninhada...fazendo da vida dos outros meus contos.
Ah, belas tardes de domingo...saudade do teu colo se fazendo de meu travesseiro...

"E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz,
e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem
e pestes se alastram e nós nem percebemos,
no umbigo do universo."


(Caio Fernando Abreu)

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