quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

End



Cena esperada, mas nem por isso menos estranha. Senta solenemente à mesa, empunhando, como sempre, papel e caneta.Chama para conversar. Sem grande  - na verdade nenhuma - discussão, pede que ela escreva ali seus desejos. O que quer da vida. Um resumo. Ponto e basta. Prático, como sempre foi. Momento seco e vazio, áspero até, como o papel.
Assim é a nova forma de se acabar um relacionamento. Ela até achou que iam ternminar via e-mail, como têm conversado nos últimos anos. Começa ai a dúvida. Relacionamento. Casamento. Sociedade, sabe-se  lá que nome dar. Aliança? Nem no dedo. Um enlace sem testemunhas, desenlace igual. Os dois, o papel em branco e a luz da luminária. A caneta que espera em vão ser usada. De música de fundo , a TV. Ela passa longe do papel, empurra para ele. Um papel em branco, agora poucos rabiscos, nervoso, como foram até ontem. Papel já muito desenhado , cheio de planos, mas não para eles. Papel já tantas vezes amassado  e jogado no lixo, assim mesmo, sem nada escrever. Não serve nem para reciclagem, bem sabemos. Papel por tantos outros tempos em branco, nem palavra , nem sonho. O que sobrou não se quer nem ver. Nem relembrar as mágoas de um e de outro, tantas, as dela guardadas em letras, as dele em pensamento. Ela escreve, ele pensa.Cada um com  sua cura. Cada um para um lado. Ela sonha, ele realiza.
Ela se acha, ele sabe que é.
Se pedissem para colocar no papel as coisas boas, nem lembrariam. Foram muitas, mas quem quer relembrar? A balança viciou para um lado só. Porque a mágoa faz isso: passa a limpo só o que não nos acrescenta. Não se lembra as conquistas, nem os aniversários. Nem as festas com amigos, os almoços de domingo. Nem as passagens engraçadas, as bem vividas. Nem as vezes que mentiram, juntos, um segurando o outro. Nunca mais as conversas sobre a vida, as tentativas de fazer o outro mudar, crescer. O muro foi sendo feito, tijolo a tijolo, até que não se enxergasse o outro lado. Agora estão com outro papel - não o de escrever, mas o de encenar. O palco está montado, as cortinas tem que se abrir, o show tem que continuar. Que se estapeiem na coxia. E que se 'amem' quando a peça começar.
Como diriam os franceses, "merde" para eles. A sorte está lançada.
O que fazemos com nossos relacionamentos? Porque , sempre, tão tênues? Porque não há amor, aquele, verdadeiro, de que tanto falo. Porque não há romantismo. Não há interesse além do já tratado. Porque ainda há dois, e amor é um só. Porque o que fica é o resto, xepa da vida. Ninguém será lembrado pelos méritos,a não ser os imortais - e mesmo esses,  só serão louvados após sua morte. Como os poetas. Como os artistas. Filósofos e escritores. Não enquanto são de carne e osso. Apenas quando virarem, enfim, pó.

"Mas tantos defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha... Só que não sei usar amor: às vezes parecem farpas..."
Clarice Lispector

4 comentários:

  1. Fiz a cena em minha cabeça. Vc deveria ser romancista! Tem uma incrível capacidade de externar as coisas, os sentimentos!

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  2. Tens razão, amiga. Poucos lembram do que fomos, só veem o que estamos sendo!
    Gi

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  3. És completa e nem te dás conta disso!

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  4. Fantástico esse texto! Ter tanta nitidez do momento, um momento tão difícil para todas nós!Cairam tantas fichas depois de ler que acho que vou sufocar...
    Tereza

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